1-2 < 92-03-18-ac-ms> afonso a miguel serrano - sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - <evo-56-1>

18-3-1992

A.C. A  M.S.

8 horas, terça-feira - Uma nova fase, um novo avanço. Poesia revelada. Mais uma conquista, mais uma certeza. Pois claro, ou julgas que não vi: essa poesia, como poesia realizada, vale por muitas, muitas anteriores. Esplêndida. E se me não engano, vê lá se não foi o segredo este: deixaste, como sempre, que o motivo te provocasse.

Mas puseste alerta um pequeno imperativo de claridade e não deixaste apenas que o mistério falasse. Resultado: o mistério falou e saiu como água, porque houve um pequeno policiamento (aquele que não prejudica a virgindade de um primeiro impulso) a não deixar perder por fraseado abstracto a linfazinha corrente. É ou não é?

Houve, digamos, mais «cuidado» nesta tua poesia. Um certo requinte, uma certa «dedada». E esse medo que tens de profanar o sacro mistério das coisas, deixando-as brotar na primitiva forma, atenuou-se.

Resultado: um óptimo de classificação, para a experiência. Vês como a poesia não é um peso mas antes uma sucessiva abertura de relâmpagos, encontros e clareiras? Vês como as palavras provocam e não prejudicam? Vês como basta torcer o pescoço à desvairação delas, para que as palavras sejam nossas servas e fieis cumpridoras?

M., A máquina de escrever enferrujou. Era de esperar. Fui hoje pelas cartas que esperavam resposta e verifiquei, sem espanto porque já o esperava, que não dava uma para a caixa. Nem para responder a cartas já me chega a seiva. Enferrujei de vez. Embruteci. O que fazer? Resignar-me.

Eu sabia que isto ia acontecer, tu é que dizias que não. Pode ser que passe. Duvido. Esperarei. Estou absolutamente sequinho. Segue no correio de hoje a «Crítica de Livros». Como a coisa está, provavelmente não me vem inspiração para escrever o artigo sobre «O Nosso Jornal», mais ou menos com um plano resumido da nova fase. A propósito, tens toda a razão.

Fui eu que deturpei o sentido da tua frase. Não sei onde fui buscar essa de que escreveras um artigo sobre o plano do jornal. Não faças caso. Estou em decadência manifesta. Perdoa, atura. Estou em vias de apanhar um complexo de inferioridade, pela primeira vez na minha vida. Far-me-á bem, é outro aspecto da vida a conhecer. Em vez do inquérito que estava previsto para ser enviado aos escritores (e que tenho a certeza ainda não foi impresso em circulares, pelo que não haverá perigo em operar modificações... )talvez se possa substituir por um outro sobre assuntos nitidamente sociais, qualquer coisa como isto para título geral: «O Momento Social Português». Irei elaborá-lo se houver tempo.

M. e J., de vez em quando pomos um ovo de pé. Pois não será mais um ovo de Colombo esta evidência: se todas as publicações se defendem financeiramente com a publicidade, porque não há-de defender-se «a planície»? De que modo? Antes de mais, começando a imaginar uns anúncios especiais, a que o lápis do Álvaro, sem desdouro, não seria alheio. Depois, começar com a publicação, no próprio jornal, de uma tabela de preços de anúncios, uma campanha, assim como está a decorrer (um tanto mortiça, valha a verdade) a de assinantes. Em terceiro lugar, convidar alguém a agente de publicidade. Como não pode ser ninguém quadrado exclusivamente para tal fim (pois nem seria ocupação capaz de absorver exclusivamente uma pessoa) talvez se arranjasse um indivíduo que tenha por missão a agência de qualquer negócio (um agente de seguros, lembro-me do peres) e, simultaneamente, agenciaria «a planície», cabendo-lhe uma percentagem em cada anúncio angariado e até aos assinantes que também trouxesse.

Pois diabo: será isto difícil ou impossível de pôr em prática? Custará muito dinheiro? Não compensará? Trará encargos ou benefícios ao jornal? Na certeza, porém de que o aumento de páginas de anúncios coincidiria com um aumento de páginas de interesse cultural. Usurpar o espaço que pertence ao jornal geral com os anúncios, seria retrogradar. Pior a emenda que o soneto, então. Não serve a sugestão? Parados é que me parece não valer a pena estar.

E o resto?, Jaquelino, anda? Do indígena A.