<61-03-13-fl> - fase literária – este inédito, a ter algum interesse, era o de servir de termo comparativo aos versos e versículos do mesmo ano de 1961, alguns dos quais se encontram textualizados neste texto: mas lá que é uma boa merda, não há dúvida – sugiro um heterónimo para assumir esta pessegada contra a literatura de arte – este antitexto foi, com certeza, uma tentativa falhada de escrever «O Livro do Desassossego», projecto que ainda hoje me desassossega (2001-12-15)
SOU CAUSA DE MIM PRÓPRIO.
Deste estranho texto de 1961, foi retirado um poema, aquele que começa "plasma lúcido do ressentimento" mas que então eu intitulara, estranhamente, "prefaciando a acção".
Andava nitidamente deprimido sob o efeito das "revelações da morte", que o Jorge de Sena me revelara, em tradução que fez do Chestov. É a única coisa que agradeço a Jorge de Sena, em toda a sua vigência de crítico.
Anos depois , intitulei a prosa seguinte com
DO AUTOCLAVE SOCIALISTA AO AUTOCLISMO DECADENT ISTA
título que ainda hoje, quase dia de todos os Santos, me parece bastante válido.
Este texto parece-me ainda significativo por mostrar que o registo pão-pão, queijo-queijo, pode , apesar de tudo e pela veemência do conteúdo, da mensagem, do que tenho a dizer, susceptível de recriar uma certa atmosfera de encantamento.
Em 1989.10.29
Tavira, 13 de Março de 1961 - Não sou acção, sou reacção. Reaccionário, em conclusão. E ressentido, a voz dos falhados e nada mais. Oh! A grande literatura. A literatura dos génios! A incrível capacidade criadora, o talento inextinguível do Hegel, do Tolstoi, do Dante, o Balzac e a comédia, o Hugo e Os Miseráveis, o Gard e Os Thibault, Oh! os humanistas da Renascença, os humanistas marxistas - homens de acção, saudáveis, poderosos, portentosos, metendo o nariz na vida dos outros porque a sua própria poucas preocupações lhes dá.
Homem de acção e artista de génio: aí está Aragon. Leio o ensaio de Claude Roy sobre Aragon. Releio o ensaio de Henri Lefèbvre, Contribution à l'ésthétique. E releio Emmanuel Mounier, outro humanista, personalista por sinal.
Esta gente da acção! Fala em transformar o mundo e acredita no que vai transformar. Sentem-se com forças e acreditam. Oh! regeneradores da humanidade! Acreditais a Humanidade à imagem e semelhança da vossa energia potencial, da vossa febre de construir, da vossa saudável monomania de construir. Inventais a mística que vos justifique e eis declarada guerra à revivescência do mito, eis que Claude Roy, eis que Lefebvre se atiram de cabeça contra o que chamam de "surrealistas". Derrubam os tortos, asténicos, hipo-tensos, nirvânicos, passivos, abúlicos, doentes de tudo e da vontade, contemplativos, delirantes, falhados, desiludidos, liquidados.
Somos os restos de uma decadência e por isso o nome de guerra é "decadentistas", expiando na carne a descendência de uma civilização apodrecendo há séculos. Somos os últimos membros gangrenados, os restos de uma cultura à prova – decadentistas.
Os outros, filhos da decadência mas filhos protegidos e por isso sublimaram a herança. Filhos do sangue bom, homens aguerridos - os Roy, os Lefebvre, os Lukacs, - heróis sem dúvida nenhuma, heróis fadou-os a Vitória, a Saúde, a Esperança, a Acção.
São sinos repicando as aleluias cantantes dos amanhãs cantantes. Artaud para o lixo, esse ranhoso, esse opiómano, esse canceroso, esse suicida - esse arquétipo do fedor decadentista. Essa merda, esse remorso dos homens de acção, esse espinho cravado na gravata dos Aragon, anti-burgueses claro está.
E entre os chamados "surrealistas", irrompe o homem de acção, saudável , entusiasta, doutrinando, teorizando, conferenciando: Bréton. Bréton, poeta e conferencista.
Je reste.
Fico, Laurent, contigo, que só a fisiologia faz mexer. Contigo e tua nula resistência à fadiga, a tua limitada capacidade de trabalho, a tua alergia à luz, às poeiras, ao calor. Contigo e o teu irremediável fracasso.
Laurent, a tua doença incurável é a minha. Por engano da Eugenia aqui viemos parar, restos dos restos que já não servem. Somos nós sem parêntesis o lixo da cidade, autoclave, país, paraíso do homem perfeito e pré-feito (fabricado).
Fico imperfeito e contigo, Laurent, contigo porque és amor, contigo imperfeito, malfeito, desfeito.
Toda a miséria nos compromete, somos a miséria: do corpo, do corpo sem alma. Somos homens sem "espírito ". Só corpo e corpo miserável, daquilo que imagino na carne, daquilo que imagino na carne.
Somos do ressentimento. Não sinto, ressinto. Não ajo, reajo (a iniciativa é dos outros, dos da acção - eu sou da. reacção, sou sempre consequência e não causa).
Ah! os génios cultivando os géneros. O artista que nasce artista e tem vocação (a nossa vocação é de falhado, mas de sangue a nossa sede, de sangue e sal, de cristais de sol a nossa boca). Nasci morto, aborto de outro aborto em mó de baixo.
Batalhando, martelando, pisando no papel a tinta que foram palavras, as palavras que formam frases, as frases que formam a mancha negra deste papel.
Esqueci-me do discurso, a meio. Engasgo-me.
Caminho: cemitério, prisão, hospital. Obra póstuma.
Oh! A grande literatura. O romance de sete fôlegos e das sete regras das sete musas. Os tratados sobre o ser e o nada. Os folhetins e a fertilidade das imaginações. Oh! as vocações criadoras. O génio, o cotovelo do génio! Oh! os poemas épicos, os Lusíadas e Os comunistas. O Canto Geral e o Avé Salazar! Oh! as tragédias em cinco actos, o Benavente e o Claudel e o Shakespeare.
Oh! Os da acção, da Acção, da Acção, da Acção, da ACÇÃO e o furor de viver, a alegria de viver, a todo o custo viver, a todo o custo justificar o absurdo, matar o absurdo, ocultar o absurdo. A acção, o amor!
E nós, Laurent, de olhos fechados, de mãos fechadas, de boca fechada. A acção subornando-nos do lado de fora e nós do lado de dentro. Somos os da evasão, da fuga, do "salve-se quem puder".
Levámos, levamos, levaremos porrada, porque estamos parados à espera de morrer, Laurent, porque Artaud, Kafka, Beckett, Pessoa estão nos limites batendo à porta.
Depois do nada o verbo amar.
Trabalhamos a ódio e café, no meio de quem vive, trabalha, sonha, espera.
Vindo de cima e queimando a ponta dos dedos que fixam este lápis? Segue rigorosamente pelo instinto, um fio de luz.
Não somos os da facilidade, somos os da dificuldade. Não somos os da inspiração, mas os da transpiração, se nos quiserem para anti-herói.
A culpa não é do país, nem do clima, nem da região, nem da vida local, nem dos burgueses da vida local, nem do que nos não dão, nem do que nos pedem. Não há culpa, não há causa. Sou causa de mim próprio. E tu, Laurent, linha paralela. ♥