<88-10-01-dj> = diário de um jornalista chatiado – inédito ac de 1988 – o afonso dos projectos – memórias pessoais
"RENOVAR O VELHO ESTILO
D' A CAPITAL SEM O TRAIR"
PROPOSTA PARA REESTRUTURAR O "GUIA DO CONSUMIDOR", PUBLICADO SEMANALMENTE PEL’ A CAPITAL, DESDE MARÇO DE 1984
Lisboa, 1 de Outubro de 1988 - Dentro do nova espírito que parece dever animar o jornal - renovar o velho estilo d' A Capital sem o trair - proponho a reestruturação do "Guia do Consumidor", que desde 15 de Março de 1984 (há quatro anos e meio) vem sendo publicado todas as semanas.
Entre outras sugestões para reestruturar e tornar este "Guia" mais interessante, mais de acordo com os ventos que sopram da Europa. proponho:
- Novo título que, sem omitir a relação com a "defesa do consumidor", antes alargue esta às matérias que hoje lhe são afins e que têm ganho, insensivelmente, nos últimos quatro anos, redobrada importância junto da opinião pública, importância que ainda não era explícita em Março de 1984;
- Autonomizar estas páginas semanais em suplemento mais amplo que pudesse suportar a carga de publicidade que se sabe estar implícita nesta "área unificada" de temas;
- Tomar a palavra "Prevenção", seguida de "saúde e segurança", como os conceitos-chave para exprimir essa "área unificada" de interesses e actividades, que vão desde os direitos do peão, do utente, do consumidor, do contribuinte, do cidadão, do consumidor, etc até à proposta de técnicas e práticas "alternativas de vida", em que se inclui o "faça você mesmo", o "bricolage", o artesanato auto-suficiente, as tecnologias leves (ecológicas), etc
- Passar a remunerar os colaboradores desse suplemento, o que até hoje nunca foi feito em quatro anos e meio com a dezena e meia de personalidades que colaboraram graciosa e regularmente nas páginas do "Guia do Consumidor";
- Dois redactores eventual e parcialmente disponíveis, além do coordenador, para poderem desenvolver o tipo de noticiário, reportagem e entrevista que esta área unificada" de temas e problemas implica, capturando uma actualidade que só passa despercebida porque a Comunicação Social pouca atenção dedica aos "problemas humanos" - ou o faz de forma acidental, não sistemática;
- Ainda que esta área da "Prevenção" – em sentido lato - tenha vindo a pressentir-se há uns anos, (o pensamento ecologista alertou para ela desde cedo), a verdade é que só agora, em 1988, aparece em Portugal, no mercado de publicações, uma revista formato Selecções, "Prevenção-Saúde", que copia o título e o formato da francesa Prevention-Santé, existente há já alguns anos;
- Especialmente a francesa, de nome Prévention, mostra como é rico, variado e ao mesmo tempo "inédito" para o meio português - matéria portanto da novidade que é sempre a actualidade noticiosa - , a carga de publicidade que esta "área unificada" abrange;
- Uma lista dessa carga de publicidade para Portugal tem sido elaborada, ao longo dos anos, pelo coordenador da página "Guia do Consumidor", na esperança de que um dia se possa utilizar essa informação como arranque de um suplemento que contemple a mesma referida área;
- A pretexto de tratarem "assuntos femininos", alguns magazines ultimamente aparecidos – Máxima, Elle, Marie Claire - vieram ocupar uma boa fatia dos temas de "prevenção" de que estou a falar, juntando-se-lhe alguns outros, afins e de crescente interesse junto do público, quer feminino quer masculino: no centro dos interesses poderá dizer-se que está o corpo individual e o culto do corpo, mas também o behavior, o"comportamento", de que são destacadas exemplos os "testes caracterológicos", os estudos de "biotipologia", os bioritmos e até a invasão dos astrodiagnosticos", entre outros;
- No centro de todos estes interesses e tendências poderá dizer-se que fica o "universo humano" face ao "universo cósmico", apontando insensivelmente para um futuro que, ainda balbuciante, as pessoas pressentem mas não sabem ainda definir: talvez seja dever da Comunicação Social ajudar a definir essa "nova onda" e a despertar essa "consciência cósmica" de amor pela vida, há séculos adormecida;
- Uma das rubricas que permitem desenvolvimento ulterior interessante - e já tentadas no "Guia" mas sem continuidade por falta de infra-estruturas de redacção - é a rubrica "Grupos em Movimento", só por si um programa noticioso que merecia ter continuidade e desenvolvimento;
- Nesta "área unificada" a que para facilitar chamei "Prevenção" mas a que outros, especialmente no mundo anglo-saxónico, chamam "Holística", diga-se que os brasileiros têm revelado uma intuição e uma agressividade muito maior do que os "mass media" portugueses, ultrapassando-nos em toda a linha e há bastante tempo.
Lembro, por exemplo, numa das revistas para a juventude feminina mais populares - a "Claudia" - a existência de um caderno destacável, com um título muito feliz e que contempla uma boa parte da por mim referida área unificada" - holística - o título e "Viva Melhor" e dá vontade imediatamente de copiar... Note-se que o "Guia do Consumidor" d 'A Capital, quando se iniciou em Março de 1984, se chamava "Saber Viver, Saber Escolher", que talvez fosse uma expressão a retomar e a dinamizar, até porque muito menos redutora do que o título "Guia do Consumidor";
- Dar por finda a publicação da "Crónica do Planeta Terra", que há dez anos e meio se publica n' A Capital, todas as semanas , (desde 15 de Junho de 1978), podia ser uma das ocorrências vantajosas a concretizar em simultâneo com o alargamento e autonomização do "Guia do Consumidor".
Com efeito, é talvez o momento de acabar a "Crónica do Planeta Terra", já que muitos dos temas nela analisados e que há dez anos eram heresia, entraram já nos costumes dos "mass media", restando apenas uma meia centena - de temas - que ainda são heresia e aos quais, portanto, teria de reduzir-se a "Crónica do Planeta Terra", aplicada desde o início a levantar os temas que ainda são (ou eram) tabu...
É talvez tempo de acabar com esta "pregação no deserto" e, em vez de emitir opiniões, dinamizar a informação da área eco-alternativa, que entretanto começou a passar do domínio das intuições e das ideias para o das práticas e actividades ...que dão notícia.
INFORMAÇÕES SUPLEMENTARES
(DE LEITURA FACULTATIVA)SOBRE A "ÁREA UNIFICADA" REFERIDA NESTA PROPOSTA DE
TRABALHO
GUIA DA QUALIDADE
AGENDA DO CONSUMIDOR
O esquema para destacáveis publicitários é:
- Destacável publicitário mensal com um sub-título onde entra a palavra
"qualidade" e um título especificando o tema
- Cobertura noticiosa regular da actualidade (na área) holística da
saúde, segurança e qualidade de vida
- Um a dois redactores para regularmente garantirem cobertura noticiosa
da área "qualidade"
- Coordenação do suplemento semanal e dos destacáveis mensais: Afonso
Cautela
VARIANTES TEMÁTICAS DO CONCEITO "QUALIDADE"
- Horizonte 1992
- Qualidade 1992
- Alimentação e Vida Natural
- Alternativas de Vida 1992
- Selecção da Qualidade
- Quadro da Qualidade
- Qualidade industrial
- Qualidade alimentar
- Qualidade de serviços
- Qualidade biológica
- Qualidade de vida
- Qualidade do Ambiente
- Qualidade dos consumos
EXPLICAÇÃO E JUSTIFICAÇÃO DO DESTACÁVEL "QUALIDADE":
"A Capital" passa a publicar , em princípio mensalmente, um destacável de 6/12 páginas, sobre os temas da "Qualidade", conceito-chave nos próximos anos até à consumação do Mercado Único da Europa em 1992.
Sem qualidade de vida, sem qualidade industrial dos produtos, sem qualidade do ar, da água , dos solos e dos alimentos, Portugal será definitivamente varrido da competição europeia. Ou nos fazemos líderes da qualidade (já que não podemos competir no campo da quantidade) ou seremos irremediavelmente esmagados na corrida para as metas de 1992 e ocupados , como país, por dentro, com a chegada em avalanche das várias profissões de "qualidade" que aqui vão desaguar com a livre circulação de pessoas e bens.
Como dizia Ribeiro Telles, ficaremos a exportar papel higiénico, se não nos fizermos líderes naquilo em que podemos ser ( e o boom dos têxteis ligado ao boom da moda é sem dúvida o exemplo mais significativo ).
Cinquenta por cento do espaço no destacável d' A Capital será ocupado com publicidade, também ela de qualidade: quer dizer, não se aceitará indiscriminadamente tudo o que vier, mas haverá um critério qualitativo para filtrar a publicidade e receber anúncios...
De sublinhar, para já, é o carácter inédito desta iniciativa , que por isso mesmo poderá rasgar a "A Capital" insuspeitadas áreas de publicidade ainda virgens...
É de sublinhar ainda que o destacável "Qualidade" não terá como efeito retrair os anunciantes e portanto diminuir o seu número , antes pelo contrário: estabelecerá uma peneira de escolha que tornará apetecível a muitos produtos e indústrias comparecer nessas páginas à partida seleccionadas, à partida envolvendo uma certa elite.
Este estilo de publicidade é corrente em outros países, mas em Portugal só teve uma manifestação notória e significativa, no princípio dos anos 70, com a revista "Conteste", de que se publicaram sete números e que foi inclusive pioneira da "defesa do consumidor", numa época em que era ainda heresia um semelhante assunto.
A publicidade selectiva segundo um critério é hoje uma espécie de crivo orientador no oceano de publicidade indiscriminada, que submerge o consumidor e o desorienta.
Conforme se indica na minuta da carta-circular que "A Capital" poderá (deverá) enviar ao sr. Anunciante (seleccionado), o destacável mensal será suplementado por uma atenção regular, tanto quanto possível diária d' A Capital às actividades e aos acontecimentos em torno da "qualidade", com a adequada cobertura noticiosa.
Novidade, nesse contexto, e que poderá constituir matéria de notícia, reportagem ou entrevista um acontecimento que, embora de carácter comercial, foi seleccionado como matéria normal de actualidade e portanto susceptível de notícia.
Pretende-se, é evidente, dar a entender que este espaço do jornal se destina a uma ''elite'', que não e a elite do dinheiro, nem do poder político ou económico, nem da classe social, mas uma elite do bom gosto e da inteligência, uma elite europeia , no sentido do afinamento cultural e da contra-barbárie que é a outra vertente da Europa meramente economicista, monetarista industrial, bolsista...
O fenómeno que actualmente se está a verificar, por exemplo, com os produtos de beleza, que numa revista a cores de 84 páginas como a "Ola", ocupam 9 páginas inteiras de publicidade, e o que irá verificar-se em breve com outra área, até agora adormecida, aquela que se pode reconhecer na designação "Qualidade de Vida".
"A Capital" que até foi pioneira na atenção dada a esta área, bem podia ser também o jornal que , antes dos outros, aproveitara o "boom" da publicidade que aí vem.
Não sendo esta área destinada exclusivamente a uma elite do dinheiro mas a uma elite do bom gosto (ao contrário da área "perfumes" ou da área "moda", os outros dois "boom" mais recentes) é evidente que a publicidade não se mede por páginas inteiras a cor - como acontece aos anúncios de uísque, alta costura, automóveis, viagens em paquete de luxo - mas por uma publicidade menos luxuosa e espafalhatosa, mais adequada ao preto e branco do jornal e ao papel não-couché.
Ao contrário de revistas como a "Olá", endereçadas à classe abastada, "A Capital" pode assumir o papel de grande jornal para a classe média, com um poder de compra que os impostos limitam num certo "plafond",
Para já, um dos slogans possíveis:
"COMPRAR MAIS BARATO É COMPRAR QUALIDADE"
" FICA MAIS BARATO COMPRAR QUALIDADE"■