<barrete-1> polémicas ac com o meio ambiente – inéditos ac de 1980 – mein kampf – inédito ac 5 estrelas

BABILÓNIA 1980

O BARRETE VERDE DOS ARQUITECTOS PAISAGISTAS

Como a cruzada em prol dos jardins Gulbenkian é manobra para nos distrair do crime de arboricídio em curso a escala nacional.

21/5/1980 - Alguns dos que choram agora lágrimas de crocodilo pelos arbustos pingentes e pela relva anã dos jardins suspensos da Gulbenkian, são provavelmente muitos dos que, directa ou indirectamente, têm sido os culpados pela campanha de árvores seculares abatidas há uns meses em curso por esse país fora, sem que uma só explicação tenha sido dada ou uma só denúncia tenha sido feita.

Doutores, engenheiros, arquitectos, paisagistas, desurbanistas e até jornalistas que vemos agora nesta cruzada heróica contra o infiel Abecassis em defesa de um jardim com vinte anos, estavam ou estão ou podiam estar nos gabinetes técnicos de apoio , nos gabinetes de urbanismo das câmaras que mandaram e continuam mandando abater árvores seculares de Lisboa, Paço de Arcos, Oeiras, Cascais, Bombarral, Tomar.

Isto para já e para citar só os casos de que me chegaram informações. Mas, por estas amostras, que não são tão poucas como isso e que envolvem , no seu conjunto, milhares de árvores já arrancadas pela raiz, é de supor que o Plano Arboricida estará em curso numa área e numa escala muito vasta. Sem que nenhum paisagista tenha piado. O segredo, ao abrigo do qual tem sido executado este Plano (e pelos sinais já conhecidos não hesitamos em falar de Plano) leva a pensar que os casos até agora chegados ao nosso conhecimento são apenas uma pinga de água no oceano de destruição.

II

Agora que estalou o escândalo doméstico dos jardins Gulbenkian, a cargo da família AD - entre marido e mulher ninguém meta a colher - , é talvez o momento de pôr os pontos nos iis e demarcar posições em relação a vários ingredientes em jogo nesta, pouco clara, manobra de distracção.

Devem os ecologistas, pelo menos, não se deixar misturar e confundir com esta carga da brigada ligeira de oportunistas de repente surtos no horizonte, amigos da natureza à brava e os heróis da fita verde.

Lá porque nem sequer é preciso pagar bilhete para entrar na rábula deles, não significa que tenhamos de ir ao espectáculo. Se eles querem claque, que a contratem nos habituais "trotoir" de Lisboa. Que lá vão fazer claque amigos da terra, ecologistas e militantes verdes, eu digo: não, obrigado.

III

Para a gente acreditar que há sinceridade neste súbito amor pela natureza de tantos técnicos e urbanistas que tão alegremente a têm ajudado a massacrar em inúmeras circunstâncias, seria interessante que à cruzada em defesa dos jardins de Academo se seguisse ou juntasse uma cruzada igualmente badalada pelos infatigáveis "mass media", explicando:

- Quantas árvores seculares têm sido abatidas nas áreas já indicadas e em outras de que não nos chegou informação (Mas os técnicos metidos nos serviços autárquicos com certeza sabem tudo)

- Que espécie de árvores são arrancadas e porquê? Se o critério é de antiguidade, em quantos séculos de existência se avalia as que foram ou vão ser abatidas? A que finalidade obedece a operação: puro vandalismo? Aproveitamento comercial das raízes? Lenha para queimar? Obtenção de espaço útil para ...parques infantis?

IV

"As árvores estavam secas" - é a desculpa que as autarquias põem a circular, difusamente, para adormecer a opinião pública, mas até hoje nenhuma declaração oficial, responsável, formal, pondo o preto no branco, foi dada por qualquer serviço, quando nós gostaríamos de ver os nomes concretos e respectivo número do contribuinte que para a posteridade devem ficar ligados à operação arboricida de maior envergadura até hoje realizada.

"As árvores começaram a secar depois de uma fumigação química a que foram submetidas" - este é outro dos boatos postos a circular, difusamente, sem que um comunicado claro tenha sido emitido até hoje às populações.

"Foram atacadas de bicho e aplicou-se um produto químico que as secou..." - é outro boato que circula à boca pequena, nitidamente para engrolar papalvos.

Se porventura alguma destas "bocas" tem o mínimo de fundamento, a opinião pública exige que se saiba: Quem pulverizou? Porque se pulverizou? Se era para matar bicho e se matou árvores, que raio se passa?

V

Em casos concretos observados por testemunhas oculares, algumas dessas árvores dadas como secas e que portanto foram abatidas, já mostravam rebentos verdes, demonstrando que, afinal, não estavam tão secas como isso nem tão definitivamente.

Curioso e espantoso é que, num país onde tudo se adia e onde nada que seja produtivo anda, a serra mecânica voou célere para os locais adrede preparados, a cortar rapidamente as árvores ditas "secas" ...antes que elas reverdecessem. A cortar, veloz, antes que ficasse a nu a verdade: a árvore não secou, mas teria sido seca artificial e provisoriamente para justificar o abate. A pressa, num país onde só a destruição anda de pressa, não leva a concluir outra coisa.

VI

Em Lisboa, não há praticamente um jardim imune a esta campanha de preservação da Natureza e melhoria do Meio Ambiente , certamente integrada na Campanha de Preservação da Natureza recentemente lançada a nível mundial pela actual Secretária de Estado do Ambiente, drª Margarida Borges de Carvalho. Se ela me soubesse explicar o mistério das árvores abatidas por este País fora, eu diria que é uma secretária formidável.

Estrela, Campo de Ourique, Praça da Ilha do Faial, Príncipe Real, foram só alguns dos casos de que recebi telefonemas, cartas e avisos, ou que pessoalmente pude constatar. Mas ninguém melhor do que a Câmara Municipal de Lisboa para dizer quantas árvores, quando, como e porque foram abatidas. Povo amigo, a câmara do Dr. Abecassis está contigo.

Nem a Imprensa, nem os urbanistas altamente preocupados com a clorofila, piaram até hoje sobre este escândalo que se tornou já rotineiro, apesar do espectáculo cruel de ver, dias a fio, raízes monumentais expostas à estupefacção pública.

VII

Se de facto esta campanha pró-jardim Gulbenkian não é apenas uma manobra de distracção, não é apenas uma questão de família AD, não é apenas um pretexto para fazer oposição fácil , não é apenas mais um capítulo de cenas eventualmente chocantes na história novelesca das chicanas interpartidárias, que nos digam, ao mesmo tempo, esses que nos convidam para colóquios e para assinar abaixos-assinados, o que se passa com as árvores gigantes deste País e para onde vão as raízes que, em alguns casos, são mais pesadas do que a própria árvore.

Como tais informações não têm sido dadas pelas entidades competentes e como, quando o jornalista aparece a perguntar, o ameaçam com a moca, - embora depois o convidem para ir a colóquios na Gulbenkian - estaria disposto a acreditar na sinceridade destes amigos da Natureza se, ao menos, tão heróicos, ajudassem a deslindar, de vez, este mistério das árvores abatidas por todo o País.

VIII

Mistério que grassa há uns mesas. E grassa com a graciosa ajuda de autarcas que agora andam excitadíssimos a chamar nomes a Abecassis, quando este faz, igualmente bem e a contento das mesmas forças ocultas, o que eles igualmente fizeram quando lá estavam a favor das mesmas forças.

Que as chicanas partidárias sirvam para ocultar o fundo grave de muitos problemas, já se tornou rotina. Que sejam um património folclórico a preservar, já que as regateiras da Praça da Figueira se encontram em vias de extinção, igualmente se tornou um dado irreversível. Um episódio do Folclore Nacional.

Mas que os Ecologistas se misturem com estes folclores, é que não tou percebendo nada.

Demarcar-se desta bagunçada toda de urbanistas e desurbanistas em crise menstrual, e mandarem às urtigas campanhas que eles inventam para nos deitar poeira na vista e para com inimigos secundários nos taparem o inimigo principal, é talvez o que os Ecologistas deverão calmamente fazer.

Já que vir algum dar contas ao País e ao Povo Português sobre o que é o Plano arboricida a Médio e Longo Prazo, é coisa que nem vale a pena já reivindicar,