<illich-76-0-ie>- 1-12 - domingo, 8 de Dezembro de 2002 – depois de uma revisão algo cuidada, será necessário localizar a fonte de onde este texto foi scanado e, portanto, onde veio publicado: seria no caderno sobre Illich edição «Frente Ecológica»? - a verificar na primeira ocasião
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<illich-76> scan terça-feira, 25 de Junho de 2002
I PARTE
CRISTÓVÃO COLOMBO
NO MEIO DE CHACAIS
Escrito em 17/4/1974
Entre a Apologia e a Contestação, a Economia e a Ecologia, entre Herman Khan e Ivan Illich é evidente uma imensa gama de críticos, os que vão do perfeito conformismo à radicalidade absoluta.
Até há pouco, havia ordens que pereciam intocáveis: havia mitos que ninguém discutia e todos idolatravam; os tempos modernos, porém, assistiram a uma generalizada iconoclastia e a crítica tem-se radicalizado à medida que a opressão se intensifica, à medida que a Abjecção e suas estruturas homicidas - e sua tarefa de obscurantismo, confusionismo e morte, - vão sendo reconhecidas pelos próprios escândalos que ocasionam.
Descobriu-se, inclusive, que o crime se pode ocultar (disfarçar) sob rótulos de "reconhecida utilidade pública»; e os famosos serviços a bem da humanidade, o famoso progresso, os milagres do conhecimento e da ciência (toda a retórica positivista e oitocentista) foram a pouco e pouco desmistificados, reduzidos às suas reais proporções de instrumentos ao serviço de ideologias reaccionárias.
Para quem está mergulhado no próprio caldo cultural que pretende analisar é, no entanto, difícil fugir a lugares-comuns, ídolos, rotinas, convenções, evidências, é difícil distanciar-se e avaliar, ajuizar. Habituados durante anos (séculos) a respeitar certas ordens de valores, julga-se ter avançado muito na crítica quando, afinal, um pouco depois e mais longe, se verifica ter ficado apenas num grau de conformismo.
De facto, onde acaba o conformismo e começa a revolta, onde acaba a revolta e começa a verdadeira inaceitação radical do abjecto ?
A crítica radical à ciência e à técnica, por exemplo, é facilmente apelidada de confusionismo retrógrado pelos defensores da ordem material violenta: estipulado, convencionado, mecanicamente aceite por essa ordem que ciência e técnica são progresso (façam o que fizerem e matem o que matarem), quem conteste os mitos da ciência e da técnica logo levará o labéu de confusionista.
Quem contestar a ordem alopática e económica, as academias em vigor, as autoridades desta e daquela matéria, as eminências, os ilustres e jubilados, as sumidades, é, de certeza, facilmente apodado de reaccionário, de obscurantista, de retrógrado, de esotérico e inimigo das luzes.
Aquele que, em nome da imaginação cientifica, criticar a ciência fossilizada e estabelecida; em nome da imaginação económica e sociológica, contestar a ordem economista e sociológica fossilizada; em nome da imaginação personalista, rejeitar mitos, mentiras, erros e crimes da ordem alopática vigente, será perseguido ferozmente.
E como as maiorias seguem, inevitavelmente, o conservadorismo, o reaccionarismo de academias e académicos, eis que o inovador, o crítico, o contestatário, está em péssima posição e em muito maus lençóis.
Na história das ideias repete-se sempre a história de Galileo , Colombo, Freud, Fernando Pessoa, Reich, rodeados de fariseus e oportunistas, de raivosos cães de fila ...
E a tarefa do pensamento livre agiganta-se à medida que a abjecção (a contestar) aumenta de poder e se enraíza. Hoje, perante a hediondez atingida pela sociedade industrial e do Desperdício, pela Sofística moderna, Marcuse deixa de ser avançado radical para rapidamente se transformar num crítico moderado, quase conformista.
Os que conseguem hoje ir mais longe na contestação política da sociedade industrial, são os eco-políticos, mas não é difícil, nos mais avançados, reconhecer ainda (na terminologia que os trai) convencimento de ídolos já podres da sociedade podre que analisam.
Comparados à gigantesca tarefa que hoje se coloca ao filósofo (entenda-se: crítico), ao pensador (entenda-se: contestador radical), os calvários de Freud, Colombo, Galileo, Reich são quase nada ... Eles tiveram de enfrentar uma sereníssima academia de bonzos o raivosos cães de guarda da ordem estabelecida; hoje, é toda a matilha de guarda ao sistema tecnoburocrático que um simples homem de bem tem que aguentar, se resolve dizer que o rei vai nu.
Porque o saber dá o poder, o crítico tem hoje que enfrentar todo o poder desse saber, porque ao saber e seus ídolos lhe cumpre opor-se, porque a toda a Sofística se opõe. E como vão fundas as raízes desta Sofistica, como mordem os dentes dos (vampiros) sofistas ...
Em todas as épocas o exercício livre da imaginação levou à fogueira, ao pelourinho, ao hospital, à prisão, ao cemitério... à crítica. Em todas as épocas o inovador pagou preço alto pelas ideias novas que trouxe à famigerada "cultura". Mas hoje - mais do que nunca - em que os servidores da Sofística têm por eles toda a força da industriocracia coligada (de que são zelosos e bom pagos funcionários) é verdadeiramente suicida a atitude do que imagina novas hipóteses, do que critica a ordem, do que contesta o sistema.
CIÊNCIAS HUMANAS
E se é no sistema das chamadas "ciências humanas" que se concentra hoje o veneno, aí tem de ser metida a bomba ...
Exemplo nítido da vanguarda crítica avençada, a contestação ecológica pode facilmente ser considerada por oportunistas e fariseus saudosismo reaccionário. Exemplo frisante é o das "novas fontes de energia" não poluentes preconizadas pelos movimentos anarco-tribalistas da tecnologia leve (doce ou ligeira).
Este mesmo neo-tribalismo, teorizado embora por um respeitável pensador do sistema - Edgar Morin -, é alvo facílimo de remoques "progressistas", assim como o foram os naturistas (acusados de quererem regressar à Natureza quando tudo gritava industrialização para a frente é que é o caminho), assim como são e serão ainda por algum tempo todos quantos tenham o bom senso, a coragem e a lucidez de recusar, sem contemplações, toda a porcaria, toda a Abjecção que nos impingem sob o nome e o alibi do "Progresso".
Claro que um lutador da causa ecológica não espera que os atingidos - depredadores, açougueiros, carniceiros - respondam, ou que o façam de flor na mão e sorriso nos lábios. Deve esperar que se mobilizem contra ele todas as forças do imobilismo, do obscurantismo, do conformismo e do impossibilismo, todos os defensores do gigantismo e dos grandes sistemas "providenciais", os funcionários do progresso o da industriocracia, os adoradores do gadget.
Deve esperar tudo isso. Mas deve também procurar alguns aliados nesta incómoda posição de franco-atirador, deve, no meio da refrega, esperar que lhe estendam a solidariedade de uma ideia, do uma mão amiga, a certeza de que não está completamente só no meio de chacais ...
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II PARTE
IVAN ILLICH
Escrito em 4/8/1974
Este ensaio é dedicado a Urbano Tavares Rodrigues, que pela primeira vez me referiu a existência de um autor chamado Ivan Illich.
Estratégia ecológica implica uma concepção unitária do Meio Ambiente, da Doença e, portanto, da acção a empreender para de raiz debelar a doença, modificando o Ambiente.
Esta concepção unitária opõe-se, por sua vez, radicalmente e sem concessões, a um estilo de trabalho que dividiu e subdividiu actividades para melhor as inutilizar umas às outras.
Daquilo a que chamo Sofística Moderna, a manobra do tecnicismo ou especialismo ainda não foi suficientemente denunciada como raiz e motor da degradação ambiental e como travão, depois, à estratégia ecológica.
Sem uma concepção unitária do Ambiente, que de raiz contrarie os alibis do especialismo e do tecnicismo, não existe estratégia - e sim tácticas isoladas que interminamente vão adiando os problemas do Ambiente e a sua solução.
Quando alguns ambientalistas de esquerda dizem que não tem importância definir o campo de factos e fenómenos abrangidos pela palavra Ambiente - quando eles afirmam de que é uma mera questão vocabular ... estão escamoteando este facto básico que é o da concepção unitária do Ambiente que conduzirá a uma estratégia unitária também. Única, então, a que se poderá aplicar a designação de estratégia ecológica.
Ora tal como se encontra dividida e subdividida a administração pública - sectores, departamentos, secretarias, ministérios, secções - a unidade do Ambiente nunca pode ser apreendida e compreendida como realidade única e nunca pode portanto ser posta em prática a estratégia que lhe corresponde. Apenas será possível realizar políticas do Ambiente, sempre parciais, sempre negando o princípio básico da acção ecológica.
O médico diz que do doente só se ocupa do fígado, o lavrador diz que só ao Ministério da Agricultura dá contas, o engenheiro sanitário diz que o momento não é propício para pôr em prática uma política de saneamento básico que abranja todo o País, o por aí adiante: enquanto houver razões deste e daquele especialista, é impossível ter uma concepção unitária dos interesses reais e vitais da população o do indivíduo: Porque a população existe feita de pessoas reais e não só de fígados soltos...
Com este alibi do especialismo está intimamente ligado o alibi do monumentalismo.
Que quero eu dizer com monumentalïsmo ? O que há a fazer, só se pode fazer em grande. Escassez de água ? Ah! Isso reclama tubagens poderosas, trabalhos morosos, mão-de-obra especializada, planos complicadíssimos e - naturalmente - só daqui a 4, 5, 6 ou mais anos teremos as obras em vias de conclusão. Até lá, aguentemos.
Energia ? Também não é nada fácil obviar de um dia para o outro à escassez. Exigem-se equipamentos caros, equipas de técnicos (que não temos ainda em número suficiente, embora se formem muitos e bons nas nossas Universidades), visitas de estudo ao estrangeiro, enfim, uma tecnologia avançadíssima que havemos de importar com uma diplomacia bem orquestrada, e pagar em bons dólares (que evidentemente nos escasseiam e que teremos de ir pedir de empréstimo, ficando empenhados até aos cabelos ...).
Habitação decente e humana ? Também não é nada fácil, desde já, cobrir as necessidades básicas em matéria de habitação. Há que dar tempo ao tempo, os planos de urbanização estão em curso, muitos deles não podem revogar-se, há que legislar de novo, etc., etc. .
A CADA UM SUA ESPECIALIDADE E A RESPONSABILIDADE PARA NINGUÉM
É assim que, com o alibi do especialismo, o alcoolismo se considerará desligado da surménage e do ruído, o congestionamento de tráfego não se vê em ligação com o consumo de drogas farmacêuticas cada vez mais violentas, a mortalidade por cancro jamais se associa à agricultura química e as doenças cardiovasculares nunca se consideram em função dos óleos e cereais refinados;
é assim que a cárie infantil raramente se liga ao consumo de gelados e o suicídio com os programas de televisão, a inflação, a frustração afectiva, a alienação profissional, os imundos ambientes de trabalho, o habitat infra-humano;
se é verdade que, após um século de evidência ecológica, já se relaciona o tifo com as águas inquinadas e a cólera com as imundícies junto das barracas de habitação, e se é certo que não é possível já a ninguém hoje escamotear a relação que há entre silicose e a sílica das minas - tudo isso no entanto entrou na rotina para aí cristalizar e tornar-se de novo facílimo escamotear a relação entre o cancro do pulmão e os fumos do Barreiro;
tão difícil, que foram planeados inquéritos epidemiológicos no Barreiro para averiguar que suspeitas ligações poderia haver entre ambiente degradado e algumas doenças com maior incidência por ali ...
Teima-se talvez bastante e por exemplo na ligação entre cancro do pulmão e tabaco - mas essa é outra manobra que pretende com um culpado menor descartar culpados maiores, culpados que são efectivamente todos os factores da degradação ambiental, muitos deles indiscriminados mas alguns tão responsáveis como o tabaco ou o alcatrão no desencadear daquela patologia.
(Não é por acaso que a demagogia anda também e sempre tão ligada aos alibis do especialismo e do tecnicismo. E é demagogia o que se faz quando com um culpado menor se está a tentar encobrir um culpado maior).
Outras relações que, por altamente inconvenientes aos lucros do Sistema, há ainda maior relutância em estabelecer e denunciar: o ruído dos cães domésticos com algumas neuroses, o ronco das motoretas com perturbações cardíacas e a predominância de loucos em Portugal devido ao ambiente (efectivamente só de loucos e para loucos ...) de asfixia, de tortura quotidiana e de sistemático aviltamento da pessoa que, parecendo ter-se institucionalizado durante o fascismo, vai ser muito difícil de diagnosticar como doença colectiva, a extirpar rapidamente.
Outro tipo de relacionação fundamental mas que nunca se faz é, por exemplo, o da poluição biológica das praias e a poliomielite ou as hepatites. Não se nega aqui que a poliomielite seja contraída por "vírus" que se encontrem nas águas poluídas, mas se há crianças que o contraem e outras não, a relacionação mais normal, mais real, mais científica, mais causal e menos fraudulenta a fazer é entre resistência orgânica ou imunidade natural e águas poluídas. Culpar só o vírus é uma visão teológica perigosa como todas as visões teológicas e, na perspectiva de uma estratégia ecológica, uma mitologia demagógica, um falseamento deliberado dos dados.
MULTIPLICAR ESPECIALIDADES, COMPLICAR O SISTEMA PARA O TORNAR INDISPENSÁVEL
Indicam estes exemplos - os que um leigo pode conhecer e portanto bem modestos face aos que os entendidos poderiam compilar com muito mais conhecimento de causa ... - indicam estes exemplos, digo, que a medicina será sintomatológica, reformista e reaccionária porque não lhe convém ser outra coisa e enquanto não se basear numa concepção ou teoria unitária do Ambiente, logo da Doença, logo do ataque à doença.
Uma medicina sintomatológica será presa de forças centrífugas que a dispersam em mil e uma especialidades, em mil e um específicos, não porque seja esse o interesse da saúde humana e nacional mas porque é esse o interesse das indústrias criadas a partir precisamente dessa multiplicação inflacionária de "especialidades" médicas.
Todas as indústrias farmacêuticas - mas nem só estas - pressionarão de fora a medicina para que continue a ser sintomatológica, promovendo por todos os meios o prestígio da hiper-especialização, chegando a acusar de retrógrado ou obscurantista o raro médico que ainda teime em ser de "clínica geral", que teime em ser apenas companheiro do doente, ajudando-o a emancipar-se enquanto doente.
Se hoje a Medicina é um sistema altamente complicado, foi porque se complicou propositadamente a Doença, para tornar o sistema cada vez mais totalitário e autoritário, para tornar o doente cada vez mais dependente dele, para o alienar e colonizar cada vez mais face à prepotência, à omnipotência do sistema.
Ao proclamar estes princípios de estratégia ecológica revolucionária não se pretende acusar nenhum profissional - porque os há que resistem e resistiram à inércia, à engrenagem, ao sistema - mas denunciar o sistema que fomenta um tipo de actuação errada, criminosa, fraudulenta, aleatória, anti-humana.
DESCOLONIZAR A DOENTE FACE À INSTITUIÇÃO MÉDICA
De tudo isto se induz claramente que a auto-suficiência revolucionária dos grupos ou indivíduos só é possível a partir desta concepção unitária do Meio Ambiente.
Porque a dependência em que indivíduos e grupos estão de sistemas gigantescos, de engrenagens implacáveis, de alienações inelutáveis, é uma consequência da especialização e do tecnicismo.
Se há um técnico para isto e outro para aquilo, se eu não posso dar um passo sem que seja um técnico a dar por mim esse passo, é evidente que fico na dependência total desse técnico, só me fica a chance de recorrer, em cada nova emergência, a um novo técnico.
Desta dependência resulta todo o grau de alienação para com as instituições já descrito por Ivan Illich e resulta que o projecto revolucionário é o que faz caminhar os indivíduos e grupos para a independência, a emancipação, a descolonização cada vez maior do indivíduo e do grupo; reaccionário será o que torna essa independência, essa emancipação, essa descolonização cada vez mais apertada e irreversível.
Pensadores da Democracia como António Sérgio ou Ivan Illich não se cansaram de sublinhar que o projecto revolucionário assenta na emancipação do homem em relação às instituições (sempre) opressoras.
No caso do Doente, é evidente que o caminho do progresso médico está em promover a emancipação do Doente e não em o fazer escravo absoluto da instituição médica. No caso do consumidor (o doente é um caso particular do consumidor, ele consome indústria médica ...), quanto mais eu estiver na dependência da água que a grande companhia me (não) fornece, quanto mais estiver na dependência do gás que a grande companhia (não) distribui, mais me tramo, mais me lixo. Mais colonizado estou, escravizado que fico às santas instituições que dizem servir-me para melhor se servirem elas e seus dividendos.
Se em vez de armazenar de Inverno a água para consumir de Verão, se em vez de armazenar de Verão a energia (solar) para consumir de Inverno, estiver, de Inverno e de Verão, no Outono e na Primavera, na dependência dos tais monopólios, dos tais serviços públicos, das tais instituições, dos tais sistemas monumentais e gigantescos que nos "servem", - quando lhes apetecer a eles deixar de me servir, estarei na condição de oprimido e reprimido, de colonizado. Na condição de absoluta dependência.
ANDA TUDO LIGADO
Parece ter ficado claro de que maneira a Sofistica Moderna - através dos seus difundidos alibis do especialismo, da divisão do trabalho, da tecnicidade, - explora, humilha, coloniza e oprime os homens.
De que maneira o cientifismo e a tecnocracia (mesmo a que é praticada por ideologias ditas de esquerda) são indispensáveis à Exploração e de que maneira a Sintomatologia anda sempre ligada ao reformismo reaccionário.
Parece ter ficado claro de que maneira a Sofistica Moderna contraria a Revolução e de que maneira a Sofística Moderna inunda a maior parte dos programas políticos que se dizem revolucionários (e talvez o sejam na Política, na Economia, na Indústria, mas não o são no campo da existência, da cultura, da prática humana).
Claro parece ter ficado também porque só uma concepção unitária do Meio Ambiente é revolucionária e conduz a uma estratégia revolucionária em toda a acção que vise o fenómeno humano.
Posto isto, compreende-se que todo o reaccionário, da esquerda ou da direita, sempre que se trate de lutar contra o obscurantismo da Sofistica Moderna, reaja nos termos clássicos do insulto e da calúnia.
Compreende-se que as propostas de Ivan Illich sejam condenadas, por reivindicarem a subversão das instituições.
Mas do que se trata, afinal, com essa sua famosa "inversão das instituições»?
Trata-se pura e simplesmente de obter o núcleo, o nódulo original da unidade de onde parte todo o projecto revolucionário.
Trata-se de recolocar o homem em sistemas alternativos de auto-suficiência, trata-se de voltar às raízes e aí fundar o homem.
É evidente que um homem a quem for concedido - num plano de reforma agrária naciona1 - um palmo de terra arável e dela puder retirar com o seu grupo (família ou cooperativa) o fundamental do seu sustento, está em situação de gradualmente ir dispensando todos os técnicos e super-técnicos da complicada sociedade monolítica, do grande sistema, da infernal engrenagem das instituições em dependência recíproca. Está em vantagem de autobastança. Está na via da autoconstrução.
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EMANCIPAR O CONSUMIDOR
DESINSTITUCIONALIZAR OS SERVIÇOS
Escrito em 23/Novembro/74
Quando a tecnocracia "ataca" nos sectores do inorgânico e do material, quando se limita às estradas e pontes, às siderurgias e celuloses, ao betão e ao cimento armado, não é caso para o ambientalista se manifestar.
Mas o caso muda de figura quando a Tecnocracia decide invadir o campo vivo, quando ataca no "fenómeno humano", quando para lá de explorar entra a manipular os indivíduos, a saúde, a liberdade, o trabalho, o afecto, o corpo de cada cidadão.
O caso muda de figura e de nome: chamando-se então, com mais propriedade, Biocracia.
É essa Biocracia que os adeptos do anti-Sistema, os militantes das Alternativas, têm vindo a denunciar nos últimos anos.
Biocracia é a Tecnocracia aplicada ao campo do organismo vivo, e os exemplos sucedem-se numa aterradora frequência, mostrando à saciedade que, não contente em congestionar e poluir o mundo de lata automóvel, não contente em multiplicar os "gadgets" e os supérfluos, a Tecnocracia pretende ir mais longe e pretende fazer do homem matéria de "engenharia".
Surgem então vocábulos novos, regra geral acompanhados de simpósios internacionais, realizados em hotéis de luxo e com mesas da presidência cobertas de pano verde, sobre o qual se vêem garrafas de água do luso.
Surgem os famigerados seminários de técnicos para decidir:
A REACÇÃO CONTRA ILLICH
Quando, no livre exercício da imaginação criadora que é o seu oficio, Ivan Illich torna público mais um livro seu, é clássica a reacção: uma cáfila de zelosos funcionárias do Sistema cai-lhe em cima e vá de morder no enguiçado magriço até mais não.
Desta feita, houve um intermediário: Michel Bosquet, valendo-se da documentação armazenada por Ivan Illich, escreveu no semanário «Le Nouvel Observateur» um artigo subordinado ao titulo «Quand la Medecine Rend».
Embora Michel Bosquet seja uma admirável figura de pensador e de jornalista, embora a sua formação marxista não o tenha impedido de manter lúcido e aberto o espírito crítico, permito-me discordar do seu método de actuação.
Consentir que sobre determinados temas incida o "debate" é já, de certo modo, um colaboracionismo com as manigâncias do Sistema.
O debate, a controvérsia, é um dos derradeiros alibis a que o Sistema recorre, quando se vê cercado de argumentos irrespondíveis por todos os lados, para sobreviver e fingir que ainda podo ter (alguma) razão.
Ter aberto um debate sobre se a Medicina é ou não fábrica de doenças e doentes, parece à primeira vista uma atitude irreverente, mas acaba por ser ainda bastante conformista.
Não sei se o próprio Ivan Illich se daria ao trabalho - como o fez Bosquet - de argumentar com números e estatísticas, em tal caso. Para quem conheça um pouco do seu pensamento anarco-convivialista, o problema é claríssimo e não necessita de números. Essa afirmação, que só a fariseus escandalizará - a Medicina, arte de fazer doentes - é perfeitamente lúcida e lógica, se a virmos inserida no contexto geral de onde nunca deveria ter sido arrancada.
A Medicina não é mais nem menos culpada, no campo da Biocracia, daquilo que faz e dos resultados a que conduz. Mas qualquer pessoa, sem precisar de ir a Paris, percebe que a Medicina entraria em contradição mortal consiga própria se, de facto, fosse a "arte de curar" em vez de ser a arte de adoecer.
Os tecnocratas da Medicina (que tendencial e realmente a dominam hoje) não se coíbem de afirmar, de proclamar que ela é uma Indústria. Até se orgulham disso. Já largamente abordei o problema no opúsculo «Do Biocídio à Biocracia» (Colecção Mini-Ecologia, n°- 3) e no n°. 1 da Col. "Sine Qua Non'' (Edições M.E.P.).
A partir do momento em que a Medicina está instituída como indústria, seguirá fatalmente a tendência de todas as indústrias que é alargar o mercado para o seu produto.
Considerando o doente um consumidor, eis que só um parvo, um ingénuo ou um tecnocrata ainda perguntará porque está interessada a Medicina em fazer doentes, em vez de os curar, e parque não quer nem pode ela fazer outra coisa:
Na opinião de Ivan Illich, as instituições têm um forte instinto de sobrevivência e não abdicam assim dos privilégios. Ora a Medicina é uma instituição: logo, pela simples lógica e sem precisar de recorrer à exaustiva demonstração estatística de Michel Bosquet, a Medicina tende a perpetuar-se através de uma suposta, inventada, pré-fabricada inevitabilidade.
O que nós, ambientalistas, teremos a censurar á Medicina não é, pois, que ela seja uma indústria e que como tal actue, fabricando doentes. Contraditório seria é que a Medicina, em vez de fabricar doentes, os eliminasse. Estaria a arruinar-se como indústria o que, então sim, sob o ponto de vista económico, seria censurável e a todos os títulos desastroso.
A BIOCRACIA VEM MULTIPLICAR O NEGÓCIO DA TECNOCRACIA
Como logo se percebe, a Medicina viva interligada aos interesses, à inércia, à rotina e à lógica interna de outras sacrossantas indústrias e instituições.
Uma relação claríssima, por exemplo, é a que existe com a instituição ou indústria automóvel.
Será preciso, ó meu Amigo Michel Bosquet, você desunhar-se a mostrar estatísticas, para demonstrar que o automóvel serve para fornecer contingentes admiráveis de estropiadas à indústria médico-traumática, à indústria hospitalar ?
O automóvel será, como por simples observação diária se comprava, um das pilares da nossa sociedade da abundância, que não poderá abrandar no seu ritmo de fazer mortos e de alimentar assim a indústria funerária que, coitada, também precisa de ajuda. Não devem ser só os médicos a comer.
Tudo isto é explicável sem grandes esforços a partir de Ivan Illich e de uma das suas ideias-chave: a medicalização da saúde, a institucionalização da Medicina, a industrialização do homem.
Quer dizer: não foi por acaso que a Tecnocracia se aperfeiçoou em Biocracia. Tornando os partos cada vez mais violentos, fomentando toda a indústria alimentar degenerativa, ela, a Tecnocracia, triplicou o negócio que enquanto Tecnocracia não era suficientemente próspero para as suas ambições de lucro.
O CANCRO CONTRIBUI PARA O CRESCIMENTO ECONÓMICO
Apontámos alguns exemplos de como a Tecnocracia, através da Biocracia (ver lista alfabética de manipulações Biocráticas) multiplica directamente o negócio.
Mas não quer isso dizer que muitos outros campos da Tecnocracia não contribuam, menos directamente, quer dizer, com nexos causais menos óbvios - para a proliferação da indústria propriamente biocrática.
As centrais nucleares é claro exemplo disso. Se se pensa que pode haver revolução social, humana e política (quer dizer, liquidar literalmente a Biocracia, ou manipulação do homem pelo homem, forma reforçada da exploração do homem pelo homem) basta raciocinar sobre o contingente de cancros e degenerescências genéticas que as centrais produzem, fabricam. Com o protesto da distinta classe médica? Eis o que me parece bastante para duvidar. O que vemos e ouvimos, maiormente, é o aplauso e o agrément explícito dela, embora a atitude mais frequente seja o prudente abstencionismo.
Como se calcula, com os cancros prosperará o negócio das bombas de cobalto, que se não me engano devem pertencer ao mesmo ramo fabril das outras ... bombas, e prosperará todo o negócio ligado ao enxerto de órgãos, de pernas, de orelhas, de narizes, de bisturis, de modo a satisfazer as necessidades das futuras gerações de "abortos", de meninos mais ou menos mongólicos, de diminuídos mentais e físicos, enfim, de talidomídicos em geral, indústria admirável essa que assegurará a prosperidade de outras tantas indústrias biocráticas, o crescimento económico das nações.
TESES SIMPLES E REVOLUCIONÁRIAS
Só o facto de os eminentes técnicos, os excelsos especialistas, os magníficos mestres, os insuperáveis catedráticos não terem tempo de raciocinar (tão ocupados andam em saber e ter conhecimentos), pode explicar que teses tão simples, tão óbvias, tão humanas e terra a terra como são as teses de Ivan Illich sofram esse complicativo processo de controvérsia em que entrou, por exemplo, o já referido «Le Nouvel Observateur» (porque a controvérsia é comercial, também e evidentemente).
Os naturistas demonstraram há muito que a medicina alopática é fundamentalmente sintomatológica, logo reformista, logo fomentando o mal que depois diz ir combater. Enquanto for sintomatológica, a medicina terá todo o interesse em fabricar doenças e doentes, de contrário nega-se como indústria, nega-se como negócio e comércio que deve ser, que tem de ser.
Como instituição de caridade - paternal, reformista - ela fabrica os "pobres" a quem depois há-de dar a esmola. Sem pobres, o que seria dos que pretendem, com eles, comprar a virtude e os céus ?
Acusa-se Ivan Illich de nos complicar a vida quando ele vem contrariar o jogo das instituições e sua engrenagem triunfalista mas homicida e suicida, quando ele põe à mostra a careca da questão energética; acusou-se de "criar" tremendos problemas à sociedade quando ele propôs a desinstitucionalização do Ensino, mas só quem se desabituou de pensar, de imaginar - profissão essa que é a de Ivan Illich - não compreende que as propostas de Ivan Illich são todas, precisamente, no sentido de simplificar pela raiz aquilo que o carácter institucional dos serviços complica, por natureza, por função, por necessidade intrínseca de fazer prosperar a próprio negócio.
É óbvio que a medicina não pode aceitar os pressupostos das alternativas das medicinas naturais, não pode aceitar a «descolonização do doente" (como não pode aceitar a "descolonização do aluno») porque é dele, doente, que se alimenta o negócio.
Mas é óbvio que toda a engrenagem médica (astronomicamente cara, congestionada, reclamando cada. vez mais vorazmente mão-de-obra e mais vidas, mais corpos, mais doentes) é obvio que a engrenagem escolar, é óbvio que a engrenagem energética não consentirão alternativas aos seus monopólios, precisamente porque simplificar a vida será subverter os monopólios que de cada vez maior complicação vivem: o monopólio da saúde, o monopólio do saber, o monopólio da energia.
Apontei algumas hipóteses de trabalho sobre esta subversão num ensaio publicado em livro intitulado «Depois do Petróleo, o Dilúvio». Muito claro, no entanto, me parece ter ficado, quem é o único beneficiário desta subversão e desta simplificação naturista: o chamado consumidor é o único que largamente, profundamente e decisivamente beneficiará das alternativas.
Mas - cuidado, amigos ! - o consumidor é amestrado para adorar o sistema e as respectivas instituições. Para o supor indispensável e infalível. Para, inclusive, ladrar contra Ivan Illich e Michel Bosquet, quando estes lhe vão dizer a verdade e só a verdade.
Enquanto colonizado, longamente colonizado pela ditadura médica que o coloniza, o doente julga que tudo será, para ele, mais complicado se tiver que dispensar o "conforto", a eficácia, o gigantismo da santa madre instituição, da respeitada e temida medicina. O doente – reduzido a consumidor - julga que não pode passar sem os monopólios da Água, do Petróleo, da Energia. Julga que não pode ter saúde, fora do monopólio da Saúde que é a Medicina. Julga que não pode passar sem médico como não pó de passar sem canalizador, sem o técnico que lhe repare o esquentador, sem o especialista que lhe aperte as torneiras, sem o fornecedor que lhe distribui a botija, sem o funcionário que lhe põe o clic já está.
Mas este engano é que se lhe tornará fatal.
Na dependência da engrenagem em geral e da engrenagem médica em especial, o consumidor em geral e o doente em particular é manipulado e frustrado, sempre, sem possibilidades de auto-bastança, de alternativas, de cada vez que o técnico falha, não comparece, vai a banhos ou saiu para o fim de semana.
De cada vez que chama o médico e o médico não comparece - o que sucede com frequência assaz verificada - eis o doente em transe, ei-lo em verdadeiro pânico, pois julga que médico e saúde andam indesligáveis.
Educar uma criança é prepará-la para uma progressiva auto-suficiência e o naturista - consumidor que soube emancipar-se gradualmente da tirania da indústria médica o da tirania da indústria alimentar (entre outras tiranias) - dá um dos exemplos mais educativos e mais belos para um verdadeiro futuro de libertação humana, democrática e popular.
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(*) O artigo de Michel Bosquet intitulado «Quand la Medecine rend Malade» foi publicado no semanário «Le Nouvel Observateur», números e 520, de 21 e 28 de Outubro de 1974.
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INEVITABILIDADE DA UTOPIA
Escrito em 1/Abril/l972
Fábrica de mitos por definição e natureza, cada instituição apoia-se nesses mitos e deles se alimenta para subsistir. A mitologia não existe sem instituição, mas a instituição também não existe sem a mitologia que a estrutura em sistema.
A análise que Ivan Illich processa em relação à instituição escolar tem valor exemplar pois aplica-se, com idêntica vantagem e proveito, a todas as outras instituições que a escola tem exactamente a missão de fazer "evidências" indiscutíveis, através da mentalização que pratica e da manipulação ou modelação "educativa", do condicionamento que é sua função.
Ao incidir sobre a Escola, Ivan Illich está, implicitamente, a falar das outras de que não fala explicitamente. No ensaio «Inverter as Instituições», exemplifica com casos vindos de outros sectores.
"Uma sociedade que define a medicina como a arte de prolongar a vida merece ser governada por economistas, que se definem a si mesmos como os arquitectos do crescimento permanente e ilimitado".
Aplicando-se a criticar, neste caso, o sector hospitalar, ele apreende uma estrutura que é geral e comum a todas as instituições da Abjecção: o mito do crescimento ilimitado "contaminou" também aqueles sectores onde a qualidade se não poderia nem deveria sobrepor à quantidade. Mas sobrepõe. E, como tal, Illich denuncia o mito que aqui tem então o nome de crime.
Illich não efectua a crítica de pessoas. Não fulaniza. Mais do que as próprias instituições visadas, é para os mecanismos de abjecção comuns a todas elas que dirige as suas análises. Quando critica a Medicina, não está a pôr em questão este ou aquele funcionário dessas "instituições" (mais ou menos vítima de uma engrenagem a que não pode renunciar e da qual depende inteiramente). Tão pouco a própria instituição hospitalar é o alvo fundamental. O que ele visa é a mitologia ou estrutura generalizada, que assume apenas variantes morfológicas conforme o sector em que se aplica mas provém de uma estrutura comum e geral.
E é aqui que irrompe, necessariamente, a acusação principal contra Illich: a de utopista.
Mas em que consiste a utopia de Illich ?
Pode facilmente verificar-se que o seu pensamento se distingue, em relação a uma ilustre plêiade deles, exactamente por se colocar numa perspectiva não já e não só crítica mas de contestação. Ele situa-se, por esse esforço de independência e lucidez, mentalmente "fora" do sistema.
Por isso o analisa como um todo e por isso alveja a totalidade, preconiza não as reformas mas a Revolução.
Por isso é um profeta da Utopia.
Repare-se que ele quebra o ciclo no ponto onde precisamente se torna vicioso: as pessoas (todas) estão convencidas da indispensabilidade do sistema e da inevitabilidade de todos os seus mitos, porque a escola não tem outra função do que convencê-las disso. Heresia e utopia são os nomes dados pelo Imobilismo e pelo Conformismo a todo o que e a tudo o que porventura se afirme não alinhado com os dogmas da inevitabilidade.
Utopia não é mais do que a permanente contestação das "evidências", que só são evidentes porque um aparelho encarregado disso o afirma dia e noite, sem confronto com nenhuma oposição que o conteste.
É o famoso "homem unidimensional" de Marcuse, a que só o pensamento utópico ou herético ou alternativo ou plural pode oferecer alguma eficaz resistência.
"Os sagrados sistemas produtivos que são as escolas". Mas nem só as escolas. Vivemos num contexto de instituições todas elas sagradas, intocáveis, inquestionáveis nos seus fundamentos. Constantemente Illich acentua o carácter de sacralidade (de mito) conferido às instituições pelos seus obedientes funcionários, funcionários que, depois, é óbvio não poderem exercer a mínima distanciação e a mínima análise crítica da totalidade. A não ser análises parciais, necessariamente reformistas e portanto reaccionárias.
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