1-3 < 92-03-17-ac-ms> afonso a miguel sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - 8562 caracteres <55-66> <miguel> <cartas>

17-3-1992

DIÁRIO DE UM RECRUTA QUE NÃO CHEGOU A CABO MAS QUE SE ESFORÇOU MUITO POR ISSO: LEU MUITO E APRENDEU A ESCREVER PARA DIRIGIR CARTAS A SI PRÓPRIO, NA PESSOA DE UM IRMÃO QUE NÃO ERA DE LEITE MAS ADOPTIVO

 

Évora - M., Vais com certeza ficar aterrado com a bela impressão de «O Sinal». Era de prever, dada a pouca ou nenhuma assistência com que foi impresso. Lastimo, na verdade, que a 200 quilómetros não pudesse ter feito mais nada. Eu, que tenho vagar e disponibilidades vitais para a literatura, é que devia prover a tais desastres. Aceito todas as censuras que me são devidas. A verdade, porém, é que essas páginas têm que ser novamente impressas. Ou conforme vocês (tu e o Orlando) resolverem. Nada posso fazer daqui; nem sequer protestar. Por amor de Deus, faz-me mais esse favor: enquanto «O Sinal» estiver a imprimir, não lhe faltes com a devida assistência. Sabes como são os tipógrafos. És tu o pai do livro, tu é que sofres com os aleijões que ele tiver. Evita-os, por amor de deus. O sr. Azevedo não conseguiu a máquina com outro tipo. Esta escreve um pouco emperrada. De ser nova? Talvez. Mas o tipo da tua é muito mais bonito e menos vulgar. Ele disse que estava na alfândega uma com esse tipo e depois se trocava por esta. Será assim? Ainda esta semana, vou mandar-vos um noticiário editorial. Para título: Claves. Diz ao Carlos que espero o poema que ele prometeu. E que lhe transmitirei a opinião do António Quadros assim que a saiba. Já não estive com ele em Lisboa e por isso não voltei ao jornal como prometera. Estou a escrever à luz do petróleo e ardem-me os olhos. Desculpa os erros. Teu A.

Évora - M., O que dizes do teu tio no Brasil, que eu não percebi? Brasil? Como? Não percebi. Tu ires para o Brasil? Lembra-te de que agora tens filhos. A não ser que enjeites um. Não deixes de me contar tudo do que acontecer. Estou já integrado nisto e, acredita, gosto. Não te digo para te animar. E sabes o que me leva a amar isto? Ouvir, como agora estou a ouvir, por exemplo, cantar á alentejano e deve ser um grupo de aí de perto. São os nossos irmãos, os da terra, os que ficarão todo o ano a comer do rancho e a dormir na caserna, que no Verão se enche de percevejos. São os resignados e pobres. Que direito tenho eu ainda a choros e lástimas? Estou satisfeito por poder compartilhar com eles o rancho e a caserna esta semana: e durante dois anos o quartel todo. E por toda a vida o seu destino de humilhados e ofendidos. Não temas por mim nada, mas nada. Estou adaptado. E com ânimo. Só há um major que destoa do resto, porque o comandante da Bateria é uma joia de pessoa e todos os outros bons moços. Isto há-de ir e de coração alto. Quero saber o que posso fazer por ti. Se mais nada puder, posso ser tudo o que tenho sido até hoje. E não digo mais nada porque é impossível ser mais. Nem um só «corte» o «censor» hoje tem a fazer do conto «Prometeu». Que sobriedade, D. Miguel. Que magnífico.

M., [---] o Orlando se pusesse em campo e aproveitasse todos esses originais de gente «Convívio» para publicação no «Diálogo». Acho que não devia perder tempo a este respeito; era mais uma receita certa para o mealheiro «Convívio».

7º - O Carlos Alberto que diga quanto quererá «o homem das cunhas» para me meter em Sacavém. É necessário dinheiro, com certeza, e não quero que eles estejam a sacrificar-se por minha causa. Procedam como entenderem, certos todavia de que terei de dizer a meus pais o que gastarem, para o conseguir e pagar-lhes depois ou já. É preciso clareza nisto.

8º - Como estão as tuas doentes? A tua mãe? A tua filha melhorou?

9º - Acabei o turno às 7 horas e vim ao quarto meter uma buxa na boca e acabar de te escrever. Despedir-me de ti, Mano, esta noite, como não durmo, vou pensar; como não sonho, penso. Penso em ti, nos teus filhos, no teu futuro, no sinal, e vou ver se descubro no céu a estrela de todos os meninos pobres, pobres como nós, Mano. E bons como tu, mano. Vou pensar mais uma vez que destino me deu a felicidade de me ter dado o menino do sinal. Um beijo na testa, mano. E um abraço grande como o céu. Eu não sei dizer as coisas como tu, mano. Ensina-me. Quero que durmas esta noite a sono solto. Eu fico de guarda. E vigilante. Ninguém te fará mal, mano, juro-te.

M., manda-me o conto que estás a fazer, como quiseres. Todo junto, comunica mais «novidade»; por partes, vou matando mais cedo a curiosidade. O que importa é ter o gosto de o ler. Como dizes que o contão vai ter muitas personagens, gostava que me pusesses aí, só a um cantinho, para ver a impiedade com que me tratas... Uma experiência. Como no conto que vai ser a tua obra-prima, não posso aspirar a ser um dos dois protagonistas, ao menos poderei figurar como lacaio. está bem? Como disse ontem, também hei-de um dia aspirar a escrever, em verso, a minha obra-prima. Mas ela terá um só personagem. Nuances...

Para não perder o balanço, vou esta noite mesmo procurar a Maria Rosa Colaço. farei figura dum bicho que, de repente, volta à civilização. Vou desfardado, para a criatura não fugir de mim mais rapidamente ainda do que se for à civil. Tenho pena é que não me tenhas fornecido mais dados biográficos sobre ela, ao menos para saber com quem vou conversar. Apresento-me e será o que Deus quiser.

M., Todos os dias te tenho escrito, a primeira vez para a D. Passos Manuel e os outras dois postais para Carriche, o primeiro sem indicação do andar (esqueci-me) e o segundo com a indicação do 3º andar (enganei-me). Nada levavam de importante, dir-me-ás, todavia, se os recebeste. E promete-me que não abrandarás em nada as diligências para o teu emprego. Julgo que poderei amanhã dar-te uma boa notícia para o mealheiro Convívio. Muitas como essas é que é preciso para que a renda da casa esteja assegurada e o sustento dos teus filhos e dos teus. O resto são boatos e hipóteses. Miguelinho, quero que vivas e tenhas finalmente direito à vida, direito à felicidade. Quero, mano adorado, quero isso e apenas isso. Teu Afonso.. Daudet. Bastava que qualquer pessoa influente fosse ao Estado Maior durante toda esta semana para que fosse fácil colocarem-me em Sacavém. Era só lá chegar e pedir...com um pedido razoável, basta que seja razoável.

M., Continuas teimosinho, mas desta vez vão ordens irrefutáveis: fazes favor de mandar compor o contarelo teu de que mais gostares. Como viste vai também o da Irene Lisboa, a quem escrevi hoje mesmo, lembrando-lhe a conveniência de interromper, só neste número, as «Notas». Com muito mais razão se publicará um dos teus contarelos, que contêm implícito um conceito suigeneris de poesia, que eu defendo e que pode ser, pois, uma das marcas originais do ideário de Convívio. Não me frustres, com a tua recusa, todos estes propósitos. Dá-me impressão que «Pão e Presunto» ainda não foi publicado (onde então?) mas se não o quiseres, substitui-o. Mas um [???] tem que vir isso mesmo que tu ... digas lá o que disseres. Porque... quem manda sou eu. E sobre o parágrafo do meu artigo, falei em modificações não em eliminação. Deixas ficá-lo, se não eu zango-me. Os dois linóleos-figura humana estão esplêndidos. Todos eles, afinal. Só o tema dos barcos é banal. Mas a realização não o é. Lá vai o Álvaro chamar-me nomes. Mas que chame. O Raul depois se entenderá com ele, na disposição gráfica dos linóleos.

Porque não vem o nosso Jaquelino buscar-nos, no Domingo? Era uma óptima ideia. Ele que deixe os futebois, A gente paga a gasolina em vez de pagarmos os bilhetes do comboio. E vocês vinham cá, passavam cá o domingo e seguíamos para Moura às horas que quisessem. Não? Vá lá, seu Jaquelino. Faça lá esse jeito! E diz-lhe que precisa de ler muitos poetas modernos, se não nada feito. Começou por escrever tão boas poesias e agora está a decair porquê? Pedi para suspender a zincogravura da May Viana, mas naturalmente já fui tarde. De qualquer modo, não ficará perdida. Sobre a poesia que eu te modifiquei, havíamos de falar. Foi a última modificação que eu fiz a coisas tuas e a de qualquer outra pessoa. Tenho prometido isto a mim mesmo mil vezes. Perdoa-me: mas nunca mais emendarei teu seja o que for. Nem teu nem de ninguém. Fico sempre, sempre a ganir. Os poetas são muito ciosos, crê. Aliás, assim deve ser.

Mas que essas e outras me tenham servido de lição. Já é tempo. E não te zangues com este paleio. É só paleio (mas é verdade também, garanto-te). O que posso e onde escolher do Joaquim Costa se nada tenho dele? Ou referes-te às publicadas através do jornal? Então vou aí, ver se há alguma. Quem é esse Francisco Félix contista, de que me mandas uma carta e que se oferece para colaborador do jornal? Terei eu cá coisas dele? Não me lembro...Nem vale a pena responder ao Félix.