1-3<alter-2> = cartas ao meu alter ego – inédito ac de 1988 – os guardas do gulag – chave autobiográfica ac – texto 5 estrelas

CONSELHOS AO JOVEM ESCRITOR

QUE QUER SINGRAR NA VIDA

2/2/1988 - Nunca deves publicar, em pleno salazarismo, porque dá azar, um folheto intitulado "O Realejo do Neo-Realismo", pois ficarás marcado sem remissão e nunca mais serás ninguém. O neo-realismo à portuguesa, que é o salazarismo na ordem literária, perseguir-te-á até ao fim da vida, mesmo depois ou principalmente depois do 25 de Abril;

Nunca deves exercer com independência a actividade de crítico literário: se queres ser escritor, deves aproveitar a tribuna de crítico, se a tiveres, para incensar os catedráticos, fricativos, semiólogos que irão estar, estão e já estavam nos júris de todos os prémios a que tu concorras e nos conselhos de leitura de todos os editores a que resolvas enviar os teus livros;

Nunca deves adoptar a atitude desinteresseira do poeta lírico ao qual basta o espírito e o dinheiro é secundário: virás a saber que eles tomarão à letra esse imperativo categórico, pelo que irás ser chulado toda a vida, visto que líricos puros não existem e a literatura é o caminho mais curto para a fortuna através do best-seller;

Deverás, por outro lado, inscrever-te, desde logo, em qualquer um dos clubes de emprego que são os partidos políticos (especialmente os de cariz totalitário, mas nem só) e a Maçonaria, a Opus Dei, a CIA, o KGB;

Deverás dizer sempre bem dos teus superiores hierárquicos em todas as ordens hierárquicas da sociedade, nunca chamar besta a qualquer dos génios da nossa praça e, acima de tudo, deverás ser respeitador das pessoas mais influentes da praça literária, das que há décadas, como verdadeiras dinastias, dominaram totalmente o processo de conquista da fama e da glória, distribuem as rações de talento a quem lhes apetece (via críticos semióticos) e decretam in extremis, urbi et orbi, quem é e quem não é escritor, quem vale e quem não vale, quem publica e quem não publica;

Deverás temer, portanto, a Deus e ser respeitador de patrões tão poderosos como: Eduardo Prado Coelho, Assis Pacheco, Óscar Lopes, Gastão Cruz (em certa fase, depois alguém lhe afinfou um piparote que o pós knock out), E.M. de Melo e Castro, etc;

Deverás também escrever pouco em jornais, feitos em papel de jornal, nomeadamente artigos de grande público que toda a gente entende ou, de preferência, publicarás um poema ou um conto, lá quando o rei faz anos: mostrar que tens ideias além do normal e do consentido, vai trazer-te, de certeza, amargos de boca, pois ter ideias e ainda por cima ideias próprias, é o mais incómodo que pode haver e lá estarão os patrões da cultura portuguesa a vigiar, para que sejam eles os únicos a ter ideias, quanto baste, importadas de Paris; politicamente, o ódio às ideias vem das organizações a quem a crítica livre e independente mais incomoda;

Se algum partido te quiser instrumentalizar, deves fingir que não notas e deves deixar-te usar: a "municipalização da cultura" (Gomes de Pinho) gosta muito de ter artistas e escritores por conta, amantes a quem paga uma renda vitalícia, para os ter certos nos períodos pré-eleitorais: a democracia do 25 de Abril, como sabes, apenas veio substituir Salazar, único ditador do País, por vários ditadores que são hoje os caciques locais, democraticamente eleitos porque não há outros nem outro remédio;

Nunca deverás fazer derivar o teu pensamento para os grandes oceanos ou vagas de fundo que são os movimentos socio-culturais: uma das coisas que mais prejudicou a promissora carreira de um certo senhor que foi crítico d ' A Planície , foi, a certa altura, ter-se apercebido de que a grande corrente da História iria inflectir, dentro de alguns anos (poucos instantes) , para caminhos que na altura ninguém imaginava ou sequer admitia : e de que esses detectores à distância do futuro - os movimentos sociais - eram os únicos que impediam a corrente histórica de estagnar e perecer no completo apodrecimento;

Nunca deverás, em suma, ser precursor, porque isso tramará irremediavelmente a tua carreira, por dois lados:

Nunca deverás, também, inserir-te em campanhas cívicas que defendam qualquer tipo de direitos do escritor jovem: nada irrita mais os gangsters da crítica literária, dos júris literários, das editoras literárias, das cátedras literárias do que saber dessas campanhas que falam em direitos do homem, pois, de facto, o direito evoca sempre o gangsterismo dos que se encontram fora de qualquer lei, qualquer direito e cuja única norma é o cacete, o cacetete, a foice, o martelo e a moca;

Nunca deverás produzir poemas que todos entendem: a indecifrabilidade da tua cifra é condição sine qua non do teu génio e do teu êxito;

Nunca deverás desistir de sócio da Associação Portuguesa de Escritores, mesmo que aquilo te pareça uma sucursal do Partido Comunista Português.

Escritores, em Portugal, ou pertencem à célula, ou nunca devem manifestar qualquer tipo de hostilidade contra a ordem e a neurose estalinista (ver o que já disse sobre neo-realismo e o perigo de um escritor cair em desgraça total se não alinhar. Parte dessa crónica é contada por Virgílio Ferreira, no seu diário, mas está longe de narrar todo o inenarrável da ordem mental estalinista a que a literatura portuguesa continua sujeita);

Nunca deverás proclamar-te um homem livre, um escritor independente: terás contra ti a matilha de escritores dependentes, de lacaios do poder, perigosa matilha que pode dar cabo das canelas a um homem para toda a vida;

Deverás confessar, discreta ou abertamente, que o salazarismo prejudicou a tua vida, se é que não esteve a pique de te mandar para as masmorras do Estado: aliás, se não tiveres na tua biografia pelo menos uma prisão por motivos políticos, não irás muito longe como escritor, além de seres toda a vida suspeito, mesmo que venha a Perestroika;

Também não deves colaborar no "Diário do Alentejo" , anos a fio, sem remuneração, com temas literários e radicais, pois isso cria toxico-dependência: um dia haverá, quando chegarem outros senhores ao "Diário do Alentejo", em que nem a amizade e a fidelidade de um homem íntegro como o José Moedas, evitará que te agradeçam os serviços prestados com um grande pontapé no cu. A municipalização da cultura caracteriza-se pelo pontapé no cu e pelo sapo vivo metido pela boca abaixo do jornalista, sob o pretexto da chamada ''conferência de Imprensa";

Se és inventivo e do tipo Aquário, com a mania de delinear estratégias de acção conviviais e de equipa, não tornes nunca público nem apresentes a organismos oficiais o texto de projectos que tu julgues interessantes, pois mal tu voltares costas, eles saltam-te para dentro do Aquário, instalam-se lá e dizem que é deles;

Terás além disso, outros dois desgostos: um, é não receber resposta dos digníssimos responsáveis, além do silêncio, regra geral malcriado; o outro desgosto é, mais tarde, bastante mais tarde, veres esse mesmo projecto nas mãos de um tecnocrata militante que o apresenta ao Fundo Social Europeu , que evidentemente o irá financiar com lautos ECUS da CEE;♥♠