1-3 < 91-05-20-fa-fi> forum dos aflitos – ficções inventadas - quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2003 - 8758 caracteres <analfabet> <vozes> <ficcoes>

 

FORUM DOS AFLITOS

CARTA DE UMA ANALFABETO

( HUMILHADO E OFENDIDO)

AO SEU PROFESSOR DE INSTRUÇÃO PRIMÁRIA

20/5/1991

Sou analfabeto desde que aprendi a ler, senhor professor, e desde aí não têm cessado os meus infortúnios. Pulei, saltei, acelerei, chicoteei o cavalo do estudo até desoras da noite, apliquei-me, sequei pestanas, catrastudei para exames, provas, testes, testes psicotécnicos, PGA de primeira e segunda instância, prova específica, claro, mas tudo em vão.

Foi sempre preciso aprender (ler) mais, para poder ser alfabeto e portanto decente, nisto e naquilo, desde o direito a votar e ter uma urna, ao direito de emigrar legalmente ou de mandar os governantes à realíssima puta que os pariu.

A cada novo diploma que conquistei, faltava-me sempre um novo diploma para conquistar. A cada nova tecnologia que me impunha, na escola de 1ª, depois na escola de 2ª instância e posteriormente nas escolas de N instâncias, fizeram-me sempre sentir analfabeto, humilhado e ofendido, analfabeto de muitas coisas, cada vez de mais coisas e, como tal, cada vez mais culpado, humilhado e ofendido. Que remorsos, meu Deus! Que ruína! Que escabroso espectáculo! Que palhaçada e que facécia!

Quanto mais aprendia a ler, mais analfabeto ficava. Quanto mais lia, mais analfabeto me sentia! Até porque a consciência de saber que nada sabia -- espécie de categoria lógica universal na cultura greco-latina -- me fazia sofrer e interiorizar, como um fardo de chumbo, essa inferioridade. Quase pensei arranjar, mediante pagamento da consulta, arranjar no psiquiatra um «complexo de inferioridade». Foi por pouco.

De classe em classe, hoje sou acusado de pertencer à média alta e quando pular para a média alta -- segundo os sociólogos mais iminentes que estudaram o fenómeno -- já ambicionarei pertencer à de luxo, a dos cracks, a dos imperadores da ciência, a dos semiólogos, universitários, estruturalistas, mais papistas que o Papa.

Acabo de ler, vertendo bagas de suor pela testa abaixo, um livro de 100 páginas, mas ficaram 100 mil de dez mil páginas de 1000 biliões de linhas de 10 elevado a 20 de triliões de letras, por ler. Sou analfabeto de todos os livros que se escreveram e que nunca poderei ler. Eles, os cultos, os eruditos, os professores, senhor, são isso tudo exactamente para não serem acusados de analfabetos, sindroma mais vergonhoso do que a sida e que faz maiores estragos.

Um arrepio percorre-me a espinha, perdão, a «coluna vertebral» como diria uma pessoa culta. Não porque o preço do livro seja caro, nem por isso, nem porque me falte o tempo, afinal disponho da eternidade, segundo li num livro já não me lembro qual, nem porque a sinergia da asneira seja menos forte do que a asneira da sinergia -- mas porque o deserto avança à minha frente e atrás de mim -- como a minha sombra circular, quanto mais, suado e de língua de fora, caminho no deserto, com o coração já cansado de tanta ambição.

As classes sociais baseiam-se numa diferenciação de diferentes níveis de alfabetização. O emprego do meu desemprego é também o emprego do tempo e os cronófagos que me chupam o tempo, chupam-me também a alma. Não tenho direito a possuir a minha alma, enquanto não puder e souber ler nas línguas todas rentáveis e prósperas do Mundo.

Ainda que chegasse a ser letrado em Português, ficaria iletrado das línguas em que é lícito negociar tudo o que é hoje importante negociar. A vida foge-me, já pensei investir na minha própria e próxima reincarnação, a ver se consigo, matando-me e voltando a nascer, aparecer em uma classe mais avançada, mais adiantada, mais alfabetizada.

É uma maneira de superar as naturais carências que em uma só vida de humilhações e sofrimentos nunca poderei superar. Eu quero ler não só todos os livros da Gradiva, mas todos os livros de Ciência, todos os prémios Nobeis e pulitzer da ciência, todos os prémios estaline e lenine de biologia, todos os prémios gulbenkian de ciências matemáticas e de ciências humanas.

O AEIOU continua a ser uma ferramenta fundamental de promoção social, uma muleta para quantos, desprovidos de talentos reconhecíveis, querem singrar na vida e não ficar na maldita cepa torta. Eu sinto que estou há muito, muito tempo -- não sei quantas eternidades -- na cepa torta, mas que merda é esta? É como se nunca tivesse chegado ao meu continente africano a redentora Cruz de Cristo, metida a ferros pela espada dos portugueses. Eu não posso continuar a sentir-me africano, senhor professor: quero conquistar a minha carta de alforria e o direito de nascer civilizado, branco, alfabetizado.

Só posso insultar o Establishmet em português, inglês (macarrónico) e francês, o que é uma limitação insustentável. Mas quando os serviços e direcções gerais da Alfabetização me colocarem na estatística do grupo etário escolhido, do grupo-amostra, já só estarei descalço de um pé e não dos dois, louvado seja deus, senhor professor. Não farei a figura triste que faço agora, a coxear do esquerdo quando assento o direito, a coxear do direito quando assento o esquerdo!

E como a esferográfica (ela também mais analfabeta que um burro!) corre, pressurosa, sobre este papel analfabético. Se conseguir não sucumbir às exigências do mercado único, onde só terão lugar os mais preparados, o meu olhinho lúbrico de analfabeto incurável, catando pulgas no sovaco, abençoando os 135 pavilhões dourados da Feira do Livro, há-de redimir-me de tamanha baixeza.

Adoro semióticos ao pequeno almoço. Como estruturalistas ao almoço. Vomito novas tecnologias ao jantar, que mais posso eu dizer, que mais posso eu fazer, senhor professor, para merecer a confiança dos meus superiores hierárquicos, que continuam a tratar-me como se o anátema de analfabeto estivesse gravado na minha testa como uma tatuagem?

Não quero, senhor professor, acima de tudo não quero ser um número dessas arrepiantes estatísticas que colocam o meu país no cu da Europa, na periferia dos países avançados, fóra a mortalidade infantil, dado que também ela, a mortalidade, anda muito associada ao baixo nível cultural -- como dizem os sociólogos de alto nível intelectual -- e ao baixo, baixíssimo rendimento «per capita» que igualmente me envergonha no contexto das nações civilizadas, na grelha de partida para as metas de merda!

Mas a merda, segundo Umberto Ecco, e como foi reafirmado por Barthes, também me saiu uma grandessíssima analfabeta. O iletrismo funcional, então, leva-nos a uma situação sóciocultural e mesmo sócioeconómica insustentável.

Como posso, Mafalda das artes e das letras, balão de uma voz da banda desenhada, cabecinha tonta em História e Geografia e Linguística, chegar onde os azes -- que não fazem outra coisa as 48 horas do dia -- já chegaram, fortes, limpos, frescos que nem uma alface. A mim, a cultura deixou-me assim, esquelético e cada vez mais analfabeto.

Se eu tivesse tido, senhor professor, na minha recuada infância, livros de Spitzer em vez de papas de aveia -- quando havia aveia no armário da minha mãe -- quem sabe se hoje não seria outro homem e se não teria outras perspectivas de vida e de salário e outras expectativas trazidas, como um vento de progresso, pela Perestroika do Mercado Único!

Assim, humilhado e ofendido, ficando onde fiquei, sou implacavelmente apanhado pela estatística que me dá como incluído entre os 45% que só lê 5 livros por mês e 20 por ano. Como é possível tamanha baixeza, se só em semanários sou obrigado a ler o equivalente de 300 livros por semana e 3000 (+ ou -) ao ano!. A injustiça social das sondagens continua. A estatística como ciência do fantástico não atingiu ainda o requinte poético da ciência biológica. Como se pode aninhar em tão duros peitos de portugueses (a vergonhosa camada dos 45%) o gládio da glória empunhada por exércitos de Eurocratas assolando as Índias Orientais que são hoje a Europa, segundo os investigadores da «Nouvelle Histoire», se a virmos no Mapa Mundi e considerarmos os EUA não só umbigo mas o resto do Mundo.

Misericórdia, senhor professor. Prometo comer a papa toda e estudar até transmutar num homem oficialmente alfabetizado.

Prometo escrever 100 vezes no meu caderno diário de capa azul a palavra Canalha com dois ll e um C de cão.

Prometo não assobiar quando passar a procissão de Nossa Senhora a Santa Ciência da Nossa Perene Adoração.

Culto da Virgem?

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O jornal «A Capital» publicava a seguinte notícia:

A racionalidade económica que exige a alfabetização das massas e um maior nível cultural, como referiu Lurdes [---], no colóquio da Feira do Livro, é ainda ciência.

Analfabetismo não significa incultura, graças a Deus, disse um outro interveniente, os analfabetos podem viver a cultura da sua própria comunidade...§