1-3 < 91-04-15-fi> ficções do afonso - domingo, 23 de Fevereiro de 2003-novo word - 7564 caracteres  <sindroma><ficções><esquemas abertos>

A VIDA TEM ASPECTOS BONS

E ASPECTOS MAUS

15/Abril/1991

«O doente sofre de sintoma reivindicativo» - declarou a drª Pitagórica da Silva, psiquiatra licenciada pelo Instituto de Lovaina com pos-doutoramento pela Universidade de Tirana. Os outros três elementos da junta médica, que eram de clínica geral, puseram o seu melhor e mais sóbrio semblante, confessando que essa do «sindroma reivindicativo», embora inédita para eles, não lhes parecia nada mal. Mas o Manuel Calabessa, alvo das sevícias e trabalhador acusado de não se adaptar às novas tecnologias de vida importadas da gloriosa Roménia, tinha dificuldade em mastigar e assimilar semelhante acusação, quando ele resolvera apresentar um requerimento pedindo que o mudassem de secção, porque os trinta terminais de computador, em espaço tão restrito como era a sala de trabalho do Ministério da Segurança, lhe causava uma certa psicose da prisão e ele, desde que fora detido em Itália, por engano, nos anos sessenta, como agente das Brigadas Vermelhas, que não era, ficara com uma certa alergia aos espaços fechados, ainda por cima altamente radioactivos. Enfim, congestionados como um ovo mutante. Ele defendia-se, não reivindicava. Quanto muito, a Drª Pitagórica da Silva deveria acusá-lo de «sindroma defensivo», se quisesse ser cientificamente correcta quanto uma psiquiatra da última vaga, pós gulag, o deve ser.

Teve então o Calabessa a ideia de se colocar em minoria, no meio de 97 funcionários que se sentiam todos bem e adaptados, manifestando-se apenas ele, isolado, solitário, sozinho, incomodado quando todos os outros se sentiam bem e confortáveis. Começa por oficiar ao seu chefe, pedindo que se analisasse, em defesa da legalidade democrática, o nível de radiações existente no local de trabalho. Ou há radioactividade, ou comem todos. O chefe ficou verde e o Sporting não jogava essa noite, que faria se jogasse. E desde logo decidiu, com o seu staff de especialistas em engenharia humana, o que fazer desse rebelde que se atrevia a pedir mensuração de radiações com um contador Geiger na sala dos monitores de computadores. Impróprio para consumo, esse pateta.

O «staff» aconselhou-o da maneira mais científica, positiva e democrática: «Mandem-no a uma junta médica que provará, por A + B, que ele sofre de psicose reivindicativa declarada que avança perigosamente para o limiar da revolta manifesta e expressa.

Perante esta imperativa contingência, o Bessa contratou por quarenta mil rublos o seu médico assistente que, como advogado, iria integrar a troika de sumidades imposta pelo patrão. O Hospital de Doidos -- vulgo Rilhafoles -- onde as sessões da Junta médica decorriam dava a entender que era urgente internar o Manuel Calabessa por «doença psiquiátrica», e para isso era necessário o agreément da classe científica sempre requisitada para meter alguém no gulag, Isto que evocaria a um observador não actualizado as técnicas tão largamente utilizadas pelos próceres do nazifascismo soviético, emanava afinal da Faculdade Católica de Trento, onde todos os especialistas em Engenharia Humana recebiam formatura. No entanto, aqueles senhores, especialmente a senhora, integrantes da troika que o iria julgar e condenar como psicótico grave, nada tinham de esquerda antes pelo contrário: teriam vindo, segundo o Partido Anatoliano, dos sectores mais reaccionários e conservadores das antigas colónias de África. A metodologia usada, no entanto ou por isso mesmo, nas juntas médicas era indiscernível da que as grandes escolas de Psiquiatria indicavam no grande império do sol nascente.

No pequeno país onde o Manuel Calabessa agora fazia tirocínio para o calabouço (passe o trocadilho de mau gosto) e o itinerário de patriota com horário das 9 e meia da manhã às cinco da tarde, era quase indispensável que se pudessem reproduzir os mecanismos totalitários do grande império do Leste... No entanto, imitavam bem. Não fora em vão que a D. Pitagórica da Silva se formara na melhor universidade de Tirana onde foi a última colega de carteira da Madame Ceausescu, antes desta ascender a primeira dama do regime e a figura mítica da ciência médica e biológica da época, não só no seu país, mas em toda a Europa civilizada e em todo o Ocidente que prezava os santos princípios da democracia pluralista, vários canais de televisão e da Igreja científica.

Manuel agarrava-se, no entanto, a questões menos épicas, de pormenor: e achava uma tirania, assim às claras, não saber nem sequer os «motivos» que levaram o chefe a convocar a troika psiquiátrica para o julgar. Vedavam-lhe o acesso ao processo. O próprio médico assistente via-se grego -- e muitas vezes via-se cipriota -- nada conseguindo saber do dossier guardado no maior segredo. Manuel agarrava-se à letra do regulamento, esquecido de que a letra do regulamento e de todas as leis, era o próprio cimento armado da Pátria e da Revolução, mas não era propriamente aplicável à nova classe dirigente, à classe que detém o poder, obvia e logicamente, para oprimir legalmente o oprimido.

A sua formação política, nas franjas das «Brigadas Rossas», não dava para ele entender destas subtilezas e que um sistema destes, baseado nas finuras da lógica matemática não de destrói à bomba. E por isso a esperança reformista de Manuel ia também para a directiva comunitária exalada do grande império do Centro que, a partir de 1992, se dizia aplicável também ao País. Esperava ele então que a directiva central viria encher de brios dirigentes a Função Pública e que iria haver medidores Geiger em todos os locais de trabalho para saber o nível de radiações aceitáveis e suportáveis sem risco de cancro pelos trabalhadores. Os mendigos nas ruas, por exemplo, tinham desaparecido completamente, o que deve ser interpretado como um sinal indubitável de progresso social. Quando os efeitos da radioactividade se sentissem daí a 10 anos, muitos deles já tinham passado à reforma, ao cemitério, à história - e quem iria provar que os cancros, as leucemias, os tumores da próstata nas mulheres e dos ovários nos homens, eram provocados pelos níveis de radiação no local de trabalho.

Todos a fezer tijolo, quem iria indagar e desenterrar os processos que ficaram no tribunal de trabalho?

A resposta do Chefe ao ofício do Manuel fora sucinta, clara e irrespondível: «A firma que nos forneceu os computadores garante que as radiações se mantêm aos níveis admitidos pela CEE, pela OCDE, pela OMS e pela OIT. Não temos nada que fazer escusadas medições. Elas já vêm feitas do laboratório de origem e da firma que fornece a merda dos computadores» -- acrescentou, exaltado, o chefe de divisão.

Aos 57 anos, o Manuel estava quase decidido a morrer uma morte santa, radiosa e calma e repousante: antes isso do que as correrias para a integração no mercado central e a barafunda inerente aos vistos de entrada, com bichas de quilómetros como as melhores que jamais tinham sido realizadas. Aos 57 anos, o Manuel estava quase vencido nesta batalha solitária e nem sequer percebia que, através dele, como através de uma radiografia, se revelava o esqueleto podre do sistema. Mais democrático do que a Psiquiatria só a prisão de Sing-Sing, célebre no Império da Ponta Ocidental. Mais científico do que a Primeira Dama da Roménia, mais cadaveresco do que o futuro que aí vinha regado a champanhe de comemorações e glórias e efemérides e metas e expouniversais e globos terrestres girando à velocidade da luz -- tudo era pouco, tudo era pequeno face à grandeza do Nada -- e com toneladas de crude no Golfo de Génova. «Comam até se saciarem» ciciava ainda o lóbulo selvagem do cérebro de Manuel. « Afinal -- dizia o Dr. Gormezindo Neves, sempre moderado -- a civilização tem aspectos bons e aspectos maus.» E virando-se para mim, numa pirueta tonitruante:« Graças à ciência é que o senhor, hoje, não só está vivo -- numa idade em que já devia estar morto e bem morto -- como dispõe de frigorífico e de máquina de lavar. Merda. Aos ingratos, que a terra lhe seja bem pesada. Já viu como, graças à ciência, tenho uma amante mais nova do que eu?» - acrescentou ainda o dr. Gormezindo, firme na posição de cientista que do peito assumia e do cu lhe saía, com o santo patrocínio da santa madre igreja católica.