1-3 < 94-04-03-iv>quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2003- novo word - 7146 caracteres <fs-3>  <cartas><adn>

 

LÉXICOS HÁ MUITOS

CHAPÉUS AINDA HÁ MAIS

PRIORIDADE ABSOLUTA À TANATOLOGIA

Lisboa, 3/ Abril/1994

 

O que me parece, meu caro F.S., é que tu continuas a desperdiçar o teu melhor e mais precioso tesouro: o direito que ganhaste à tua parte nobre, por via de um caminho de sofrimento. Acho que não estás a gerir esse capital que te foi doado (oferendado) da melhor maneira, mas é óbvio também que não tenho nada a ver com isso, pois cada um sabe de si e Deus sabe de todos.

Vejo, por exemplo, como a tua companheira te dá constantemente «dicas» para que tu viabilizes a via da tua essência, a via da tua iniciação mas a iniciação no essencial - e que eu saiba - implica um certo analfabetismo dos léxicos anteriores, das anteriores linguagens.

A que tu estás, como também é óbvio, extremamente apegado. E os apegos...também se pagam. E tu estás ainda tão apegado aos léxicos tecnocráticos que me parece ser, esse, um impedimento de peso à tua levitação, ao teu levantar voo, à tua ascensão para níveis de frequência vibratória mais subtis, aqueles a que o sofrimento, precisamente, dá acesso: se o sofrimento é feito para ligar ou desligar à Terra, para ligar ou desligar ao Céu, eis o que me parece depender muito do nosso livre arbítrio. Da nossa escolha. Da nossa opção.

Sobre a morte e como ensinar os vivos (ou moribundos) a morrer, eis o meu programa de vida, actualmente, do qual só as patifarias do consumo e as necessidades de atender às exigências da sobrevivência me distraem. Gostaria de encontrar alguém com quem trabalhar nisto: que, para comprazer à parte material, teria também uma «vertente» de holodiagnóstico, um diagnóstico global ou «perfil holístico».

Será um dia destes o momento de te dar conhecimento de alguns «files» que meti em computador - sobre esse projecto do «perfil holístico».

Só que, quanto a projectos, eu encontro-me numa fase em que toda a cautela é pouca: não se pode projectar nada enquanto não se integrar. E estando eu em Nigredo puro (desestruturação completa e violenta do suporte) não posso aspirar já a qualquer reestruturação projectiva, a qualquer forma assumida.

Estou, creio, na fase de «mescla» em que a decantação está longe ainda de fazer-se. Não quero converter ninguém a nada. Quanto muito, converter cada um a si próprio.

Já Nietszche preconizava «ser o que se é», repetindo o Sócrates do «conhece-te a ti mesmo» o Sócrates que, por sinal, escreveu pouco - ou nada, o que faz suspeitar de que era analfabeto. Graças aos deuses (gregos), era analfabeto, pelo que nos falou a linguagem universal, herdada do egípcio Hermes Trismegisto, via Pitágoras. Penso, neste momento, que devo partir de uma assumido analfabetismo, sem saber quando vou aprender e se vou aprender a nova «linguagem vibratória de base molecular».

Entretanto e como «burro velho não aprende línguas», desisti de «aprender línguas», inclusive a dos computadores. Ou essa língua de piratas e merceeiros que é o inglês. Ou essa outra de punhos de renda e rigores analíticos que é o francês. Nunca vou é fazer carreira, se não aprender os léxicos todos que eles, os patrões, querem e adoram. Admiro é Ivan Illich que conseguiu dominar aí umas oito línguas, inclusive o rebarbativo português.

Não sei como se diz snobismo em inglês mas acho, por exemplo, que os jornais, em especial os do chamado «jornalismo económico», como tu bem sabes, é só de «flop» pra cima. Perante isto - perante esta nova Torre de Babel - máximas universais como «ser o que se é», «o Verbo é Deus», «ama-te a ti mesmo» são meras banalidades de base, ditas através dos tempos e das culturas e que só aguardam o momento de ser integradas no dia a dia da custosa, penosa, vaidosa tragédia humana. Ecologia, por exemplo, se é que serviu para alguma coisa, veio ajudar a relativizar as coisas terrenas: e se a Ecologia nos diz que não há saída horizontal (porque não há mesmo, o chafurdo é mesmo chafurdo, o tremedal é mesmo tremedal), é de acelerar então a saída vertical.

Deparamos com uma multidão de escolas, seitas, tradições, mas a gnose radiestésica tem talvez a vantagem de apurar todas as técnicas (sem holismo nem ecletismo) e unificá-las em uma só. Sem vampirizar o duplo de cada um, o que - diz-se - acontece a todas as formas manipulatórias de energia: ganha-se, nessas egrégoras, em satisfações materiais (ainda quando levam o nome de espírito, mas que diz respeito ainda ao corpo espiritual) o que se perde em natureza essencial.

Uma palavra que vou imediatamente integrar no meu léxico de sucesso é o «Know-how», cheio de ressonâncias e de consequências. Fizeste com que me apercebesse disso, nunca tinha pensado nessa vantagem. É sempre bom ter alguma coisa que nos possa pôr em posição de vantagem face à bicharada que dia a dia nos suga. Como se diz em inglês «bicharada»? Mas a palavra «know-how, tão simpática, tem conotações para mim antipáticas, muito ligadas a «sapos vivos» e a «vontade de vingança»: se der atenção a esse passado de memórias, acabo por ficar com os cabelos eriçados, agora que o Delgado Domingos lança a revista de ecologismo, por exemplo, com prefácio de Mário Soares e com o José Mattoso amigo do ambiente, sinto-me ainda mais insignificante e inútil do que quando a Maria Santos se candidatou ao lugar de deputada europeia.

Se vou a pensar em termos de «know-how» e reavivar memórias de «sapos vivos», nunca mais saio desse lodaçal. Nem consigo apagar memórias que me apegam à vida e, como te disse, a morte é agora, tem de ser agora a minha prioridade. Como vou apagar memórias e apagar apegos, se der importância ao tal «Know-how»?

Aliás, se falo muito em escrever as minhas memórias, esta carta não vai chegar ao destino, como aconteceu à outra...Se tiver que voltar a narrar a crónica dos sapos vivos, já tenho file <sv>, e já lá deitei considerandos, a propósito de alguns sv mais recentes: eles não faltam nunca neste país, como sabes.

Academia de artes primordiais? Só vejo, nas artes primordiais, esta que é indicada pela retoma do Egipto faraónico, dos seus deuses, da sua sabedoria, da sua gnose. Com as ciências dele advindas: Teurgia, Numerologia, Astrologia, Magia, etc. Os orientais são porreiros, especialmente os que inventaram essa magnífica vassoura que é o Zen (aspirador dos detritos da alma), mas agora estou mais virado para o Oriente próximo. Até que a morte tenha a complacência de me levar.

Foi mesmo o acaso - que não existe - que nos fez encontrar aquele sábado, em que me emprestaste a revista «Caduceus» mas principalmente o artigo sobre Tanatologia e Música. Tanatologia, meu caro, é quanto a mim a arte (primordial) de todas as artes: pelo que lhe estou dando neste momento prioridade absoluta. Dentro daquilo que a vida deixa, só a Morte me interessa.