1-2 < 93-05-05-ac-rh-ce> 5 estrelas - afonso-afonso quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2003- novo word  - 4471 caracteres <acc-1>  <ac> <cartas> <adn> cartas a ac

DEUS ESCREVE DIREITO

POR LINHAS TORTAS

Lisboa, 5/5/1993

 

Se estás aqui a escrever-te a ti próprio, meu caro Afonso Cautela, é porque as coisas não vão lá muito católicas. Já se sabe: estás entre dois fogos, ou antes, entre dois ventos, ambos poderosos, e não sabes onde cair morto.

De um lado, o budismo tibetano, que te cativou, com artes mágicas, em 19 de Fevereiro de 1977, e por outro lado a Radiestesia Alquímica que, com artes mágicas, te cativou em Abril de 1992. A propósito, soubeste ontem, pelo Filipe, que o Santo Lama Rinpoché «partiu» em Setembro de 1991, por acaso, ou não por acaso, tu iniciaste, em Outubro de 1991, aquele «baixa médica» que te conduziria à crise das crises, da qual crise irias, aparentemente, sair, com ajuda do Pêndulo-guindaste do Manuel Fernandes, em Abril de 1992.

Se estás grato a todos, não podes estar ingrato para ninguém. E por mais que queiras não pensar em ti, afinal ainda estás preso em Auschwitz, que é Cabo Ruivo e os seus + que duzentos paióis da Petrogal.

Estás no Inferno do Inferno - é bom não esquecer - e tens que estar grato aos anjos bons que permitem que saias desse inferno à uma da tarde, anjos bons que te ajudam a coexistir com o Inferno.

Mas também o dr. Luz e Silva é o teu Anjo bom - marxista e leninista e comunista, mas Anjo bom - ainda hoje lá vais à consulta de rotina e se não fosse essa protecção tu estarias internado numa cela psiquiátrica ou já internado num talhão de um qualquer cemitério.

Mas não falemos de coisas tristes. Se me escreves hoje, meu caro Afonso Cautela, é porque te interrogas de maneira que o não podes fazer a mais ninguém: nem ao teu psiquiatra, nem ao teu guia Filipe, nem ao teu guia Manuel. De certo modo, o «oculto» e a necessidade do Oculto (o «calar-se» da mensagem da Esfinge) entendo-o melhor neste contexto.

Nos momentos agudos de crise, só podes falar contigo próprio. E por isso, no espólio dos teus escritos (files), um dos mais curiosos é com certeza este das cartas a ti mesmo <ac>. As «sementes» negras do Men Drub aconselhado pelo Filipe ao teu irmão Zé, na fase terminal da doença, foram para ti uma perplexidade. E o que tu viste foi que ambas as «escolas», a do Filipe e a do Manuel, eram entre si intransigentes contigo no meio.

Enfim, faz-te pensar que estás fadado para um impossível trabalho de síntese e de diálogo. Deves muito ao budismo tibetano, mas deves também muito ao Pêndulo. Os teus guias, de um lado e de outro, sabem com certeza o que fazer. E aconselham-se de modo correcto.

Mas tu não sabes se cumpres, sempre, correctamente, ordens e conselhos. Vês-te só e nesses momentos eles estão em recolhimento ou em retiro, e não podem atender-te. O teu mais antigo sindroma de solidão!!!!

Aqueles de quem precisas estão sempre ocupados e tu só querias tagarelar... Só podes falar contigo. Só podes contar contigo. Impressionou-te, por exemplo, a opinião do Filipe, ontem, sobre esse «bravo homem» que é o escritor norte-americano Carlos Castañeda, quando cometeu a heresia (?) de escrever em livro, de explorar em livro, uma tradição sagrada como o chamanismo. Que deveria continuar oculta como sempre esteve. Fica-me claro que, para ele, Filipe, era um acto perfeitamente sacrílego. E porque não o será?

Mas a verdade é que um dos livros que Manuel Fernandes me indicou para ler, foi precisamente «O Fogo Interior» de Carlos Castañeda, de que me emprestou a tradução francesa. É claro que se trata de um sacrilégio, mas a quantos sacrilégios não assistimos nesta era de Kali-yuga e terror?

Perante a grandeza de Deus, tudo afinal está certo porque tudo é pobremente relativo. E de que valem controvérsias («estou farto de polémicas» dizia ontem o Filipe).

Mas a verdade é que, no meio das controvérsias, do vendaval das controvérsias, há um viandante, um viajante ignorante e perdido que não quer renunciar nem ao budismo nem à radiestesia e que se vê açoitado por ambos os lados sem querer (ou poder) renunciar a nenhum. Espero que ambos os lados cumpram a Compaixão (Amor x 6) de que fala a Esfinge, de que fala a radiestesia e de que fala o budismo tibetano.

Confio na compaixão dos meus benfeitores, enquanto os meus malfeitores e guardas de Aushwitz não me acabam com o canastro. Deus! Deixa-me apenas morrer calmo e tranquilo. O que tu podes garantir, meu Caro Afonso Cautela, aos teus dois guias - Filipe e Manuel - é que se deus escreve direito por linhas tortas - e não há dúvida que escreve - é disso que se trata nesta conjuntura e em outras semelhantes.

Que linha mais torta do que tu próprio, meu caro afonsinho, para deus escrever direito?