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Lisboa, 12/5/1992

Ficções

de Afonso Cautela

«Não escrevi um romance, mas escrevi um DIÁRIO.»

Muito mais verrinoso do que o Andy Wharol - e indubitavelmente mais bem escrito - e com muito mais peçonha, mais denúncias à opinião pública, muito mais casos de polícia engavetados, muito mais crimes perfeitos por descobrir, muito mais episódios privados da vidas privadas, (...)

aqui está, pronto a servir, incrivelmente formatizado em A4, o meu DIÁRIO DO VERGONHOSO E DO ABOMINÁVEL.

Não, a hipótese de segurar isto em lugar seguro com apólice e tudo, seria meter-me na boca do lobo. A páginas tantas deste diário magnífico, digo das seguradoras o que Mafoma não chegou a dizer do toucinho porque já não teve tempo.

Nenhuma instituição multinacional ou internacional e muito menos entidade ou individualidade, pública ou privada, me parece suficientemente segura para guardar este precioso espólio de ouro puro de sete quilates que são os 666 nomes da cena política, cultural, turística e económica durante os anos 40, 60,70, 80 e 90, mesclados propositadamente nestas páginas de horror e beleza que são os meus desabafos sobre a merda contemporânea.

Além do salazarismo retardado e do estalinismo instalado (até hoje 12.6.1992), aqui se contam mistérios incríveis deste país marcado pelos punhais da ambição e por Nossa Senhora de Fátima; garanto de que estes mistérios são quase tão aliciantes como os que os seus (dele) detectives têm que enfrentar:

(...)

Só em Clips e Agrafos, Meu Deus, quantos 5 mil escudos não gastei ao longo destes anos alucinantes deste DIÁRIO ALUCINANTE. E em furos de furadores para furar papéis, quantos milhares de minutos e milhões de segundos não se escoaram como a areia do tempo por uma Ampulheta. E em papel A4, de 80 gramas, inapa, branqueadinho a cloro, quantas caixas, como se pode comprovar no espólio deixado dentro delas, em ostensiva manifestação de economia da reciclagem?

Mas parece-me. finalmente, ter chegado ao fim desta ingente tarefa que me impus como um Dever militante de ter nascido, não ao fim mas ao fim da sua fase mais decisiva: a ordenação deste DIÁRIO INDISCRETO E INSUPORTÁVEL, deste DIÁRIO DE MORTE, deste DIÁRIO DE COBRAS E LAGARTOS, que me ocupou três caixas e meia de bananas Turbana, quando eu preferia que se me tivesse contido nas três, que é a conta que Deus fez. Mas também não ia jogar fora os restos da década de noventa, que tem, como década, tanto direito como as outras a figurar neste DIÁRIO TURBANA que tem tudo como na Drogaria, desde o início, desde o meu recuado ano dos anos 40, desde os meus sete anos de idade, em que um Ciclone, mesmo no dia dos meus anos, me colocou o Mundo do Avesso e me fez ver como eu estava predestinado para grande feitos e ventanias. E como eu estava e ficar velho. Vejo agora, 59/60 anos volvidos, que, entre outros menores, o meu maior Feito é este meu DIÁRIO DAS HORAS BOAS E MÁS, é este meu DIÁRIO DE AVATARES E ALMAS DO OUTRO MUNDO, de avós e bisavós, de amigos e inimigos, de adversários e cúmplices, de Canalha e de gente piedosa (...)

Lisboa, 12/6/1992