15616 bytes 14.189 caracteres <hedoniªs > - notas de leitura – as letras vigiadas <versos>[esta carta a gastão cruz é mais do que suficiente para perceber o ódio que desde então ele me passou a votar] - a traição dos estalinistas (também) na literatura (os guardas do gulag)

CARTA A NINGUÉM

DE UM HOMEM DOENTE CONTRA OS HEDONISTAS

SOBRE A OUTRA LUTA DE CLASSES

ENTRE SÁDIOS E DOENTES

«ESCREVO, LOGO EXISTO»

Tavira, 10/4/1961 - A memória não me ajuda e quando quero dizer o que penso, nunca penso o que quero dizer. Sofro de excessivo respeito pelos outros e pela opinião dos outros. O receio de os ofender, inibe-me de afirmar, na altura própria, o que penso. Inibe-me de discordar. Só me consigo explicar a ninguém. Só o branco do papel me aclara os argumentos...

A vida pagã será o gozo puro e simples das coisas puras e simples. Será a aceitação da imanência sem transcendência, a fruição do instante sem referências retrospectivas ou prospectivas. Será tudo isso: sol, terra, corpos, a natureza sem metafísica e sem panteísmo, sem nenhum ismo. Será o instintivo, o animal, o primitivo.

Proponho, no entanto, algumas dúvidas a essa concepção de vida pagã que me parece simplista em demasia.

a) O estado de harmonia entre o corpo e a natureza pressupõe corpos fisica e psiquicamente saudáveis, diria olímpicos, diria helénicos. Pressupõe afinal uma visão idealizada da realidade. Porque, na realidade, existem corpos mais ou menos saudáveis, mais ou menos doentes, mas não existem corpos perfeitos: só no mármore dos que gozaram muito a esculpi-los... E a identificação do ritmo corporal com o ritmo natural pode ir do êxtase à indiferença, do gozo ao sofrimento

b) A vivência pagã pode ser generalizada ou específica, pode espalhar-se sem determinação ou incidir preferencialmente sobre um objecto. Esse objecto pode ser água do mar ou um corpo e, neste caso, um corpo alheio ou do próprio (aqui, sujeito e objecto coincidem)

No caso das relações do sujeito com a natureza inorgânica, o objecto permanece sensivelmente o mesmo, pois não é plausível, por exemplo, considerar o mar e o sol susceptíveis de saúde e doença. Nos casos de «corpo a corpo», porém, estamos perante duas variáveis e várias combinações são possíveis: o corpo saudável com outro corpo mas doente, o corpo doente com outro corpo mas saudável, o corpo doente com outro corpo doente e dois corpos saudáveis, graças a Deus. E ainda o corpo saudável ou doente consigo próprio (onanismo). Isto sem falar das gradações possíveis entre o que se considera saudável e o que se considera doente e a ambiguidade do próprio conceito de saúde e de doença

c) A vivência do instante, por mais intensa que seja, não omite a ideia de tempo e, portanto, a de finitude ou efemeridade de tudo o que existe, de tudo o que vive e goza. Essa ideia de finitude em relação ao corpo tem o nome de morte (cruzes canhoto), por isso te falei de «absurdo», foi a palavra que me ocorreu mas não era necessário tão custoso vocábulo: efemeridade diz tanto ou mais e com menos pompa...

Tudo isto me parece necessário ter em conta quando se fala de vida pagã (e o ismo de paganismo já me parece inaceitável). O «sopro» de gravidade de que fala Álvaro de Campos e que vejo atravessar longitudinalmente o Alberto Caeiro, o Lawrence, o Urbano Tavares, o Camus, o Raul de Carvalho, a Florbela, o António Botto, o Fialho de Almeida, o Coccioli, o São Paulo (sim, São Paulo), o Pascoaes, o Whitman - provém da plena vivência pagã de todos eles mas constantemente alertada pela vertigem do Fim.

Porque associará o Urbano, por exemplo, o erotismo e a morte? Porque estuda Bataille, na sua «suma ateológica», os fundamentos de uma erotologia (ou ciência erótica) mas constantemente esse estudo nos aparece, ao lado de Blanchot e de Chestov, como uma profunda meditação-vivência sobre o tempo, sobre a morte? Porque não podem estes escritores desligar o gozo do instante, da angústia desse mesmo instante não ser eterno?

«Eterno» digo, entre aspas e sem receio. Não se trata é claro da eternidade a prazo, prometida no outro mundo, mas daquela plenitude procurada na carne e que vence o tempo, o relativismo que amamos com todas as nossas forças mas a que não nos resignamos. Sei que sou relativo e efémero. Sei que os deuses estão mortos e não posso nem quero ser deus. Sei que vou morrer, sei que estou morrendo. Mas não me resigno ao relativo e ao efémero, ao espaço e ao tempo, aos limites, às fronteiras. Porque me prolongo no tempo e enquanto me prolongo, sei que ao orgasmo se segue o fastio, ao espasmo a distensão, ao êxtase a indiferença, à euforia a astenia, ao fascínio o enjoo, à alegria o tédio.

Vivência pagã que não veja nada disto, parece-me simplista e provinciana. Eis o que me parece Manuel Teixeira Gomes. Idílicas, de facto, me parecem as vivências libidinosas do Teixeira Gomes e nada pagãs. Românticas e nada realistas.

Sem metafísica nenhuma, é a própria química da vida e da morte, a difícil e complexa gradação do prazer para a dor e vice-versa, os limites ainda não apreendidos do orgânico e do inorgânico, do físico e do psíquico, que me obriga a exigir um pouco mais do que leio em Teixeira Gomes.

Pensar o que penso e dizê-lo, não me envergonha, ainda que o mundo inteiro pense e diga o contrário. O que me chateia solenemente é estar a dizer alhos e entenderem-me bugalhos. Tu dizeres, por exemplo, que isso da experiência pagã não existe para um esoterista d'«A Razão sem Razão». Ora cebo. Então muito mal me expliquei, ou muito mal me quiseste perceber. O que o esoterista não quer é soluções simplistas para o que é complexo. O que eu não quero é continuar a ter uma visão idealizada - pagã ou antipagã - de uma realidade múltipla, ardente e maravilhosa, em que todas, mas todas as experiências podem e devem ser possíveis e não só aquelas que nos dão um relativo alívio às glândulas.

Aquelas experiências onde a dor e o prazer são dor, onde o sado-masoquista deixa de ser uma raridade monstruosa de bibliófilo instruído em Sade para ser o monstro de luz e fogo que é mesmo Sade. O que me não satisfaz é o pequenino e o Obediente, seja em que capítulo for. O que não quero é o epidérmico, banhos de mar e banhos de sol, vamos para casa almoçar. O que não quero é o burguesinho que espreita nesse pagão de pacotilha a fingir de poeta satânico ou vulcânico. O que não aceito são os meios termos confortáveis, as beatitudes fáceis, as portas largas onde entra toda a gente. O que sou e quero aprender a ser é um corpo contraditório, doente ou saudável mas que assume a doença e a saúde como experiências igualmente fecundas, sem preterir uma à outra. A minha experiência preferida é sobre o gume das contradições, venham os golpes que vierem.

Estranho bastante que se considere esteta o Teixeira Gomes quando Nietzsche, Joe Bousquet, Artaud, Henry Miller, Michaux, Raul de Carvalho fizeram do próprio corpo a sua obra, o seu poema, a sua experiência estética. Esses os únicos estetas que conheço... Arte pela arte, meu caro. O que eu quero é continuar descobrindo o corpo. O contacto sexual com corpos diferentes não é apenas a libertinagem libidinosa à Forjaz de Sampaio ou à Teixeira Gomes, com um piscar de olho maroto e uma estaladela de língua... É ainda a necessidade de conhecer, de pesquisar a geografia de outros corpos, de os experimentar, experimentando a sua e minha resistência, a sua e minha novidade, a sua e minha enigmática ou clara realidade.

Bibliografia: «Les Nourritures Terrestres» e «Les Noces»

II

28/9/1963 - Na «Vida Literária» do costume, o Torres do costume escrevia as asneiras do costume sobre o tema do costume: o inesgotável tema da «felicidade», da «alegria de viver», dos «prazeres» bem bebidos e comidos, o tal tema que já tem vindo às nossas epístolas e azedado algumas. Não quero deixar de registar a coincidência.

Uma vez mais sou forçado a concluir que essa gente não me deixa ser doente. Essa gente não autoriza ninguém a matar-se, nem a ser infeliz, nem a seguir fora da norma estabelecida por qualquer ordem de coisas estabelecida (ou a estabelecer-se). Essa gente odeia o «out-sider», o «hors texte». E acusa. E condena, irremissível, inapelavelmente. Essa gente quer a felicidade por medida, que todos vistam do mesmo alfaiate, que todos comam da mesma gamela (a deles, já babada por eles), que se nivelem todos pela linha do mais baixo nível que é a sua. Não se contentam em ser assim, querem que todos sejam assado.

Labéu de traidor é o menos que pode levar o doente, o suicida, o anormal, o infeliz, ou pelo menos o que não é tão saudável, tão normal e tão feliz e estúpido como eles são. Eles, os humanistas, os fraternais, os tolerantes, não perdoam aos fora do risco, aos fora da lei, aos fora da norma e da regra. Não perdoam e decretam a felicidade para todos, a distribuição aritmética dos «gozos» e «prazeres da vida», um paganismo paradisíaco socialisticamente administrado como na URSS. Não se contentam em andar eufóricos e felizes, de tensão arterial acima de vinte, espichando artigos, aos pulos, nos jornais. A sua humanística benevolência vai ao ponto de obrigar todos a ser felizes por medida, segundo o padrão heleno-hedonístico, sob pena de traição, reacção, idealismo, etc., labéus comuns com que os puros, os bons, os imaculados, os prepotentes e omnipotentes juizes deitam os maus e «infelizes» à vala comum.

Pois bem: ainda que eu fosse de humor normalmente eufórico, havia de parecer que não, só para não andar como eles. Só para não me confundir com o mau cheiro das suas digestões e arrotos, havia de preferir o ascetismo e a temperança, se acaso fosse asceta e temperado, o que até nem sou. Sou debochado, graças a Deus. Que o socialismo sirva de pretexto para nivelaram alguém ao seu baixíssimo nível - talvez sirva de engodo a inocentes, mas não aos que já lhes conhecem a pinta e a lábia.

Depois de o terem, entre outros, lapidado e condenado, por relapso à felicidade objectiva e aos ideais socialísticos de alegria de viver planificada para todos, repetem agora a «descoberta» do Nietszche, que nem descoberta foi e dizem que o cristianismo castrou o instinto, a alegria de viver, as paganíssimas euforias. Pois castrou, e não só. O Torres, pelo menos, repete o slogan. E repete-o sem pejo, sem medo das contradições, tão habituado está a elas.

Pois claro, o cristianismo e só o cristianismo é que é sempre o das botas untadas para a gente condenar nele um modus vivendi, um «way of life» que, de puritanismo em puritanismo, de fascismo em fascismo, de estalinismo em estalinismo, conduziu o homem à total e completa castração. A mentalização racionalista, positivista, socialista e respectivos frades e teólogos, em nada, nadinha contribuíram para a dita castração. Deitam-se as culpas a um culpado mas deixam-se os outros à solta a esfregar as mãos.

Outra característica comum desses cristianismos a pender pró-helénico e o puro sangue pagão de boa cepa, é a invocação religiosa que sempre fazem, ungidos de admiração, do Eça de Queirós. Eles continuam adorando Eça e Eça continua, para eles, paradigma. Para eles, as caricaturas queirozianas pertencem sempre aos outros e não também a eles que tanto o elogiam. Eça faz carambola e dá na cara, ainda não viram isso os malandrecos. E ficam satisfeitos, e ficam descansados, porque o ridículo está sempre nos outros. Nunca se lembram de que os Acácios e os Ernestos mais ernestinhos (principalmente estes) são eles próprios, pintados à pena por Eça, eles próprios que invariavelmente repetem o elogio da fauna queiroziana, quer escrevam artigos quer empilhem versos «à la imaginiste» e que invariavelmente continuam fazendo da nossa sociedade uma sociedade à Eça e da nossa mentalidade a mentalidade de que Eça ficou o supremo paradigma, um Ernesto em ponto grande, um grande Ernestinho. Esta é que foi a sua Glória, de contrário como queriam que os tivesse percebido e caricaturado tão bem?

Amam os homens - proclamam os humanistas-paganistas-socialistas, mas o que é a galeria queiroziana, por eles venerada, senão uma interminável bicha de acusados e condenados pelo ódio de um homem aos outros homens, às fraquezas dos outros homens, fraquezas que ainda por cima talvez apenas existissem na mentalidade do próprio escritor que na sua arrogância monumental se jactava de realisticamente as retratar da realidade, quando na realidade as retratava porque estavam dentro dele?

Se tinha tanto talento - e tinha, graças a Deus - melhor fora ao Eça que, além do talento, tivesse também génio que é num escritor a arte de compreender o ser humano que há em todos os Ernestos e Gouveias do mundo, de compreender as fraquezas dos homens e ajudar a redimi-los delas. Génio não é sobranceria sobre as reais ou supostas podridões humanas. Ser génio ou poeta não é fazer discursos sobre o amor dos homens e a sua problemática, futura, incerta felicidade. É amá-los de facto de um amor infeliz e condoído, como só pode ser, por enquanto, o amor e enquanto houver um só homem que sofra.

Assim foram e assim fizeram - graças a Deus - os Dostoiewski que ainda houve, que tinham da vida um sentido trágico e não de arraial folclórico-pagão, que sabiam não ser a alegria de viver mas o sofrimento o tema mais digno de ser tratado por um escritor. Só quem literalmente desconhece a significação da catarse na obra poética (e desconhecem-na todos os doutrinadores que continuam largando bojardas sobre estética e arredores) poderá defender o contrário. É pelo fenómeno da Catarse que o poeta, cantando o sofrimento, liberta do sofrimento (dentro das suas possibilidades) os homens que sofrem. Isto é contribuir directamente, pela poesia, para a felicidade do homem.

Fazer política com a literatura, fazer propaganda com a literatura, fazer jogos de palavras com a literatura, é apenas abismar mais os seres humanos no sofrimento real e actual, não lhes dando essa possibilidade de catarse que deveria ser a função autenticamente social e humanista da poesia, daquilo que eles, como regateiras, chamam «obra de arte». Aliás, a catarse foi inventada pelos helenos de que os hedonistas tanto gostam de se reclamar e ornamentar... No dia em que os homens forem felizes, não faz falta poetas nem literatura. Nem discursos sobre a felicidade ou infelicidade. Mas enquanto houver um só homem que sofre, negar e sonegar à poesia o seu verdadeiro papel, é real e fundamentalmente trair de alta traição.