<farao> # «cartas sobre alguns cadáveres locais» # «ensaios de dialéctica» # as teses de bertolucci nos filmes «1910» e «a estratégia da aranha» - inédito ac de 1962 – os guardas do gulag – diário de um idiota precoce
CARTA AO FARAO RAMSES II
DE UM SEU SÚBDITO
Dedicatória: À meia dúzia de opressores e milhões de oprimidos
28/5/1962 - Obrigado, faraó: O teu reinado está por pouco. É a hora da verdade e a verdade, como dizem os teus lacaios, é só uma. É a hora de dar balanço ao que fizeste e pelo que terás de ser julgado. É preciso dizer-te, faraó de Santa Comba, que foste tu o principal comunista deste País. Preparaste ao comunismo o melhor terreno, abriste-lhe todas as portas, aceleraste o seu processo.
E sabes porquê? Porque te armaste em seu Perseguidor infatigável e fizeste da caça ao «vermelho» a tua Cruzada dos Albigenses. Muita gente, mesmo sem perceber nada de dialéctica, te ficará agradecida, não pelos teus discursos mas pela tua obra a favor da Conversão e da Subversão.
O comunismo não se combate, absorve-se, assimila-se e supera-se. Caso contrário, é-se absorvido por ele. Caso contrário, ajuda-se a proliferar como o cancro totalitário que tem tendência a ser. E quanto mais comunistas prenderes, mais heróis vais criando para o hagiológio da História e mais comunistas dás à luz.
A tua estúpida atitude anticomunista, agiota de Santa Comba, a tua paranoia histérica em relação a uma ideologia também paranoica e histérica, é como a gasolina na labareda. Esqueces ou ignoras ou não esqueces nem ignoras mas teimas no esquecimento e na ignorância de que o Comunismo é depois do Cristianismo, do Judaísmo, do Islamismo, do Trogloditismo, do Espiritismo, do Neo-Hibridismo, do Budismo, do Hinduísmo, do Charlatanismo, a religião que mais adeptos conseguiu arrebanhar, com sua corte de heróis e sua galeria de carismáticos mártires, quase todos já canonizados pela igreja.
Apóstolos, mártires e crentes contribuíram a criar nas massas - como eles dizem - o mito do proibido e a multiplicar por mil a eficácia de qualquer propaganda que a favor do comunismo se fizesse na aura da Clandestinidade. Fizeste com que se olhasse com simpatia uma ideia que talvez levasse muitos anos a fascinar a grande parte dos ignorantes e indiferentes. Tu, faraó de Santa Comba, potenciaste a vulgata comunista, perseguindo-a e fazendo-a leit motiv da tua propaganda fascista, vazia de propostas construtivas.
Contra ti se hão-de levantar de armas nas mãos não aqueles que fizeste mártires mas aqueles que deles irão ser os mártires. Proletarizando o País, separando cada vez mais em duas as classes sociais, fizeste com que apenas ficassem a defrontar-se duas: a minoria minérrima dos opressores e a legião de milhões de oprimidos.
Facilitaste, mais uma vez, a dialéctica do materialismo histórico, cuja fase de embate revolucionário deverá ser essa das duas classes que se defrontam e confrontam, sem classe média que arbitre o conflito, atenue a tensão, regule o equilíbrio.
Suprimindo a crítica, a iniciativa intelectual, a liberdade de palavra e reunião, preparaste as massas (que de facto amassaste como eles queriam) para aceitarem, sem crítica, qualquer dogma e qualquer dogmática, principalmente a que mais virulência hoje pode ter e capacidade proselitista de convencimento.
Esquematizando toda a possibilidade de escolha, entre ser comunista e ser anti-comunista - e como é impossível a um homem que pensa ser anti-comunista tanto como ser comunista (Merleau Ponty) - da tua brutalidade e estupidez ficou uma única saída: ser comunista.
Graças a ti, Anãozinho de Santa Comba, os comunistas proliferam. Ilegalizando os partidos políticos, deixaste que se desenvolvesse e prosperasse o único com capacidade organizadora, com todo o treino, experiência, know how e apoio internacional que lhe é peculiar.
Sendo a tua estúpida acção de regateira de bairro impotente para neutralizar uma força que funda as suas raízes fora do raio de acção das tuas polícias e da tua tirania, não fizeste mais do que fomentar essa força, enquanto liquidavas de facto outras forças de equilíbrio político - os outros partidos.
Fazendo da Emissora que devia ser nacional o porta-voz da tua camarilha e sendo impossível que alguém, durante 36 anos, possa ouvir sem morrer de tédio, os teus noticiários, transmissões, retransmissões, o diabo! abriste, como única saída ao torturado ouvinte, a única possibilidade: a audição das emissões estrangeiras em língua portuguesa e a propaganda que elas queriam fazer, bem se importando que «a verdade seja só uma» à maneira de sopas depois do almoço.
Impedindo que se fizesse nos jornais doutrina discordante da tua, deste força invencível e carácter de verdade única à doutrina do único jornal clandestino com vida regular, expansão e influência garantida entre as massas trabalhadores.
O teu reinado, reizinho das Berlengas, está no fim. E a «maioria esmagadora» que votava nos teus presidentes verifica-se afinal que está contra ti e não te grama. A ingrata maioria nem dourado te quer. Na verdade fizeste maravilhas, és o génio político do Ocidente, mereces trinta e seis pirâmides - uma por cada aniversário da tua glória - e vinte valores na escala de Richter. Mas a maior glória é teres preparado como única saída para a gente portuguesa a política que levaste os melhores e piores anos da tua vida a combater.
28/5/1962§