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A FALTA DE CRISTANDADE
DOS CATÓLICOS
Évora, 3/4/1958 – Isto é falar de individualista, dirão aqueles para quem só os planos quinquenais são caminho de reforma do homem. Chamem-lhe o que quiserem. Para os da esquerda, serei individualista, conservador, liberal, talvez anárquico; para os da direita, serei socialista, comunista, de ideias avançadas e subversivas, um anarquista também...
Mas só o que sou, um homem do povo, um pobre aprendiz do que importa, que se não resigna à servidão, à indignidade e à injustiça, que procura a liberdade, a dignidade e a justiça dentro de si e dos que estão próximos de si, isso é que ninguém quer ver que sou.
Julgam os ricos da minha terra que eu e outros como eu lhes querem arrombar os cofres! Que falta de cristandade a dos católicos ricos e a dos ricos católicos da minha terra!
2597 caracteres - [ Rigorosamente inédito]
# Textos AC datados
# Notícias da resistência
# Papéis subversivos
# Páginas polémicas
# Manuscritos da juventude
# Dossiê do refractário
# Fala um jovem de 20 anos antes de entrar na tropa
# Desabafos de um recruta em Vendas Novas
Ou será que ainda esperamos alguma coisa de alguém? Será que ainda cremos no futuro, na carreira, nos filhos, na felicidade? Será que ainda temos vergonha de ter vergonha? Será que ainda temos ideais? Será que ainda não notámos a merda que nos cobre até ao pescoço e por cima do pescoço? Será que, depois de tudo nos ter sido negado e sonegado, censurado e proibido, vaiado e esvaziado, ainda sonhamos a liberdade? Será que ainda acreditamos na acção, depois de nos amarrarem e manietarem? Será que ainda cremos na salvação do mundo (da pátria)? E nas pátrias do mundo? Será que esperamos ainda alguém? Ou alguma coisa? Será que ainda não estamos suficientemente saturados, informados, convencidos do máximo divisor comum de toda a tropa humana que nos cerca? Será que ainda não vimos de onde vem e até onde vai a ditadura - a da plutocracia e a da burocracia, a da aristocracia e a da democracia, a da teocracia e a da tecnocracia? Será que ainda desconfiamos de uns para confiar nos outros? Será que ainda queremos falar a surdos? Se tudo esperneia, será que não queremos ir espernear também? Será que não temos coragem de, entre teólogos e políticos, líricos e críticos, estetas e juízes, banqueiros e legistas, militares e papas, dar apenas o nosso arroto?
Nós, apenas nós, os dos vinte anos, temos direito a legislar. Antes disso, o nosso dever é odiar, destruir, matar, subverter. Não procuramos amigos, mas cúmplices: o camelo neste deserto, o desertor de todas as guerras que não forem a nossa, o fora da lei do presídio nacional e internacional, o homem de coração e c. nesta sacristia, em qualquer parte do mundo ou da eternidade, o irmão do mesmo sangue e do mesmo espírito. Nós, apenas nós, os dos vinte anos, temos direito à revolta. revolta que não é, com certeza, a do político, disto, daquilo ou daquiloutro; revolta que não é revolta com isto mas conformismo com aquilo, que não é crítica aqui e apologia acolá; revolta que vale por três porque é contra três estados de coisas - nacional, capitalista e humanista; revolta cujo raio, além de ser um raio que os parta e nos parta, não tem fronteiras nem limites. Nós, apenas nós, os dos vinte anos, podemos dizer: estamos na luta, mas não estamos na lua: e isto em todas as línguas, em todas as latitudes, em todas as políticas. Não vamos reformar coisa nenhuma, porque não somos reformistas. O reformista reforma, o revoltado revolta-se. Nós, os que não somos profissionais da história, nada temos a reformar: nem pátrias, nem europas, nem ocidentes. Apenas subverter.
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# Para a história de uma estranha perestroika
# Para o Dia do Juízo Final
# Diário de um Vencido incurável
# Crónica de uma Resistência Crónica
# Crónica dos Anos Sombrios
# Diário do Gulag
# Forum dos Aflitos: Queixas de um pequeno-burguês
A REVOLUÇÃO DE CÓR
5/8/1968 - Gostava que estes filhos de engenheiros e médicos, agora comunistas, e que me tratam com o desprezo condicente por eu não ser tão comunista como eles, gostava que eles tivessem tido a minha infância, ido à tropa como eu fui, passado fome como eu passei; e até, por engano, sido quase fascista como eu tive a suprema miséria de quase ser (não tive papás nem mestres, nem os livros do papá na estante de uma biblioteca farta de obras progressistas). Gostava que os burgueses filhos de burgueses deixassem de me ensinar como é a revolta e a revolução que eles decoraram e eu seu de cor. Há diferenças, caríssimos camaradas; entre vós e eu, há a diferença de decorar sem saber e saber sem ter decorado.
Saber o preço, o peso e o alcance das humilhações é a única escola revolucionária e quem por lá não passou abusa, às vezes, da sua segurança e até das vantagens espirituais, morais (energia, coragem, decisão, inteligência) não falando já das económicas, que o colocam automaticamente na classe dos vencedores contra os vencidos.
Verdadeiramente humilhado sou eu que só aos 35 anos li o que vocês leram aos 15 (de mistura com as histórias de quadradinhos que nunca li); e que, evidentemente, como autodidacta, podeis ter a tentação de humilhar, ridicularizar, espezinhar. Como, aliás, largamente fazeis.
Só a classe, na luta, define a ideologia dos indivíduos. E a sua filiação teórica pode não ajudar a remi-los, a tempo, dos seus abusos práticos. Eu vou coleccionando neles e aqui os escrevo para o dia do juízo final.
Se há os filhos de doutores, também há os doutores filhos dos que não eram doutores diplomados. E neste entremez bufo devo acentuar que os considero no mesmo pé. Se não herdam, adquirem. Dos progressistas que vi, todos justificavam a sua ascensão arrivista à classe seguinte por motivos estratégicos. Podiam assim ser mais úteis ao Partido. Claro, estão com os debaixo mas, pelo seguro, vão-se instalando em cima. E então, eis disparada a primeira acusação (acompanhada de risos ofegantes): se falo é por despeito. Fiquei na mó de baixo, nunca fui doutor e agora é o despeito que me move, o rancor. «Feios sentimentos, meu caro, muito feios sentimentos» - recomenda-me o R.F. [???] , como se comunista não fosse estruturalmente o que inveja. É que eles, a quem a inveja só move -- tanto como me move a mim -- na negregada «luta pela vida», nem comunistas são.
10/8/1968 - Falando ontem com o chefe de redacção, e depois da sua grandiloquência me admoestar mais uma vez, como quando nas reuniões democráticas para sancionar decisões ditatoriais, concluí (embora já soubesse, claro) que um «engagé» não conhece nem quer outra linguagem e outra vida que não seja o ódio. Tal como eu, que não sou engagé. São estes filhos de burgueses que, talvez por atraso na hereditariedade, querem acelerar a revolução, começando por instalar o método da chalaça e o princípio do Ódio.
Contou-me da má consciência que já tem, mas pensa não resvalar completamente para o outro lado da barricada, com a ajuda da sorte e se Deus quiser. O A. de C. [ Adriano de Carvalho] que também é fresco e só conhece o ódio, deixou inopinadamente de lhe falar, depois de insinuar que os patrões escolhem os capatazes que lhes servem.
Tu que, entre o ódio e a fraternidade, és o único, naquele antro, a guardar um bocadinho de ingenuidade, de boa fé e de pureza indispensáveis para que o ramerrão quotidiano se não torne uma caldeira do inferno em ebulição, talvez não tenhas começado a compreender ainda em que mundo e em que meio vives. Do lirismo de M.S. ao estalinismo implacável dos outros, não tardará que te habitues à nova ordem de coisas e dado que também não queres ser burguês.
O dilema foi-me (indirectamente,claro!) posto pelo chefe de redacção R. de C. [ Ruben de Carvalho] que é as duas coisas e por isso está duplamente por cima de nós, por cima de mim. Se aquilo já era dantes, com o outro, J.S.M. [ Júlio Sousa Martins] uma doença, agora é, com este, uma chaga. Razão porque só o pontapé (mais ou menos almofadado) será de ora avante a linguagem mais adequada a empregar naquele pequeno campo de concentração com aparências de democracia popular.
[ Evoco outros nomes contemporâneos: Diana Andringa, Almeida Fernandes, Carlos Araújo, António Valdemar, Júlio Navarro - quem é o R.F.? ]
Sempre me irritaram estes criminosos de guerra que praticam os crimes de guerra
observando absoluto respeito pelo que a lei internacional estabelece.
Não sabem eles que os crimes de guerra devem ser cometidos segundo o que está estabelecido?
Claro: arriscam-se a ser julgados em Nuremberga 7, pois deve ser assim que se faz tal gente que nem no seio da comunidade internacional devia ter lugar. Há uma coisa chamada direito, sabiam?
E outra chamada Direita.
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<eu-ana-4>
O BOCEJO NACIONAL - ESSE SUICÍDIO QUE É SER ANARQUISTA - DEUS PERDOE AOS DONOS DO PODER
30/Dezembro/1989 - O poder tem medo. Tem medo das abstenções. Tem medo do desinteresse e do bocejo. O poder tem medo que se saiba: o povo está farto do poder.
Por isso o poder obriga, multa, constrange. Por isso faz de uma festa cívica - o recenseamento - um acto drástico. Por isso torna um direito - o direito de votar - num dever coercivo.
«Hão-de pagar multa que se lixam...»
O mínimo de inteligência crítica é assim incompatível com a política.
A política é, de facto, o grande campo onde se torna obrigatório aceitar jogos que repugnam ao mínimo de consciência moral e de lucidez mental.
É o reino deles. Mas eles sentem-se sós e querem o rebanho lá. Por isso obrigam o rebanho, sob pena de pagar multa. Multa-se o rebanho para o obrigar a ser rebanho.
Crime de morte em Mediocracia é ter personalidade. Há que pagar multa por não ser medíocre.
Que lindas são as tiranias da liberdade. Que lindos os direitos do homem transformados em obrigações. Que lindas demagogias e que lindo funeral é tudo isto a que chamam entrada no Mercado dos Nove. Mais que mercado, feira. De porcos.
Ser anarquista não resolve nada - dizem os desanarquistas. Mas foi a incurável aberração dos políticos profissionais - vejo agora bem - que empurrou milhares de pessoas para esse beco, para esse suicídio que é ser anarquista. É-se anarquista por não poder mais suportar o mau hálito dos poderosos. Que, não contentes em tirar olhos uns aos outros, nos querem a todos cegos. E parvos. E tolos. E medrosos.
Medrosos como eles, que tão sós se sentem - os calígulas.
Pobres deles a quem foi distribuído tão triste papel neste triste palco da vida. Que Deus lhes perdoe. E só Deus sabe como um anarquista acredita em Deus.
Responsáveis não respondem
Responsável é, por etimologia, o que responde. Ou devia ser.
Em Portugal, país das bizarrias, o responsável, regra geral, não responde. Mudo e quedo, só no palco dos grandes momentos solenes, bota palavra, desinibe o pio. Pergunta mais indiscreta ou mais directa que vá das populações até lá - ao trono - leva «sopa».
Vamos, por isso, nesta profissão bisbilhoteira de perguntar como é, para contar como foi, coleccionando «perguntas que ficaram sem resposta». Já fazem bicha, nos nosso arquivos implacáveis. Sem que os responsáveis acusem o toque ou, como seria obrigação, respondam.
Deixo algumas interrogações enviadas para as estrelas (na esperança de que sejam os extra-terrestres a responder), deste tonto Planeta Terra e já que por aqui os responsáveis são, solene e silenciosamente, irresponsáveis.
(Ver «Perguntas ao Poder» ).
Começou a época da caça. Os «caçadores» são a imagem do heroísmo português. E os acidentes de inocentes crianças com armas de fogo dos caçadores, o triste fado do nosso triste fado de cada dia.
A neutral objectividade do noticiarista.
Mais uma rapariga de 14 anos colhida na Linha do Estoril, desta vez na passagem de nível de Santo Amaro de Oeiras.
Mais um facto banal, de rotina, que o jornalista deve noticiar seca e objectivamente, sem fazer comentário nem literatura. A morte, para o jornalista, é a vida dele de cada dia.
É a rotina. E quanto não lhe agradecem os outros (políticos & etc) tão profícua e obediente objectividade? Manuais progressistas do jornalismo a ensinam. Está, a letras de oiro, no livro de estilo da ANOP. Tomar partido, é só para quem tenha partido. Tomar partido pela consciência é fazer literatura, é sectarizar a notícia, é imiscuir opinião nos factos.
A morte nas passagens de nível deixou de ser escândalo. Providencialmente já conquistou o estatuto de rotina, para isso ajudou o noticiarista a que chamam jornalista. A morte continua, nas passagens de nível e nem só, mas se não fosse a morte diária do que iríamos viver?
Banalizemos a morte
Continuam a desaparecer crianças de Portugal e um conhecido semanário foi sensacional a descrever pormenores de tão inocente tráfico.
Mas os raptos continuam e o Poder, inocente, lava como Pilatos as suas mãos. E quando um facto deixa de ser sensacional, deixa de ser manchete, entra na rotina.
O rapto de crianças portuguesas exportadas para o Estrangeiro está a tornar-se rotina.
Viva a divina neutralidade do jornalista, para não falar do pilatismo dos políticos e governos.
Do escândalo à rotina: banalizemos a morte!
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DIÁRIO POLÍTICO
Lisboa, 25/6/1992 - O trabalho de destruir o PS, que tantos anos foi tão laboriosamente desempenhado por Cunhal e cunhalistas, é agora tomado em mãos - como um facho democrático redentor - pela ínclita geração do semanário «O Independente», com mais força do que três partidos, mesmo inteiros. Mas então Guterres não é da Opus? E não foi «O Independente» que o ajudou a lá pôr? A estratégia principal nem sequer é promover Manuel Monteiro, marionete nas mãos do Paulo Portas, a líder da Direita mas despromover o Guterres de líder da Oposição. É assim que faz uma extrema Direita esclarecida.
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