<requena> clássicos do século XXI

 

OS ELIXIRES DA ENERGIA

Por YVES RÉQUÉNA

«O que as flores têm para oferecer, não é mais nem menos do que a sua alma.»

O VEGETAL, AS HIERARQUIAS

(19/10/1998) - Para quem se interessa pela natureza, o primeiro contacto, o mais nobre, é com o mundo vegetal, as árvores, a floresta, as plantas que designamos de simples, e as flores. Uma história de amor, na qual parece que o vegetal tomou, na criação, o lugar de servir, de cuidar ou mesmo de iniciar o homem sobre este planeta.

No domínio da saúde, parece haver uma hierarquia entre as árvores, com árvores santas e veneradas como a oliveira, plantas como o visco dos druidas, a alquemila ( Alchemilla vulgaris)dos alquimistas ou ainda a angélica revelada aos homens pelo arcanjo Rafael, segundo a lenda, para lhe permitir ligar-se aos roteiros celestes. Enfim, no alto da escala, as flores.

Entre estas hierarquias, existem outras na recolha e na preparação. As decocções de casca de árvores ou de raízes são de uma grande utilidade para tratar o corpo físico, a drenagem forte, a imunidade, o sangue.

As infusões, as tinturas tratam o corpo e a energia.

Os óleos essenciais, tal como as águas residuais desta destilação ( a que chamamos águas florais ou hidrolatos), dizem respeito não só ao físico mas sobretudo à parte mais subtil do corpo físico, o corpo energético.

Enfim, os elixires florais obtidos pela exposição ao sol, na água de fonte pura, de flores colhidas de fresco, sensibilizam a parte psíquica ou espiritual do indivíduo.

A FLOR, QUINTESSÊNCIA

Através deste modo especial de exposição da flor na água ao sol, é a parte mais subtil da flor que é recolhida, quase apetece dizer que é o sentido do recolhimento, tal como o recolhimento religioso.

Na tradição budista, colocar flores cortadas de fresco sobre o altar, numa tigela de água pura, não é o que se chama oferenda aos deuses?

Em medicina, os elixires florais vão agir sobre a alma das pessoas e modificar, segundo a tradição, a sua qualidade de receptividade aos roteiros celestes, ou mais familiarmente, permitir ao psiquismo, à personalidade incarnada, de receber a mensagem emanada da alma, ou , se se prefere, do princípio psíquico espiritual, a que o taoísmo chama o Shen.

É por isso que tenho o costume de dizer «o que as flores têm a oferecer, não é mais nem menos do que a sua alma», porque parece que a essência do vegetal reside na flor e, para lá do perfume, na sua quintessência, a alma.

Basta lembrar a linguagem das flores , a significação da rosa vermelha na simbólica do amor e as propriedades extraordinárias do óleo essencial de rosa no psiquismo, sobre os desgostos de amor, como tradicionalmente no plano espiritual, na abertura dos centros subtis: coração e terceiro olho.

TRATAR PELA ENERGIA

De todas as medicinas tradicionais que tratam tendo em conta a energia, creio que é necessário citar três maiores: a medicina ayurvédica, a medicina tibetana, a medicina chinesa. As três têm uma farmacopeia impressionante.

Há 15 anos, enquanto acupunctor, interessei-me em descrever as indicações clássicas das nossas plantas europeias à luz da energética chinesa. Um vasto mundo foi então descoberto.

Mas para bem lhe saborear as subtilezas, é bom lembrar as concepções energéticas próprias da acupunctura e a farmacopeia chinesa, nomeadamente a teoria dos 5 elementos.

OS 5 ELEMENTOS DA ACUPUNCTURA

Em acupunctura como em farmacopeia chinesa, os órgãos são classificados segundo cinco elementos: a Madeira, o Fogo, a Terra, o Metal, a Água. Cada um dos cinco elementos agrupa um órgão e uma víscera com os seus meridianos, um tecido orgânico, um órgão dos sentidos, uma emoção de base, ligados a um planeta, uma estação do ano, uma direcção do espaço, um clima.

Esta classificação permite compreender o raciocínio da farmacopeia chinesa que é globalmente o seguinte : qualquer acção, como a acupunctura ou as massagens, ou todas as substâncias como as plantas que agem sobre um Elemento, é capaz de se repercutir em todas as suas correspondências.

Se, por exemplo, tomamos a madeira, uma planta influenciando este elemento actuará sobre o fígado e a vesícula biliar, mas também sobre os músculos (tecido orgânico) , sobre os olhos e a vista (órgão dos sentidos) e igualmente sobre a cólera, a agressividade, a ansiedade, o nervosismo (emoções de base).

Um conhecimento mais aprofundado do papel do fígado e do seu meridiano em energética chinesa, permite relacionar o fígado com sintomas tais como as regras dolorosas, as varizes, as alergias imediatas, a asma dos fenos, as enxaquecas, etc.

Se no Ocidente desde a antiguidade grega e romana,até à idade média e as nossos dias, foi possível descobrir o uso de plantas por empirismo, por esoterismo ou pela teoria das assinaturas, e hoje pela farmacognosia científica, é claro que a coerência de cada planta, quer dizer, a sua identidade energética, deverá surgir. E é o que efectivamente se passa.

Assim, no exemplo do problema do fígado que citámos, podíamos utilizar a anémona pulsatilla, prima aliás da anémona hepática, para o resolver. Com efeito, esta planta é indicada para crises de fígado, dor de fígado, enxaquecas, taquicardia, medo, asma dos fenos, angústias, regras dolorosas... Para esta última indicação, a prova científica é feita dos efeitos antifoliculinas naturais da anémona pulsatilla.

É assim que, de maneira mais ou menos complexa, é possível analisar 100, 200 plantas ou mais da nossa farmacopeia europeia para as classificar, não somente pela sua acção sintomática sobre o corpo e as emoções mas também relativamente à sua acção sobre a energia dos órgãos e sobre os 5 elementos.

O NASCIMENTO DOS ELIXIRES ENERGÉTICOS

A ideia era conceber fórmulas para tonificar ou para dispersar cada um dos 5 órgãos da medicina chinesa.

Mas sendo um órgão , como se viu, coisa complexa, era preciso agrupar na fórmula:

- por um lado , plantas que iam no mesmo sentido da tonificação do órgão, cobrindo o conjunto das indicações específicas correspondendo a este desequilíbrio, e seguir o mesmo raciocínio para a dispersão e isto para cada um dos 5 órgãos.

É assim, por exemplo, que o alecrim viu atribuir-se-lhe o papel principal na tonificação do fígado, enquanto o taraxaco ou dente de leão é o líder para a dispersão.

- por outro lado, plantas que podiam agir sobre o conjunto. Porque um órgão em medicina chinesa, tem uma dimensão física pura (como em medicina ocidental), mas também uma dimensão energética com o seu meridiano, com o que é habitual designar de «ki do órgão», igualmente uma dimensão psíquica e emocional e, enfim, como na medicina tibetana , uma dimensão espiritual.

Não é evidente para um espírito ocidental falar da dimensão espiritual de um órgão mas isso existe na Índia, no Tibete , na China.

O leitor certamente já compreendeu que a melhor maneira de agir sobre todos estes níveis ao mesmo tempo, era, pensamos nós, combinar as diferentes formas de preparação das plantas:

- os extractos de plantas selvagens ou de cultura biológica, após maceração em três meios diferentes como o álcool, a glicerina e a água, desempenham o papel de tintura doce, pouco alcoolizada, cujos efeitos são sobretudo físicos

- os óleos essenciais , em doses infinitesimais na fórmula estudada, podem aumentar o nível vibratório da preparação e agir no plano mais especìficamente energético, o meridiano e o ki do órgão;

- as águas florais ou hidrolatos agem de maneira harmonizante sobre o corpo energético e o psiquismo , as emoções

- os elixires de flores, enfim, ou elixires florais, influenciam com a sua quintessência o corpo emocional e o aspecto espiritual do órgão.

SINERGIAS E PERSONALIDADES

Sinergia é a palavra chave para definir os efeitos dos elixires energéticos, porque nos apercebemos, quando misturamos as diferentes facetas das plantas no seu conjunto, que a planta acaba por dar tudo o que ela oculta. Ela se coloca totalmente ao nosso serviço para dar a melhor de si mesmo nos planos: físico, energético, emocional e espiritual.

Cada órgão faz ressonância com os planetas do sistema solar.

Existe uma adequação invisível entre os planetas, os órgãos e os indivíduos.

Quando uma pessoa está sob a influência mais precisa de um planeta, e por consequência da actividade do órgão correspondente, é o seu sistema físico, os seus meridianos e o seu carácter que são influenciados.

É o que postula desde há 6000 mil anos a medicina chinesa, de acordo aliás com a medicina grega antiga cujos temperamentos de Hipócrates são uma perfeita ilustração.

Ainda nos resta demonstrar e explorar todas as relações tradicionais esotéricas entre o cosmos e o homem na sua tipologia planetária ou pelo elemento.

OS ELIXIRIES ENERGÉTICOS, UMA PANACEIA

Os limites da acção destes elixires são talvez comparáveis aos da acupunctura já que, eles agem no mesmo sentido de equilíbrio da energia dos órgãos, enquanto a acupunctura será escolhida, de preferência aos elixires, para problemas mecânicos.

Os elixires, pelo contrário, serão escolhidos como moduladores notáveis na prática corrente sobre os problemas funcionais diversos e sobre o psiquismo, o domínio emocional.

Ilustrando com um exemplo, citaremos o caso desta pessoa que sofre de perturbações visuais e que tomou o elixir de alecrim para o fígado (fígado e vista estão ligados) e que constatou uma modificação dos seus sonhos e o desaparecimento do pesadelo repetitivo que tinha todas as noites. Ora, em energética chinesa, o fígado está também ligado aos sonhos e ao corpo emocional ou corpo de sonho.

Na vida corrente como na démarche espiritual, os elixires energéticos poderão servir também de acompanhamento numa formalidade precisa como o melhoramento de certos problemas nervosos ou emotivos, a preparação para a meditação ou ao yoga.

Lembremos que, na antiguidade, os sábios taoístas preparavam os remédios alquímicos à base de plantas para favorecer os estados de meditação ou expansão das consciências.