<beco-1> - chave ac autobiográfica - estritamente confidencial – inédito ac de 1989 – texto-testamento

VIVER (SÓ)

Este relatório, em estilo tabeliónico, não pretende ser literatura nem pouco mais ou menos: qualquer semelhança com figuras da vida real, não é coincidência, é de propósito.

14/5/1989 - Devo proclamá-lo solenemente, para ver se eu próprio me compenetro do que tenho a fazer, do que devo fazer, sem covardias nem hesitações.

Também é uma questão de amor-próprio e de vergonha na cara, embora não seja apenas isso.

Se for sentenciado pelo respeitável tribunal no sentido de me tirarem a casa onde moro, quero afirmar aqui que terei a coragem (irei tentar ter a coragem) de proceder decente e coerentemente com o teor da sentença, com a circunstância que me for imposta.

Quem muito se abaixa, o cu lhe aparece - e eu tenho , apesar de tudo, a obrigação mínima de não fazer cenas demasiado sujas.

ATÉ VER

Até ver não me suicidarei, em sentido físico, pelos motivos que se podem facilmente deduzir mas, além do mais, porque seria fazer o gosto a muita gente, aos meus muitos e variados inimigos.

Mas também não ficarei aqui, fossando, mais do que já ando, a fingir que ando muito distraído e que gosto muito de andar cá, naquilo a que chamam vida, agora a ter que fazer a escalada do Evereste que seria, aos 56 anos e dois meses, providenciar , na selva deste país, por alugar casa.

Não vou repetir, por exemplo, as tristes cenas de juventude, a mudar de quarto alugado não sei quantas vezes ao ano.

A CONTABILIDADE É SIMPLES

A contabilidade é simples, de contrário eu não saberia fazê-la.

E é de uma simples contabilidade que se trata, entre aquilo a que chamam deveres e aquilo a que chamam direitos, de uma contabilidade que eu tenho de fazer para, conforme o total da soma, tomar a decisão mais correcta e decente.

Se me escorraçam de casa, não vou ficar suplicando , de rastos, à digníssima sociedade que me dê, por amor de Deus, um cantinho onde ficar.

Compreendo agora, melhor do que nunca, a retórica habitual dos chamados deveres e dos chamados direitos com que se enche o discurso da demagogia política e social.

Os direitos, na prática, nunca funcionam e servem só como alibi ou pretexto verbal para se exigirem do paciente todos os deveres.

A RUPTURA IMPÕE-SE

Se me tirarem a casa, a ruptura impõe-se, esta é que é a realidade da qual eu não posso distrair-me e em relação à qual não posso proceder de modo indecente.

A ruptura impõe-se, porque o sistema (o Estado, o Tribunal, a Sociedade, o Senhorio ou lá quem for) vai privar-me de um direito fundamental - habitar - sem que um só dos muitos deveres que me são impostos me seja perdoado, ou deles seja isentado.

A FELIZ METÁFORA

Tenho de me "equilibrar no arame", foi a feliz metáfora que o M.J.H. do C., minha testemunha no caso da casa, usou em longa conversa que tivemos ao telefone, aliás extremamente compreensivo das minhas alegações, eventualmente consideradas histéricas ou exageradas por outras pessoas.

Ele compreendeu boa parte das minhas alegações, compreendeu que tenho de andar para não cair do arame mas não posso andar porque tenho o caminho barrado.

É a metáfora justa.

"Cortam-me as pernas e querem que eu ande" - podia ser outra forma aforística de expressar a situação.

SEM DRAMATISMOS

Portanto e sem dramatismos - por isso falei de uma mera operação de contabilidade, seca e peca - trata-se de utilizar, se me tirarem a casa, o tipo de resposta adequada, uma forma de ruptura com a engrenagem visto que foi a engrenagem, também, a romper comigo: Que diabo, sejamos coerentes.

Devo ou não devo, depois de me tirarem o tapete debaixo dos pés, subtrair-me às imposições que o sistema , como se nada tivesse havido, continuará a impor-me, a exigir de mim, a cumprir horários e a pagar impostos, a votar nas eleições e a dar esmola aos pobrezinhos?

Sem lhes fazer a vontade de me auto-liquidar fisicamente, várias hipóteses, na minha ignorância de vida, posso vislumbrar, ainda que precárias, todas elas, e possivelmente muito mais teóricas do que outra coisa.

SEM SAÍDA

Qualquer das hipóteses de saída, como disse, é problemática, precária, utópica, impossível.

E é problemática porque não aprendi a viver sem vínculos, estive amarrado 56 anos aos vínculos, aos hábitos do consumo, ao emprego, às obrigações, aos deveres, e não sei como irei desaprender e reaprender tudo de novo aos 56 anos.

Fora destas saídas que não são saída, fica sempre, claro, a suprema alternativa , meter-me debaixo de um comboio: mas essa quero ver se a evito, primeiro porque tenho medo, primeiro porque não me sinto com coragem, depois porque não gosto de violências, depois ainda porque não quero fazer a vontade aos meus muitos inimigos, e finalmente porque não quero ser abordado, neste ou no outro mundo, por um juiz do supremo Juízo final, acusando-me de ser estúpido, ingrato, preguiçoso, acusando-me de não ter sido suficientemente persistente na procura de saídas, na procura do tal pequeno buraquinho que luzia e eu não via, no beco escuro e sem saída onde estou , de facto, metido.

"Não há becos sem saída" - diz-me ao telefone o V.M.C., outro meu amigo que foi minha testemunha. Como assim, não há becos sem saída? Onde baseia ele tanta certeza?

"CONTINUAR LUTANDO"

A hipótese de "continuar lutando" é que de todo tenho de eliminar e quero explicar porquê.

Antes de mais, porque essa luta de que me falam, não é a minha luta, como nunca foi a minha luta e muito menos o pode ser agora que, depois do que investi, me acho com direito finalmente a lutar naquilo que sempre sonhei e quis. Claro que vou para a luta, mas essa em que me querem enterrar outra vez, não: porque já esperei demasiados anos , enredado nessa viscosa trampa da "luta pela vida".

Há bastante leviandade, ainda que perdoável, nas palavras dos amigos que, com a melhor das intenções, repetem quase mecanicamente esses conselhos fáceis, demasiado fáceis, que se dão por dar e que, rigorosamente, não ajudam nada porque nada têm a ver com o real da situação concreta: Se for espoliado da casa, o ter que ir arranjar outra iria implicar uma mobilização total de energias para recomeçar de novo, energias que já não tenho e que tenho de distribuir pelas exigências diárias que me continuam sendo impostas como se estivesse na flor dos vinte.

É aqui que o aspecto da decência surge, antes que surja a demência.

Porque é para mim impensável (e humilhante) voltar às hipóteses que estão bem para um estudante do liceu, estiveram bem para um início de carreira e de profissão, mas que são vergonhosas para um velho de 56 anos!

Não me estou vendo, não me quero estar vendo em quartos de aluguer o resto da vida, eu que andei por dezenas de quartos alugados.

Para lá de me faltarem forças para refazer de novo todo esse itinerário de calvário, acho que o mínimo da tal dignidade tem que ser respeitado.

É impensável, por exemplo, que me chamassem agora para cumprir o dever patriótico do serviço militar. Teria de matar e matar-me.

Também não estou a ver-me agora, aos 56 anos, à procura de casa (estúdio, apartamento, o que for) que me irá custar mais de metade do que ganho no jornal, obrigação que já , mesmo assim, me pesa por si só e que apenas aturaria enquanto esta casa me permitisse o termo de equilíbrio para continuar fossando, enquanto o direito à reforma, essa aldrabice, ainda é cedo para mo concederam.

REFÚGIO NA RULOTE

A hipótese de refúgio na rulote, por seu turno, para ser ruptura radical com o sistema, só com o vínculo único da reforma, o que, como acabo de dizer, parece estar adiado para as calendas gregas.

Para habitar a rulote será necessário cobri-la, pois de contrário suicido-me aparecendo morto gelado lá dentro, uma manhã qualquer.

Mas só é possível cobri-la, como "residência fixa, em parques que o admitem como o da Praia Grande, longíssimo de Lisboa e portanto do emprego, com o qual seria inconciliável residir na ...Praia Grande.

Quer dizer: se não me dão a reforma, como posso eu ir habitar na Praia das Maçãs?

UM TANTO PALERMA

Este diário exaustivo e um tanto palerma do meu caso pode parecer (e é) petulante, além de inócuo.

Faço-o porque o vício de escrever será o último que perderei, faço-o porque quero apresentar a minha defesa quando o juiz do Supremo me julgar por suicídio , mas faço-o também com ilusões de ser útil à comunidade...( outro vício que só perderei na cova).

Terá este diário em escrita de tabelião alguma legitimidade, se se pensar que estou apenas a testar uma experiência, uma vivência e uma situação, que vai ser cada vez mais frequente, à medida que o apocalipse se aproximar, à medida que a corrida infernal para metas infernais tornar fisica e fisiologicamente mais insuportável a vida dos "corredores", involuntários, ou seja, a vida de nós outros que não somos heróis, que não somos yuppis, que não somos vencedores natos, que não fomos , de facto, feitos para semelhantes correrias, porque ficámos talhados no bio-ritmo antigo.

A história da cenoura à frente do nariz, que faz de nós burros, está a repetir-se, de forma algo grotesca (outra vez a questão da dignidade) e é isso que tem a ver com o (nosso) amor próprio mínimo de cada um, cada vez mais ferido e abandalhado.

Tirando-me a casa, querem que me abandalhe ainda mais do que já estou - e estou nos limites.

OBJECTOS-ABJECTOS

É sabido que sempre fizeram de nós objectos-abjectos, que sempre fizeram de nós parvos, que sempre fizeram de nós burros (de carga). Mas agora junta-se a tudo isso, a exigência de sermos: também galos de corrida , quando até e como cães, fizeram de nós vulgares rafeiros de Lineu.

Além dos limites morais (os da decência), porém, há os limites fisiológicos - o famigerado stress, em que se fala por falar, talvez para se banalizar o crime diário da fadiga pelo trabalho, e do qual vamos suportando todas as sequelas.

DESVIVENDO

Curiosamente, este complicado esquema de simplificação, de que aqui estou a tentar esboçar as linhas mestras, é de um homem que quer viver, que quer (ainda, aos 56 anos) aprender a viver, de um homem que acusam de monomaníaco do suicídio mas que tem levado a vida a pregar a esperança.

Afirmar que quero viver , no entanto, não significa que quero viver a qualquer preço, ou seja, desvivendo, alienado cada vez mais no sistema de morte.

Afirmar que quero viver significa também dizer que quero safar-me dessa engrenagem de morte e alienação .

A SOLIDÃO ESTUPIDIFICA?

Leio em Virgílio Ferreira (cabeça que pensa em quase tudo como a minha) uma observação que não compreendo: a solidão estupidifica. Concordo e discordo: sem dúvida, as relações humanas são a respiração normal da alma. E como eu gosto de conviver, e como eu gosto de comunicar, de falar, de conversar, de abraçar, de beijar outra pessoa.

Mas precisamente o que não há, neste sistema infernal de corridas para metas de merda, é "relações humanas".

Afinal, para o mais convivente e fraternal dos seres que eu sou, porque surge a hipótese de fuga, de mergulho na clandestinidade, de isolamento total e completo? Quem dá os dados neste jogo?

O SALTO NO VAZIO

Se quero sair, se quero dar o salto no vazio, é apenas porque o sistema, com a sua brutalidade, o exige, empurrando, escorraçando - e a verdade é que não fazem outra coisa comigo desde que me conheço. Irra, se estou a mais porque pura e simplesmente não há, em todo o perfeito sistema, um mecanismo que pura e simplesmente me corte o pescoço?

O sistema é que me empurra, é que nos empurra - mesmo os mais fraternos - para a solidão. De contrário, teremos que ficar amarrados às obrigações torpes do "struggle" que o sistema impõe: pagar impostos, pagar taxas, pagar electricidade, pagar telefones, pagar televisão, pagar , pagar, pagar , todos os benefícios de viver em comunidade.

A pagar se resumem os deveres, para que eu possa ter direito aos famigerados direitos em que me falam.

É esta contabilidade que serei forçado, neste momento de crise e de ruptura, a fazer, e a perceber se estou ou não a ser endrominado. Acho , sem dramatismos, que uma reaprendizagem da vida exige, além desta contabilidade primária, saber (mos) até que ponto podemos dispensar tantos e tantos favores, tantos e tantos vínculos -, tantos e tantos benefícios.

Distinguir entre o essencial e o acessório - é a reaprendizagem a fazer, sempre o pressenti e sempre foi a minha intuição.

Os consumos viciam-nos: como desviciar-nos dos consumos?

Como viver, decentemente e simplesmente, sem depender escandalosamente da esposa , (para me coser as meias), da filha (para me dar um beijo de manhã) , de restaurantes (para comer a sopa), da companhia dos telefones, EDP, supermercado, lavandaria,

*

É o momento de traçar a bibliografia básica e simples:

*

Viver só é uma opção muito mais dificultada do que qualquer destas, prevê cortes mais radicais e com maior número de vínculos.

Num convento ou mosteiro, há uma comunidade apesar de tudo.

E não é de viver em comunidade que eu falo. "Viver na clandestinidade" é viver só.

Como seria o homem das cavernas, oh engenheiros civilizados do meu tempo!