< eu-ana>

 

A FALTA DE CRISTANDADE

DOS CATÓLICOS

Évora, 3/4/1958 – Isto é falar de individualista, dirão aqueles para quem só os planos quinquenais são caminho de reforma do homem. Chamem-lhe o que quiserem. Para os da esquerda, serei individualista, conservador, liberal, talvez anárquico; para os da direita, serei socialista, comunista, de ideias avançadas e subversivas, um anarquista também...

Ou será que ainda esperamos alguma coisa de alguém? Será que ainda cremos no futuro, na carreira, nos filhos, na felicidade? Será que ainda temos vergonha de ter vergonha? Será que ainda temos ideais?  Será que, depois de tudo nos ter sido negado e sonegado, censurado e proibido, vaiado e esvaziado, ainda sonhamos a liberdade? Será que ainda acreditamos na acção, depois de nos amarrarem e manietarem? Será que ainda cremos na salvação do mundo (da pátria)? E nas pátrias do mundo? Será que esperamos ainda alguém? Ou alguma coisa? Será que ainda não estamos suficientemente saturados, informados, convencidos do máximo divisor comum do que nos cerca? Será que ainda não vimos de onde vem e até onde vai a ditadura - a da plutocracia e a da burocracia, a da aristocracia e a da democracia, a da teocracia e a da tecnocracia? Será que ainda desconfiamos de uns para confiar nos outros? Será que ainda queremos falar a surdos?

Nós, apenas nós, os dos vinte anos, temos direito a legislar. Não procuramos amigos, mas cúmplices: o camelo neste deserto, o desertor de todas as guerras que não forem a nossa,  o homem de coração  nesta sacristia, em qualquer parte do mundo ou da eternidade, o irmão do mesmo sangue e do mesmo espírito. Nós, apenas nós, os dos vinte anos, temos direito à revolta. revolta que não é, com certeza, a do político, disto, daquilo ou daquiloutro; revolta que não é revolta com isto mas conformismo com aquilo, que não é crítica aqui e apologia acolá; revolta que vale por três porque é contra três estados de coisas - nacional, capitalista e humanista; revolta cujo raio,  não tem fronteiras nem limites. Nós, apenas nós, os dos vinte anos, podemos dizer: estamos na luta, mas não estamos na lua: e isto em todas as línguas, em todas as latitudes, em todas as políticas. Não vamos reformar coisa nenhuma, porque não somos reformistas. O reformista reforma, o revoltado revolta-se. Nós, os que não somos profissionais da história, nada temos a reformar: nem pátrias, nem europas, nem ocidentes. Apenas subverter.

+

+

<eu-ana-4>

O BOCEJO NACIONAL - ESSE SUICÍDIO QUE É SER ANARQUISTA - DEUS PERDOE AOS DONOS DO PODER

30/Dezembro/1989 - O poder tem medo. Tem medo das abstenções. Tem medo do desinteresse e do bocejo. O poder tem medo que se saiba: o povo está farto do poder.

Por isso o poder obriga, multa, constrange. Por isso faz de uma festa cívica - o recenseamento - um acto drástico. Por isso torna um direito - o direito de votar - num dever coercivo.

O mínimo de inteligência crítica é assim incompatível com a política.

A política é, de facto, o grande campo onde se torna obrigatório aceitar jogos que repugnam ao mínimo de consciência moral e de lucidez mental.

É o reino deles. Mas eles sentem-se sós e querem o rebanho lá. Por isso obrigam o rebanho, sob pena de pagar multa. Multa-se o rebanho para o obrigar a ser rebanho.

Crime de morte em Mediocracia é ter personalidade. Há que pagar multa por não ser medíocre.

Que lindas são as tiranias da liberdade. Que lindos os direitos do homem transformados em obrigações. Que lindas demagogias e que lindo funeral é tudo isto a que chamam entrada no Mercado dos Nove. 

Ser anarquista não resolve nada - dizem os desanarquistas. Mas foi a incurável aberração dos políticos profissionais - vejo agora bem - que empurrou milhares de pessoas para esse beco, para esse suicídio que é ser anarquista. É-se anarquista por não poder mais suportar o mau hálito dos poderosos.

Medrosos como eles, que tão sós se sentem - os calígulas.

Pobres deles a quem foi distribuído tão triste papel neste triste palco da vida. Que Deus lhes perdoe. E só Deus sabe como um anarquista acredita em Deus.

Responsáveis não respondem

Responsável é, por etimologia, o que responde. Ou devia ser.

Vamos, por isso, nesta profissão bisbilhoteira de perguntar como é, para contar como foi, coleccionando «perguntas que ficaram sem resposta». Já fazem bicha, nos nosso arquivos implacáveis. Sem que os responsáveis acusem o toque ou, como seria obrigação, respondam.

Deixo algumas interrogações enviadas para as estrelas (na esperança de que sejam os extra-terrestres a responder), deste tonto Planeta Terra e já que por aqui os responsáveis são, solene e silenciosamente, irresponsáveis.

+

Começou a época da caça. Os «caçadores» são a imagem do heroísmo português. E os acidentes de inocentes crianças com armas de fogo dos caçadores, o triste fado do nosso triste fado de cada dia.

A neutral objectividade do noticiarista.

A morte nas passagens de nível deixou de ser escândalo. Providencialmente já conquistou o estatuto de rotina, para isso ajudou o noticiarista a que chamam jornalista. A morte continua, nas passagens de nível e nem só, mas se não fosse a morte diária do que iríamos viver?

Banalizemos a morte

Do escândalo à rotina: banalizemos a morte!