<89-07-12-de> diário do escriba – inédito ac de 1989 – balanço das intuições-chave de 1968 – chave ac
BALANÇO DE 1968
Lisboa., 12/Julho/1989 - Ao retirar da minha gaveta de inéditos algumas páginas de 1968, não sei se hei-de regozijar-me ou entristecer-me: esse foi, de facto, o ano em que tomaram forma na minha cabeça as intuições que iriam fazer-se obsessões durante estes vinte anos, com os resultados que se sabem.
De facto, se nessa altura soubesse como iria evoluir a história, seria que me teria agarrado como agarrei a tais teses?
A verdade é que esses textos continuam hoje tão impopulares e tão impublicáveis como o eram há vinte anos: e a pergunta impõe-se, serei eu que continuo enganado e as minhas principais intuições eram todas erradas? Ou será a história que continua a patinhar no pântano sem ideias desta época vazia?
Penso que não é nada lisonjeiro verificar que, afinal de contas, levei vinte anos a pensar, a escrever e a publicar sempre o mesmo, e que tudo isso é nada.
Nessa meia dúzia de páginas, com efeito, está contido o essencial de tudo o que posteriormente eu viria, em milhares de palavras, em centenas de páginas, em dezenas de artigos, a repetir até à exaustão e ao fastio.
Agora que alguém inteligente como tu me diz que tem andado no meu encalce e tem sintonizado algumas dessas ideias, fico perplexo e pergunto-me se não deverei ser sincero contigo: se tu vais mergulhar em ideias que são meu triste fado há pelo menos vinte anos, sem que nada indique , sem que haja sinal de que essas ideias tenham vingado, será que vamos agora os dois esperar outros vinte anos até que o futuro aconteça?...
Temas obsessivos desse recuado ano de 1968 eram, com efeito, alguns como estes:
- A independência do investigador
- Pensar o simultâneo nas ciências humanas e sociais
- A estrutural abjecção da história: dicotomia entre vencidos e vencedores
- O método que falta para pensar a complexidade crescente do mundo
- O ciclo vicioso da violência
- Pasolini nas barricadas ao lado dos polícias♥