<elee-3> grelha aberta – hipóteses de ficção – esboços de ficção

CARTA DE AMOR

A 545 SERES HUMANOS (NÚMERO DE CARTÕES CARDFILADOS EM <ELE->crd [...]

Lisboa, 5/6/1992 - Não sei se estão mortos, se estão vivos, se assim-assim, se em banho maria ou em stand by

Não sei se me odeiam, se me consideram

Não sei se o meu nome lhes diz alguma coisa ou se lhes é total e completamente indiferente

Não sei se me devem alguma coisa ou se sou eu que lhes devo ou se estamos quites

Não sei se fumariam comigo o Cachimbo da Paz e enterrariam o Machado de Guerra

Se quereriam aprender em uma aula ampla e arejada as lições de budismo Zen que toda a vida me ensinaram

Não sei se alguma vez ouviram falar e riram dos meus ensaios de karma yoga

Não sei se alguma vez sonharam alto comigo e lhes apareci à beira do Precipício com uma bandeira vermelha ondulando ao vento

Não sei se irão ao meu funeral ou se preferirão ir ao meu casamento e baptismo, ou às minhas bodas de prata

Ou se já leram (e recitam em voz alta) o Livro dos Mortos

Ou se teriam, como eu, a Coragem de acreditar em tudo sem ter Fé em nada, e muito menos a inabalável Fé em deus que move montanhas

Não sei o que os espera, o que me espera, se terão sorte, se vão ter sorte, se lhes saiu a taluda no domingo passado, se se compadecem dos pobres e dos aflitos, se dão esmola em dias santos de guarda

Se capturam Borboletas no auge da Confusão dos Narizes

Se estariam dispostos a dar a vida pela vida

e a organizar comigo um «meeting» de Primavera

um Dicionário das Expressões Intraduzíveis em todas as línguas

um único Léxico com a única língua universal que não existe

Não sei que fantasias povoam os seus dias ou se costumam inventar corpos de mulheres atrás das grades

Ou que temas vergonhosos e vagabundos têm em casa

Não sei por onde andam perdidos farejando a Gota de felicidade a que todos em geral e cada um em particular tem direito

Não sei o que será deles

Não sei o que será de mim

Mas quero saudá-los com a mais absoluta e certeira e terna e cândida das simpatias

Quero dizer-lhes, irmãos por um minuto da minha vida, quando nos nos iremos encontrar e onde

Para um papo mais demorado?

Em que jardim da Babilónia ou em que banco do Jardim da Estrela?

[ ...]

[ grelha aberta]