1-4 <92-04-28-cw> 5 estrelas domingo, 2 de Fevereiro de 2003- novo word - [ texto estritamente confidencial e absolutamente impublicável]

 

A UNIDEOLOGIA EXPLICADA ÀS CRIANÇAS

EXEMPLOS COLHIDOS

NA ÁREA DA ECOLOGIA HUMANA E ARREDORES

[ 28-04-92]

A Unideologia é perita em «manobras dilatórias», um dos dispositivos do seu arsenal a que recorre com mais frequência.

Ela desvia as atenções para o Elefante para fazer entrar a Formiga (ou vice-versa).

Ela encontra «bodes expiatórios» nos níveis intermédios da responsabilidade (mal pagos), da hierarquia social que serve o capitalismo. Ela joga simultaneamente em vários tabuleiros e usa, regra geral, vários braços armados, deixando para os protagonistas do Poder, os papéis simpáticos e populares.

ECOLOGIA HUMANA: CAMPO PRIVILEGIADO DA UNIDEOLOGIA

A Unideologia consegue este prodígio: quando há «doenças da civilização» aos punhados, «doenças do Ambiente», «doenças do Consumo», «doenças do Trabalho» de inacreditável gravidade, consegue mobilizar a opinião pública para o espectáculo grotesco da sida (ver dispositivo Elefante-Formiga), que de duas uma: ou existe como imunodepressão generalizada nos tempos que correm e é apenas uma doença do ambiente industrial (ainda que a mais paroxística e mãe de todas as doenças), ou então não existe: como produto de um vírus, a sida é apenas uma anedota mal contada.

Só que a Unideologia caracteriza-se exactamente por conseguir convencer todo o Mundo de coisas que nem sequer existem. Ou existem mas, se forem implicitamente denúncias espectaculares contra o sistema ( e a Imunodepressão põe esta sociedade definitivamente no Banco dos réus), a Unideologia consegue dar-lhes a volta e responsabilizar...o Vírus.

Não é argumento que a doença assim designada tenha incidência no Terceiro Mundo não industrializado: se há sucesso de que a Unideologia se pode gabar é a rápida exportação de poluições e doenças típicas do industrialismo.

Aliás, a imunosupressão tanto pode ser um resultado da Pletora alimentar como da Fome: porque a Pletora alimentar em termos de quantidade significa, nas sociedades industriais, a fome oculta a que tantos já se referiram.

Pergunte-se a um socialista, a um social democrata, a um democrata cristão, a um comunista, a um anarquista, a um maoísta, a um trotsquista e a um anarquista: todos acreditam na sida, como todos acreditam na medicina oficial, na ciência oficial, na tecnologia oficial, no discurso oficial, na tecnocracia oficial, na mitologia oficial,

Modelar é este caso - o chamado vírus da SIDA - para definir o poder e a amplitudade da Unideologia: ele é um prodígio de hipnotismo e de manipulação do homem pelo homem

A Unideologia permite que seja dado o Prémio Nobel à leucotomia pré-frontal de Egas Moniz, que a própria ciência viria a reconhecer mais tarde como uma operação assumidamente nazi-fascista: mas na altura o premiado foi saudado como grande democrata e anti-fascista e tanto mais saudado quanto de facto o era. Só que - viu-se mais tarde - não era.

Mas a Unideologia caracteriza-se exactamente por esse poder de hipnotização colectiva, que só tem rival no poder amnesiante que também possui: veja-se por exemplo a Perestroika, palavrinha mágica que apagou (a borracha é outro grande dispositivo da Unideologia) todos os crimes estalinistas, pré e pós. Aliás, poderá dizer-se que a PERESTROIKA é outro dos seus dispositivos fixos de poder.

A Unideologia paga para em uma página, de preferência em papel «couché» e tetracromia, se fazer o elogio dos Antibióticos e paga para, na seguinte página, se fazer a crítica «científica» (quer dizer, dubitativa:« pode ser isto ou pode ser aquilo, os cientistas ainda não concluíram») dos mesmos antibióticos, barrando o caminho a qualquer tentativa de crítica radical, que chame aos antibióticos o que de facto são: um crime contra a saúde pública.

A Unideologia tem artes de financiar campanhas contra o uso de animais para experiências de laboratório, na aparente e piedosa intenção de amor aos animais, mas trata-se apenas de fazer esquecer junto da opinião pública que os doentes são sempre, urbi et orbi, cobaias dos medicamentos, dos novos e velhos medicamentos, constantemente introduzidos no mercado e que raramente são testados em animais. A Unideologia, aliás, tenta convencer a opinião pública de que os efeitos produzidos no Homem pelos medicamentos são iguais aos produzidos em Ratos, ou podem ser inferidos destes, o que é uma redonda mentira. Além de ser um insulto à qualidade especificamente humana das pessoas.

A Unideologia consegue arranjar um nome inocente, pomposo ou apenas eufemístico - «novas doenças» ou «doenças da civilização» - para as doenças que são pura e simplesmente produzidas, provocadas, causadas pelo capitalismo galopante e pelo ambiente de terror tecno-industrial, instaurado, principalmente, depois de Hiroxima.

A Unideologia consegue o à-vontade que a revista «Olá» (30.5.1987) mostra, ao intercalar entre dois pujantes anúncios de bronzeadores, com as sereias já devidamente torradas aos raios solares, um artigo muito providencial e amigo das leitoras: «Cancro da Pele: um perigo crescente a merecer congresso». Em matéria de Ecologia Humana, a Unideologia atinge, regra geral, requintes desta grandeza.

Como é que a indústria das Próteses Oculares, se não estivesse inspirada na Unideologia (que santifica a Prótese), atingiria o florescimento que actualmente tem? Se o mundo industrial não estivesse dominado hoje pelo pesadelo visual dos media electrónicos, dos ecrãs catódicos de computador, dos relâmpagos das fotocopiadoras, etc, como é que se podiam vender óculos (armações) que vão de 5 a 150 contos? Se não estivéssemos mergulhados num sistema que tem na vista - orgão hipersensível do ser humano e inclusive sede de uma das suas zonas reflexas - um dos seus alvos predilectos de agressão, quem iria investir na indústria de oculista? Como a United Colours of Benetton.

Só a Unideologia conseguiria o prodígio de se referir à doença do patronato (a doença por excelência provocada pelo Patronato e adjacentes) - o Stress - com o à vontade que todos os dias os «media» revelam.

Aqui a Unideologia usa um dos seus dispositivos de psicomanipulação predilectos: repetir para banalizar e banalizar para minimizar.

A Unideologia tem lata (e só ela a tem) de encomendar a um articulista de serviço um artigo de denúncia das explosões nucleares na atmosfera, no mesmíssimo dia em que as ex-grandes potências - URSS, EUA, China, França, Grã Bretanha - acordaram começar as experiências subterrâneas, com o rol de sismos que têm assolado o Globo desde então.

Só a força da Unideologia, aliás, conseguiria ter toda a gente em todo o Mundo convencida de que, desde então, os sismos nada têm a ver com os milhares de explosões subterrâneas efectuadas. Só a Unideologia consegue tornar Opaco, de uma Opacidade total, o que é o estridente e «ululante» óbvio( outro dos seus dispositivos de Poder invencíveis).

Só mais um exemplo da Unideologia no campo da Ecologia Humana: a coexistência Leste-Oeste, dita pacífica, raiz da Unideologia, permitiu algumas realizações de grande vulto no campo da Utopia tecnocrática e outras que -- de tão utópicas -- nem chegaram à prática, mas ficaram como ameaças de megagigantismos e megaengenheiros, pairando sobre as nossas cabeças:

Unideologia é assim: cura os males da tecnologia com mais e mais cara tecnologia, responde a um poluente industrial industrializando um anti-poluente, resolve as marés negras com detergentes, depois de 20 anos de vários Clorofluorcabonos, começa a industrializar produtos de substituição, que daqui a 20 anos serão substituídos por outros, depois de o mercado estar saturado de ecrãs radioactivos de monitores, lança um ecrã não radioactivo, etc

A Unideologia tem a seu favor o sindroma do «tele-efeito» ou efeito a retardador, do tipo «bomba-relógio»:

- Petroleiros afundados, submarinos atómicos afundados, cargueiros com produtos tóxicos propositadamente afundados, etc