<59-10-03-on
> versos publicados em «o nariz», páginas 15, 16 e 17NEM DOENTE
Lisboa, 3/10/59
Nem doente
nem triste
nem só
nem indiferente
e só porque vieste.
A coragem
se coragem há
és tu com tua luz
com tua companhia quem ma dá.
Aceito a morte
já aceitei a vida
e um bocado de pão da tua mesa
um bocado da esperança que trazias.
São brancas as paredes onde estou
são brancas e vazias
porque só tu és a paz
a grande paz sem dor
dos mortos como eu.
Só uma hora existe
só uma hora é certa
só um instante conta
o instante em que voltaste.
Nem doente
nem triste
nem só
nem indiferente
aceito hoje a vida
porque aceitei a morte.
De tanta coisa bela que não vimos
do que falámos os dois lado a lado
do bem e mal que fizemos ou nos faltou fazer
dos anjos que levantámos à nossa cabeceira
das crianças que amo e amas porque somos crianças
das almas que a nossa talvez santificasse
do dinheiro que nos faltou perder
por amor às coisas puras
das coisas que não custam dinheiro
porque só a nossa vida as paga
da vocação que é nossa e ninguém compreende
de tudo o que perdemos porque não quisemos ganhar
da beleza que importa espalhar por toda a parte
sem importar onde e sem olhar a quem
de tudo o que sabemos e sentimos
nada sabem os homens que sabem tudo.
*
O meu coração parou à tua espera.
Lisboa, 25/10/1959
*
Talvez as horas que dormimos a mais
Sejam horas a menos no nosso sofrimento.
Lisboa, 28/10/1959