<unidª-3 >
UM TEXTO
PRETENSAMENTE EXPLICATIVO
Lisboa, 28/Abril/1992 - J.C.M.: Vais talvez receber um texto pretensamente explicativo do que é unideologia: mas desde já com um aviso prévio. Em nenhuma circunstância seria para publicar, pelo menos sem que seja expurgado de muitos parágrafos.
Só um pedido teu me faria regressar a montes de papel que já prometera a mim próprio nunca mais desatar, pois atados já estavam e metidos em caixotes, a caminho não sei muito bem de onde. De parte nenhuma, provavelmente. É matéria, além do mais, bastante inflamável e, como verás, pouco ou nada tem a ver com os ecologismos que se têm consumido por aqui. O nome de «unideologia» que dei à Sofística que se exala de todo esse conjunto de factos e datas da abjecção contemporânea, foi circunstancial e o mais moderado que encontrei, pois sei que não gostas de nomenclaturas muito escatológicas.
Definir Unideologia, portanto e como calculas, não é só ter que meter as mãos na merda e perder mais horas a pesquisar os arquivos que cautelosamente fui mantendo, apesar de terem ido toneladas de papel pró lixo. Não é só esse desgosto de voltar a tantas horas e energias desperdiçadas: é reconfirmar o que de perigoso tem a ecologia, quando vista por esse lado ...humano.
Os cargueiros afundados servem dois (pelo menos) objectivos:
- lançar no fundo do oceano detritos tóxicos e perigosos que tanto embaraço causam em terra firme;
- a notícia de cargueiros desaparecidos vai intensificar a consciência do medo do consumidor, que se segura bem segurado quando tem mesmo que mandar despachos por mar...
Durante anos, a ponte de S. Luís (?) no Porto - cai, não cai - foi matéria de ameaça para milhares de utilizadores do comboio. Aí, tratava-se de motivar politicamente qualquer governo para empreender a construção de uma nova ponte que logo, na inauguração, se viu rodeada de incidentes «ameaçadores», com esse louco do engenheiro que se julga génio a presidir à encenação . Além de espevitar os dinheiros do Governo para a construção da nova ponte, a periclitante ponte antiga naturalmente estava e está de tão boa saúde como sempre esteve. Mas não faltarão engenheiros abalizados a confirmar o estado «periclitante» da dita...
Uma indústria subsidiária, além dos Seguros, que também ganha com o Medo é a dos Tranquilizantes e a dos Estupefacientes. Etc.
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