GRAVURAS DE INCUNÁBULOS

EM PINTURA PORTUGUESA

MANUELINO-JOANINA

* texto publicado em Uma Vida em História. Estudos em Homenagem a António Borges Coelho, Lisboa, Caminho, 2001, pp. 287-314

 

Manuel Batoréo

Faculdade de  Letras da Universidade de Lisboa

 

A utilização de gravuras como fonte gráfica e iconográfica na pintura retabular dos séculos XV e XVI, sobretudo nas obras executadas em oficinas do Norte da Europa, tem sido atestada por diferentes historiadores da Arte europeus, embora não exista, que seja do nosso conhecimento, qualquer obra siste­mática que se tenha debruçado especificamente sobre o tema.

Em Portugal, deve destacar-se o trabalho pioneiro de Dagoberto Markl[i] e, mais recentemente, de Vítor Serrão[ii], não devendo esquecer-se referências dispersas de outros autores e de nós próprios[iii], embora apresentadas sem a preocupação de estabelecer um elenco de relações de proximidade com as pinturas, como fizeram os autores referenciados em primeiro lugar. Nós próprios, em 1988, esboçámos uma tentativa de elenco de pinturas e gravuras com elas relacionadas, trabalho que permanece inédito, embora já amavelmente referenciado pelo Prof. Vítor Serrão. Não podemos deixar de referir que, de todo o acervo documental até agora recolhido, apenas podemos ilustrar um escassíssimo número de exemplos, por motivo de economia de espaço.

A nossa intenção, aqui, é relacionar algumas gravuras de incunábulos do século XV com obras da pintura portuguesa, datáveis, grosso modo, do período de 1495 a 1540, isto é, do reinado de D. Manuel e parte do de D. João III, preferindo a produção anterior a uma clara adesão das oficinas portuguesas ao modo de Itália, embora este gosto já seja parcialmente reconhecível em obras produzidas entre as datas mencionadas. Afastamos desta apreciação as chamadas gravuras soltas, as quais serão tema de outro trabalho, mais desenvolvido, ainda em curso.

Como alerta prévio, chamaremos a atenção para o facto de ser importante ter em conta que os temas iconográficos da pintura deste tempo não resultam apenas, nem principalmente, de uma decisão do pintor mas, sobretudo, de quem encomenda e do teólogo que define os temas e cenas a representar. Os documentos de encomenda encontrados em arquivos portugueses estão aí para o com­provar, apesar da sua escassez.

Por outro lado, ainda, as gravuras funcionam, na sua relação com as pin­turas que delas se aproximam, como um instrumento de trabalho, um meio de produção, como bem salientou, num trabalho já com alguns anos, a profª. Marie Thérèse Mandroux-França. Esse meio de produção não implica, todavia, que o pintor siga o modelo na sua integralidade, sendo mesmo frequente uma reinterpretação do seu sentido. Consequentemente, a resultante formal nem sempre é coincidente com a imagem da gravura. Aliás, as gravuras soltas, executa­das isoladamente ou integrando séries, terão servido, muito mais que as gravuras dos incunábulos, como fonte de inspiração iconográfica, e algumas vezes, mes­mo, como fonte estilística, de muitas pinturas. Será o caso, por exemplo, da extensa obra de Albrecht Dürer, ou Martin Schongauer e do Mestre E. S., por exemplo. No que ao primeiro diz respeito sabe-se, pelo testemunho de Johannes Cochlaeus, em 1512, que «os mercadores de Itália, França e Espanha andam a comprar gravuras de Dürer como modelos para os pintores das suas terras»[iv] .

Há, no entanto, outro aspecto a salientar. As gravuras que apresentamos distribuem-se por dois períodos cronologicamente sequenciais, mas com diferenças relevantes entre cada um deles. Se as primeiras, datáveis de meados do século XV, são apenas ilustrações, as segundas têm a preocupação de se aproximarem da pintura.

São obras onde os mestres procuram ir mais além no tratamento estilístico. São obras que permitiram a Adam Bartsch, no século XIX, designar os seus autores por peintre-graveur. E isto não apenas porque muitos dos seus autores são também pintores, mas também porque há uma importante vertente pictural nessas imagens impressas.

Aqui, ao falar apenas em incunábulos, não pretendemos apenas, nem principalmente, aludir às imagens que os ilustram, mas relacionar o sentido geral que os caracteriza, na dupla função texto-imagem, com a generalidade da pintura da época em apreciação.

Escolhemos, aleatoriamente, quatro incunábulos, dois dos quais não se encontram, hoje, em bibliotecas portuguesas, embora não se possam levantar dúvidas acerca da sua anterior existência em mosteiros ou cabidos na época em apreciação, tal a importância que tiveram.

Por um inventário recentemente elaborado, sabemos que chegaram até nós 299 títulos de incunábulos ilustrados num total de títulos que ronda os 2000. Esses 299 títulos ilustrados correspondem a um total de 584 exemplares, na sua maioria obras religiosas, de autores clássicos ou tratados de geometria e astronomia.

Em primeiro lugar, caracterizemos o que são incunábulos. Numa definição quase dicionarista diríamos que incunábulos são os livros considerados como os primeiros cuja execução remonta à introdução da imprensa, por Guttenberg, em meados do século XV.

 

Nesta primeira fase costumam agrupar-se os incunábulos em duas classes distintas: tabelários ou xilográficos e tipográficos. À primeira classe pertencem os incunábulos impressos por meio de pranchas de madeira de uma só peça, esculpidas ou gravadas; à segunda classe pertencem os que são impressos já em caracteres móveis, a princípio em madeira e depois em metal. (GEPB, vol. 13, p. 658.)

 

São quatro os incunábulos a apreciar, escolhidos aleatoriamente, mas representativos da edição impressa no século XV . A Crónica de Nuremberga (Liber Chronicarum), 1497, de Schedel-Wolgemut, e impresso na ofi­cina de Anton Koberger, - de que existem 24 exemplares em bibliotecas portuguesas -, a Biblia Pauperum, de meados do século XV, em edições xilogravadas, guardadas Biblioteca Nacional de Paris e na British Library, e o Speculum Humanae Salvationis, também em xilogravura, em exemplares guardados nessas mesmas Bibliotecas. Não deixaremos de mencionar o quarto incunábulo, o Ars Moriendi, exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa, e o único, entre todos os que se conhecem em várias bibliotecas, que está assinado, por um desconhecido mestre I. D.

Poderíamos incluir outros e, especialmente, a Vita Christi, de Ludolfo da Saxónia, mandado fazer por D. Leonor, em 1495, ao impressor Valentim Fernandes, obra ilustrada com um Calvário atribuído ao mestre E. S., um dos mais importantes gravadores renanos do século XV. Ou outros incunábulos, de doutores da igreja ou de S. Boaventura, por exemplo, ou ainda as inúmeras bíblias, cerca de 40, impressas desde 1471 a 1502. Todavia, pareceu-nos mais adequado limitar a nossa apreciação aos exemplares referidos, não apenas pela riqueza e número das suas ilustrações, mas pela importância que tiveram no tempo.

Reuniram-se, num conjunto que nos parece coerente, os dados que permitiram relacionar as obras, do mesmo modo que era possível encontrar, nas relações políticas e comerciais entre Portugal e o Norte da Europa um caminho bastante provável para que os mestres portugueses conhecessem o que se fazia noutras escolas, sabendo-se também que mestres estrangeiros vieram para Portugal e portugueses estiveram na Flandres.

O historiador da arte Luís Reis Santos afirmou, mesmo, que os «painéis de igreja e de devoção» dos grandes mestres flamengos dos séculos XV e XVI encheram Portugal e as ilhas da Madeira e dos Açores porque «a Casa Real, os conventos, as instituições piedosas e as casas fidalgas de ricos amadores de obras de arte ali fizeram as suas encomendas e aquisições»[v].

O afluxo da pintura dos grandes centros do Norte da Europa deveu-se, sobretudo, às relações políticas e comerciais existentes entre Portugal e aquela região, por força de laços que então se estabeleceram[vi]. Documentos do tempo de D. Manuel I, designadamente cartas de quitação passadas ao seu escudeiro Manuel Fernandes, são testemunho dessa situação, a qual é confirmada por uma extensa relação de produtos exportados da Flandres para Portugal, descrita na obra clássica de A. J. Goris, Étude sur l' économie marchande méridionale entre Flamands et Portugais à Anvers (1488-1562)[vii].

A evidência das influências do Norte da Europa na arte portuguesa foi durante muito tempo escamoteada pela historiografia da arte. No entanto, e contra essa corrente, Adriano de Gusmão, já alertava, nos anos 50, que pode parecer suficiente

 certa conformidade nas produções para haver escola, mas as afinidades e a semelhança de estilo que porventura se encontrem num determinado grupo de obras não chegam para as definir. A não ser que elas se revistam de qualquer coisa de original e inovador, essas relações aproximá-Ias-ão entre si, certamente, mas não lhes darão a autonomia de uma escola, na verdadeira acepção da palavra. Podem até filiá-Ias numa donde derivem; o caso português é bem este. Há algo mais vindo do sentimento que da teoria, que particulariza, especifica e unifica a nossa abundante pintura da primeira metade de quinhentos, sem no entanto, a tornar marcadamente diversa da escola Flamenga, para nós, nessa época, o estilo padrão. [..,] Não fizemos doutrina, quer verbal quer plástica, a que mais importaria no nosso caso. Não tivemos princípios nem máximas disciplinadoras ou inspiradoras criadas por nós próprios, originais, em suma. Assimilámos, sim, um estilo que nos foi grato até muito tarde; e, praticando-o longe dos centros criadores, não nos pudemos esquivar a imprimir à pintura um pouco do nosso temperamento e experiência quotidiana. Era natural que assim sucedesse.[viii]

 

Por outro lado, segundo o Prof. Pina Martins[ix], as contaminações estilísticas detectáveis surgem também na gravura - sobretudo na xilogravura - que surgiu em Portugal utilizando «modelos que eram usados directamente ou copiados, mas revelavam terem sido concebidos por um outros espírito».

LER E ORAR PELA IMAGEM

 

A tipografia havia sido introduzida cerca de 1450 e o papel passa a desem­penhar uma função relevante como suporte, substituindo-se ao pergaminho. É o papel que vai permitir, pelo seu baixo custo e textura, a grande difusão dos textos e das gravuras, então abertas em madeira, com um objecto apropriado que seguia as linhas de um desenho prévio. A imagem (além do texto) encontra aí a sua grande possibilidade de divulgação.

Escreve Lucien Febvre que

nestes tempos em que a religião estava no centro de toda a vida intelectual e espiritual, em que a igreja tinha um lugar tão importante, em que toda a cultura era essencialmente oral, o emprego de um processo gráfico, permitindo multiplicar as imagens piedosas, mostrava-se bem mais necessário que a imprensa. Fazer penetrar por toda a parte as imagens dos santos que não se viam, até então, senão à volta dos capitéis, nos portais, nas paredes e nos vitrais das igrejas, divulgar as suas lendas, permitir a cada um contemplar à vontade, em sua casa, os milagres de Cristo e as cenas da Paixão, fazer reviver os personagens da Bíblia, evocar o problema da morte, mostrar a luta dos anjos e dos demónios à volta da alma do moribundo, foi esse o papel essencial da imagem xilográfica cuja necessidade se fez sentir bem antes e bem mais fortemente que a de reproduzir em numerosos exemplares, só a pedido de uns quantos punhados de doutores e clérigos, textos literários, teológicos ou científicos que tinham ficado até aí manuscritos[x] .

    O interesse popular por essas imagens simples, que vão ficar numa pare­de de casa, é de tal modo relevante que o Mestre de Flémalle não se esquece de representar, na sua Anunciação (Musée Royal de Beaux Arts, de Bruxelas, uma dessas gravuras, colocada sobre a lareira. Trata-se da imagem de um S. Cristó­vão, protector dos viajantes e também da morte súbita, estampa semelhante a tantas outras encontradas em folha solta. Mas, para além do S. Cristóvão, havia também xilografias coloridas de S. Sebastião, que protegia das feridas, de S. Roque, que evitava a peste, ou de Santa Apolónia, que afastava as dores de dentes. Estas imagens, em cores vivas, «exerciam uma grande atracção nas gentes das cidades e dos campos, visitadas por vendedores ambulantes»[xi].

As xilografias tornaram-se mais frequentes quando do aparecimento da tipografia e passaram a surgir, também, nos «livrinhos xilográficos, formados por cadernos, como os livros, correspondendo geralmente ao nosso pequeno in-4.o»[xii] .

A literatura que se encontra mais divulgada nesse tempo dedica-se aos temas mais populares da época: apocalipses figurados, Bíblias dos Pobres, Histórias da Virgem ou, ainda, Espelhos de Redenção, Paixões de Cristo, Vidas dos Santos, Artes de Morrer, etc. Pequenos livros nos quais o texto começava a ter importância ao lado da ilustração, esses livrinhos davam aos pobres clérigos isolados, exemplos para a preparação dos seus sermões e para o estudo da religião. Sobretudo pelo seu preço e pela sua concepção tornavam o livro, pela primeira vez, acessível às classes populares; mesmo aqueles que não sabiam ler podiam compreender o sentido destas sequências de imagens e, aqueles que possuíam alguns rudimentos, [...] seguiam mais facilmente as explicações escritas em língua vulgar[xiii].

 

Muitas dessas obras ilustradas e largamente divulgadas estão também re­presentadas na própria pintura portuguesa do século XVI, como se poderá ver na Anunciação, do Mestre de Santos o Novo (M. N. A. A.), em que a Virgem tem à sua frente um livro de orações aberto, vendo-se numa das páginas a figura gravada de um personagem ajoelhado, que julgamos tratar-se de Moisés perante a sarça ardente..

 

ENCRUZILHADAS DA GRAVURA E DO LIVRO

  O livro só começa a ser impresso em Portugal em 1487, a partir de uma oficina tipográfica de judeus, em Faro, de onde sai o Pentateuco.

A primeira obra em português é o Tratado de Confissom, de 1480, havendo trabalhos pouco posteriores, de outros impressores, como do alemão Gherlinc, a quem se deve o Breviarium Bracarensis ou como, em 1495, Valentim Fernandes e Nicolau da Saxónia, que imprimiram a Vita Christi, por encomenda da rainha D. Leonor. É também da oficina de Valentim Fernandes que sai a primeira obra laica impressa em Portugal, a História de Vespasiano, de 1496.

Não há notícia da impressão, em Portugal, quer do Liber Chronicarum, de Schedel- Wolgemut, quer da Biblia Pauperum. Todavia, da primeira destas obras existem vários exemplares em bibliotecas portugueses. Quanto à Biblia Pauperum não encontrámos rasto de nenhuma das várias edições que, seguramente, terão chegado até nós. A inexistência, em bibliotecas portuguesas, de exemplares da Biblia Pauperum não é, por si só, motivo para afastar a sua influência junto dos nossos pintores, à semelhança do que sucedia com mestres flamengos, nomeadamente Roger van der Weyden, como informa Émile Mâle.

As obras em estudo terão chegado até nós através das inúmeras feiras, que então se realizavam na Europa. Um caso exemplar foi-nos gentilmente comunicado, oralmente, pelo prof. Pina Martins, a propósito deste tipo de comércio. Um bloco para xilogravura, encontrado em Évora por aquele Professor, mostrava­-se muito gasto pelo uso o que indicia a sua venda a qualquer mercador portu­guês, numa das múltiplas feiras do tempo, onde havia bancas próprias para a venda desses blocos já usados. A venda e difusão dos livros e das gravuras nas feiras é atestada por Lucien Febvre: 

Os privilégios concedidos aos mercadores que vão às feiras facilitam os transportes, do mesmo modo que os cambistas que lá se encontram tornam as transacções mais simples e o afluxo da população favorece as vendas. De tal modo que as grandes feiras se tornam ponto de encontro de livreiros e impressores.[xiv]

 

Esses livreiros e impressores reuniam-se em tais ocasiões «não só para fa­zerem contas das suas trocas, mas também para anunciarem a publicação de um novo livro e garantirem que nenhum outro editor o fosse imprimir e, ainda, fixarem com os livreiros de outras cidade as bases de trocas regulares»[xv]. Nesta perspectiva, foram particularmente importantes as feiras de Lyon, Leipzig, Frankfurt e, sobretudo para os portugueses, a de Medina del Campo.

Os vários autores que trataram das formas como o livro se expandiu não deixam de referir, para além das feiras, a importância das encomendas feitas pelas classes dirigentes, laicas e religiosas, as quais se interessaram, sobretudo, pelos livros iluminados em que estavam presentes sobretudo cenas bíblicas e moralizantes, já divulgadas pelas obras xilográficos. Émile Mâle descreve, nomeadamente, a presença de imagens das velhas xilografias nas Trés Riches Heures, do Duc de Berry. Idêntica inspiração surge, ainda, no Livro de Horas de D. Manuel, neste por eventual “contaminação” do Livro de Horas de Turim-Milão, no qual teriam colaborado os irmãos van Eyck, conhecedores de obras como a Biblia Pauperum ou o Speculum Humanae Salvationis, onde se encontram muitas semelhanças com a primeira.

Portugal não deixava de integrar-se no comércio europeu do livro, a julgar pelo número de livreiros existentes no século XVI, número esse que é sempre muito superior ao de impressores[xvi]. De facto, no Sumario em que breuemente se contem alguas causas que ha na cidade de Lisboa[xvii], de 1551, Cristóvão Rodrigues de Oliveira indica existirem 54 livreiros e apenas cinco impressores, actividade esta de recente introdução, como é natural, e cujo regulamento ainda não se inclui no Regimento dos Oficiais Mecânicos, de 1572[xviii]. Um aumento progressivo do número de livreiros, e também de impressores, indicará que, a partir da «segunda metade do século XVI, o livro deixara de ser um produto só acessível aos clérigos e aos ricos amadores, mas ainda não um produto de baixo preço» pois obras como o Reportório dos Tempos ficavam pelo preço de um par de sapatos[xix].

O movimento de expansão do mercado livreiro em Portugal não dependerá, apenas, da instalação dos impressores, nomeadamente em relação aos incunábulos que estudamos, todos eles anteriores ao século XVI. As relações entre o país e a Flandres (Bruges e Antuérpia) e a presença de mercadores portugueses nas feiras europeias, nomeadamente Lyon e Medina deI Campo, são factores que terão contribuído para a penetração em Portugal de múltiplos incunábulos; outro, eventualmente mais importante, relacionar-se-á com a acção das ordens religiosas, não só dos franciscanos e dominicanos mas também dos jerónimos, instalados em Portugal desde 1400 e cujos conventos dispunham de livrarias bem recheadas.

 

A BIBLIA PAUPERUM UM AUXILIAR PARA OS “POVRES CLERCS

 

A Biblia Pauperum é, entre os incunábulos ilustrados de meados do século XV, aquele que mais edições teve, variando a língua em que o texto era escrito (latim, alemão, francês, inglês) e variando, também, a qualidade do desenho. Das edições que apreciámos uma é alemã e das mais antigas. O exemplar existente na Biblioteca Nacional de França é colorido, mas de menor expressividade plástica.

Preferimos utilizar o fac-simile do exemplar da British Library, pela sua melhor qualidade e até porque exemplar igual serviu de base aos estudos de Émile Mâle[xx].

O incunábulo recebeu o nome de Bíblia dos Pobres porque «oferecia um resumo da Bíblia a bom preço, não aos laicos, que não sabiam ler, mas aos "povres clercs" que não podiam oferecer-se ao luxo de uma Bíblia completa»[xxi]. Trata-se de «uma compilação teológica, inicialmente não ilustrada, que se julga ter sido redigida no Norte da França, em meados do século XI»[xxii]  e cujas edições eram, naturalmente, manuscritas, como a mais antiga que se conhece, datada de 1300 e proveniente do Mosteiro de S. Floriano, na Áustria.

Só no século XV a Biblia Pauperum se tornou popular graças, «às gravuras de madeira, muitas vezes coloridas, com que se entretiveram a ilustrá-la. Cada cena do Novo Testamento está enquadrada por duas prefigurações»[xxiii]. O artista conta a vida de Cristo «à maneira do século XIII, quer dizer desenvolvendo longamente a Infância e a Paixão e suprimindo, ou quase, toda a vida pública.»[xxiv].

Todas as edições xilografadas, progressivamente melhor elaboradas, mantiveram sempre a preocupação das concordâncias entre o Novo e o Antigo Testamento incluindo «um texto muito curto a explicar cada uma das cenas do Antigo Testamento; mas é evidente que, aqui, o texto tem pouca importância e que semelhante livro foi feito, sobretudo, para falar aos olhos»[xxv].

A Biblia Pauperum, tal como o Speculum Humanae Salvationis, foi uma das principais fontes da arte flamenga desde o século XV [xxvi] e a respectiva temática surge, em primeiro lugar, e com maior evidência, nas tapeçarias da catedral de Reims e em Chalons-sur-Saone, ou na escultura religiosa do tempo.

A utilização dos dois incunábulos atrás referidos é, ainda segundo Émile Mâle, a prova de que tanto os executantes como os encomendadores 

tinham adoptado, uma vez por todas, os indigentes manuais, para não terem o trabalho de recorrer às fontes. l...J Todas estas obras figurativas seriam, portanto, extremamente frias se não tivessem sido vivificadas pela encantadora imaginação dos artistas e pelo seu amor à natureza[xxvii]

 

O  LIBER CHRONICARUM  PARA A BURGUESIA RICA

  O Liber Chronicarum, designado correntemente por Crónica de Nuremberga, data de 1493 e é um dos mais volumosos incunábulos da época. Os seus 305 fólios, são impressos na frente e no verso, e exigiram a execução de duas mil madeiras para o ilustrarem.

A importância e influência que o incunábulo teve na época, enquanto obra erudita destinada à burguesia rica, é apreciada por Lucien Febvre[xxviii], embora prefiramos, com vista ao seu enquadramento na influência na obra de pintura, referir em mais pormenor as informações de Erwin Panofsky.

Escreve o grande historiador de arte que

o homem que rompeu o fechado couto dos ilustradores profissionais, reclamando para os pintores a arte de desenhar xilografias, foi Wolgemut que, associando-se a um afilhado e com o apoio de dois financiadores, contratou os serviços de um impressor, que não era outro senão Anton Koberger, o padrinho de Dürer. Na sequência destes encontros surgiram duas publicações justamente famosas, o Schatzbehalter, em 1491, e a Crónica de Nuremberga, de Hartman Schedel, em 1493, obras nas quais a magnitude do empenho, a importância relativa das ilustrações, em comparação com o texto e o carácter da gravuras em si, apresentam novidades radicais. Não só as xilogravuras superaram tudo o que antes havia, tanto em número como em tamanho - a Crónica contém nada menos que 645 gravuras diferentes, algumas de cerca de 25 por 38 centímetros - mas também abriram um horizonte novo às possibilidades expressivas e representacionais do meio. Algumas destas xilografias, por exemplo, as cenas do «Genesis» ou a «Dança da Morte» atingem verdadeira monumentalidade. Não obstante, o seu estilo, apesar de diferenças de qualidade apreciáveis, é sempre decididamente «pictórico».  

[...] Em comparação (com as gravuras italianas) as da Crónica de Wolgemut parecem falhas de disciplina e de gosto; mas, precisamente por isso, são mais ricas em força e potencialidades. Os livros italianos são ilustrados por profissionais especializados; a Crónica de Nuremberga e o Schatzbehalter são a aventura de artistas acostumados a expressarem-se dentro daquilo a que se chama uma «arte maior». Ao embarcarem nessa aventura, Wolgemut e Pleydenworft alargaram incomensuravelmente, ainda que talvez indevidamente, o alcance e ambições do que até então vinha sendo um meio artístico de segundo ordem, e com isso aplanaram o caminho para Dürer e Holbein. É verdade que estes dois mestres teriam que disciplinar o estilo, excessivamente pictórico das xilografias de Wolgemut, e Holbein procurou, inclusivamente, temperar a maneira alemã com a transparência dos franceses e italianos. Mas, para podar é preciso uma árvore e essa árvore estava a crescer no pomar de Wolgemut enquanto Dürer fazia a sua aprendizagem.

Ainda que o Schatzbehalter e a Crónica de Nuremberga não tivessem aparecido antes de 1491 e 1493, respectivamente, sabemos que a sua preparação, pelo menos a da Crónica, ia avançada muito antes de assinado o contrato definitivo (29 de Dezembro de 1491). Nesse documento alude-se a gravuras já cortadas [...] e as negociações entre os dois pintores e os capitalistas haviam começado à volta de 1487/88. Várias xilografias da Crónica parecem, de facto, as do Schatzbehalter. A Crónica viu a luz mais tarde, só porque contém um número de ilustrações muito maior.

É, até possível, e penso que não improvável que tenha sido permitido ao jovem Dürer uma modesta participação nos trabalhos da Crónica.[xxix]

 Julgamos que, para além das referências de Panofsky ao carácter pictural das gravuras da Crónica, o facto de se admitir a eventual participação de Dürer na execução da obra é elemento relevante no que diz respeito à influência da gravura - ou a sua utilização como fonte inspiradora - na pintura portuguesa. As obras de Dürer que vieram para Portugal atingiram um número considerável e, embora esse facto não se integre nos limites que impusemos ao nosso tema, parece-nos importante retê-lo.

DOS TEXTOS À IMAGEM

  A arte portuguesa do século XV e das três primeiras décadas do século XVI é, como a outra arte europeia, o reflexo do pensamento do tempo. Essa arte «não conhece outros acontecimentos senão as especulações dos teólogos e os sonhos dos místicos», embora, a partir dos séculos XIV e XV, se tenha apresentado aos artistas numa perspectiva mais adequada a tocá-los, saindo do seu berço italiano, tanto para França como para o Norte da Europa.[xxx]

O cristianismo dos franciscanos expandiu-se não só através da pregação, mas também pelas obras escritas e, conforme afirma Émile Mâle, «nesta época não há obra artística que se explique sem ser por um livro».[xxxi]

 Os artistas - escreve - não inventam nada: traduzem na sua língua as ideias dos outros. Para explicar uma obra de arte do século XV não são suficientes nem as finas apreciações do amador nem a sua visão mais engenhosa. É preciso encontrar o livro que o autor tem sob os seus olhos, ou, se não se puder indicar o livro, fazer compreender de que trabalho do pensamento religioso saiu a obra desses artistas.

 Daí que, se se procurar identificar ou interpretar as obras do fim da Idade Média é necessário ler «os teólogos, os místicos, os hagiógrafos e os sermonários[xxxii].

Os estudos da arte portuguesa incidiram, durante muito tempo, em aspectos puramente formais, relacionando escolas e autores sem se preocuparem com as «influências literárias das fontes místicas». Todavia, conforme escreveu, em 1948, o dr. Costa Lima,

 

a estas causas de ordem técnica, material e exemplar, juntam-se, ainda, os desenhos e estampas da Bíblia dos Pobres - Biblia Pauperum - do Speculum Humanae Salvationis, manuais nas grandes oficinas, sem omissão das mil figuras biblicas, hagiológicas e históricas da Crónica de Nuremberga, de Hartmann Schedej, aparecida em 1493, espalhadíssima pela Europa.[xxxiii]

 

A arte portuguesa do fim da época medieval será, ainda segundo o autor citado, fruto da «seiva espiritual do livro célebre, de extraordinária influência»: as Meditationes Vita Christi, apócrifas, atribuídas a S. Boaventura, mas escritas no século XIV pelo frade menor Joannes de Caulibus, habitualmente designado pelo pseudo-Boaventura. Assim, será «historicamente certo» que «desde o começo do século XIV, directa ou indirectamente, as Meditações da Vida de Cristo entraram na pintura e na escultura».[xxxiv]

A Biblia Pauperum não será, toda ela, inspirada nos textos do pseudo-Boaventura, do mesmo modo que não se pode encontrar, nas Meditações da Vida de Cristo, a fonte das mais de seis centenas de cenas que integram a Crónica de Nuremberga. De qualquer modo algumas há, como veremos, em que as palavras de Joannes de Caulibus - o pseudo-Boaventura - acompanham a xilogravura, do mesmo modo que inspiram a Vita Christi, de Ludolfo da Saxónia, que vai buscar às Meditações boa parte das suas passagens.

 

DA IMAGEM ÀS IMAGENS

 

A presença de imagens xilografadas da Biblia Pauperum e do Liber Chronicarum em tábuas portuguesas de fins do século XV e começos do século XVI revela que as mesmas não foram utilizadas na sua totalidade servindo apenas, na maioria dos casos, como suporte para a elaboração de algumas das figuras da composição.

A influência da gravura pode verificar-se por diversas formas, e também não excluímos a possibilidade de as pinturas portuguesas se terem inspirado noutras pinturas que, por sua vez, foram buscar os modelos às xilografias que estudamos.

A proximidade entre os temas gravados e a pintura pode verificar-se se­gundo três categorias essenciais, estabelecidas por Ana Ávila Padrón[xxxv] e redefinidas num trabalho de Dagoberto Markl[xxxvi]. Segundo estes autores, existe uma influência directa da gravura em casos pouco frequentes entre nós, com a reprodução exacta e integral do tema, uma influência indirecta, mais frequente, em que as obras reproduzem a ideia geral da gravura, sobretudo em termos compositivos, utilizando o mestre uma ou mais fontes, não obrigatoriamente com a mesma origem e, por fim, a intencionalidade dos tipos iconográficos, fenómeno que, discordando de Dagoberto Markl, admitimos surgir menos raramente do que se tem pensado na pintura da época que tratamos, até porque as imagens não podem separar-se dos textos que lhes são anteriores.

As imagens dos incunábulos são fontes para a pintura, mas fontes parciais, imagens que, mesmo correspondendo a descrições de um texto teológico, podem ter um significado diferente do texto significante. É, pois, um risco que se deve evitar: atribuir um conteúdo a forma que não se conhece completamente, condição sine qua non para que o método de Panofsky possa ser aplicado com a desejável eficácia e abrangência.

 

ENTRE A OFICINA DE VICENTE GIL E MANUEL VICENTE

E A OBRA DE FREI CARLOS

 

A caracterização da pintura portuguesa entre os séculos XV e XVI tem sido um dos problemas mais difíceis de resolver pelos nossos historiadores da arte, quer pela exiguidade da documentação, quer pela falta de uma análise laboratorial sistemática e estudo interdisciplinar às cerca de seis centenas de tábuas existentes nos museus, igrejas e misericórdias portuguesas.

As técnicas de desenho dos mestres quatrocentistas são diferentes das dos de quinhentos[xxxvii], do mesmo modo que a camada cromática só foi predominantemente a óleo passado largo tempo sobre a utilização da têmpera. Se isto é verdade para a pintura de cavalete procedente do Norte da Europa, a situação está ainda por esclarecer no que refere às obras executadas nas oficinas portuguesas.

Dificultada, pelos motivos referidos, a tarefa de análise e identificação da nossa pintura dos primeiros tempos do Renascimento, os historiadores da Arte têm desenvolvido o seu trabalho com base em análises estilísticas, de inspiração morelliana ou, mais raramente, utilizando o método iconológico de Erwin Panofsky.

É seguindo o método de Morelli que Myron Malkiel Jirmounsky estuda a pintura portuguesa e, designadamente, a «Escola do Sardoal» que hoje se sabe ser a oficina coimbrã de Vicente Gil  e Manuel Vicente. Não nos interessa, aqui, percorrer os meandros da análise de Jirmounsky, bastando fixar apenas algumas das suas apreciações estilísticas, sobretudo quando fala em «rostos tratados de uma maneira sintética, grandes planos quase unidos» e na composição em que as diagonais e paralelas servem de eixo às principais figuras[xxxviii]. Trata-se, acentuaríamos, de uma característica arcaízante, melhor, goticizante, que aproxima estas tábuas de outras, do Museu de Dijon, catalogadas como da Escola Portuguesa, mas, aparentemente, influenciadas pela escola francesa[xxxix].

A Adoração dos Magos da oficina coimbrã de Vicente Gil e Manuel Vicente (Fig. 1) corresponde, na sua organização espacial, à série de «grandes planos quase unidos» de que fala Jirmounsky, à semelhança da cena representada na Bíblia Pauperum (Fig. 2) da edição conservada em Paris. Todavia, para além da proximidade que se encontra na composição, vamos encontrar uma outra influência: tanto na pintura como na xilografia o menino procura chegar ao cofre que o rei Mago lhe está a ofertar. Trata-se de uma figuração que escapa tanto à descrição bíblica (Mt. 2, 11) como aos textos de S. Bernardo (citados pelo pseudo-Boaventura e por Ludolfo da Saxónia), à Lenda Dourada e, mesmo, ao apócrifo Protoevangelho de Tíago. A fonte escrita que inspirou a imagem não terá sido a mesma, mas a xilografia - como a Bíblía Pauperum - foi a sugestão grá­fica para a elaboração da tábua.

É, ainda, em tábuas atribuídas à referida oficina coimbrã, procedentes do Mosteiro de Celas e hoje no Museu Machado de Castro, que vamos encontrar outras aproximações com as xilografias da Biblia Pauperum, todas elas, aliás, ilustrando cenas da vida gloriosa de Cristo, isto é, do período que começa com a Ressurreição.

 

Fig. 1 - Adoração dos Magos, Oficina de Vicente Gil e Manuel Vicente. Antigo políptico do Mosteiro de Celas, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra.

Fig. 2 - Adoração dos Magos, Biblia Pauperum, ed. alemã, Biblioteca Nacional de Paris.

 

Notaremos, mais uma vez, que quer as tábuas quer as imagens gravadas apresentam, como característica comum, uma redução dos espaços que leva ao alongamento das figuras. Este alongamento recorda como, no período gótico, as imagens se desenvolviam no sentido da altura, sujeitando-se a um enquadramento arquitectónico definido pela moldura, ou pelos nichos e superfícies parietais, quando se tratava da escultura.

As primeiras edições xilográficas ilustradas da Biblia Pauperum surgem quan­do o gosto gótico ainda mantinha razoável vigor. Por outro lado, julgamos que as tábuas da oficina coimbrã de Vicente Gil e Manuel Vicente são anteriores ao período em que o gosto pelos grandes espaços arquitectónicos manuelinos não havia sido definitivamente implantado. A espacialidade renascentista (italiana ou flamenga) preparava-se, ainda, para dar os primeiros passos entre nós. Apesar disto, há já nas tábuas daquela oficina «formas do novo estilo que se introduz pouco a pouco nas formas do estilo antigo»[xl], daí resultando que as pinturas recebam das gravuras uma influência mais indirecta que directa.

A Incredulidade de Tomé (Fig. 3) será um bom exemplo do que atrás fica dito, verificando-se também que o Mestre seguiu à letra o texto bíblico (Jo. 21, 27-28) nas palavras de Cristo a Tomé: «chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado». De facto, tanto na tábua como na gravura (Fig. 4), Cristo, de pé, segurando o símbolo da Ressurreição, mostra ao apóstolo a ferida no peito para que ele a toque.

 

 

Fig. 3 - Incredulidade de Tomé, antigo políptico do Mosteiro de Celas. Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra.

Fig. 4 - Incredulidade de Tomé, Biblia Pauperum, British Library, BIockbook C.9 d.2.

 

Também na Ascensão, do mesmo conjunto retabular, tanto o autor do desenho da Biblia Pauperum como o do painel substituem a exiguidade da descrição da fonte (Act. 1,9-11), por outras referências, eventualmente o pseudo-Boaventura[xli] ou a Lenda Dourada[xlii]. Pode retirar-se destes textos a ideia de representar, apenas, os pés de Cristo e a ponta das vestes porque as nuvens, ao rodearem-no, o fizeram elevar rapidamente. Nas Meditações descreve-se, ainda, que Cristo estava de pé, num local onde nunca foi possível elevar qualquer construção e tanto a Biblia Pauperum como a pintura obedecem a essa indicação iconográfica. Este mesmo tema, com a mesma intencionalidade iconográfica, surge também, por exemplo,  na Ascensão do antigo retábulo do altar-mor da Sé de Viseu.

Numa Deposição no túmulo do antigo retábulo de S. Francisco de Évora, de Francisco Henriques, a composição é tratada numa perspectiva de algum modo diferenciada da das pinturas da oficina que temos vindo a referir. Vamos encontrar a mesma opção compositiva em idêntica cena na Biblia Pauperum onde o túmulo também é representado na oblíqua e onde os personagens estão dispostos de modo muito semelhante aos da pintura.

As gravuras e, mais explicitamente, as da Crónica de Nuremberga e da Biblia Pauperum serviram para várias outras pinturas, embora seja abusivo alargar demasiado o espectro de influências, sabendo-se que outras fontes ilustradas foram surgindo e houve conhecimento delas em Portugal.

O tema da Ressurreição é, entre todos os episódios bíblicos, aquele que supera a Crucificação em diversidade de interpretações plásticas[xliii], sendo mesmo possível detectar entre elas o que alguns autores designam por «desvios heterodoxos»[xliv].

A «ressurreição miraculosa» implicará, segundo a escolástica, certas formas de representação, entre as quais urna, mostrando o túmulo fechado. O que os textos não indicam é como teria a sepultura ficado fechada, mas o Mestre da Charola de Tomar, o mestre designado por Eduardo o Português e, principalmente, Frei Carlos apresentam-na lacrada[xlv]. A Biblia Pauperum inclui uma Ressurreição que não tem qualquer parentesco plástico com as obras dos autores referidos, mas pode ser considerada como uma fonte iconográfica parcial das mesmas. De facto, a gravura apresenta Cristo saindo do túmulo, claramente selado em quatro pontos tal como a porta do sepulcro pintada por Frei Carlos nos mostra vários pontos de lacre intactos.

A oficina coimbrã de Vicente Gil e Manuel Vicente não utilizou como fonte exclusiva  o livrinho para os “povres clercs”. Duas outras tábuas que lhe são atribuídas têm os seus modelos em xilografias da Crónica de Nuremberga.

Ao narrar a história de Maria Madalena, a Lenda Dourada conta-nos que a santa se retirou

para um deserto terrível, onde se manteve desconhecida durante trinta anos, num local preparado pelos anjos. Ora, neste lugar, não havia nenhum refúgio, nem curso de água, nem árvores, nem erva, para que fosse evidente que o nosso Redentor tinha determinado saciá-la não com alimentos terrestres, mas apenas com manjares do céu. Assim, todos os dias, no momento das sete horas canónicas, ela era elevada pelos anjos até ao céu e ouvia, com os próprios ouvidos do corpo, os concertos encantadores dos coros celestes.[xlvi]

 

Se compararmos a pintura da oficina de Coimbra (Fig. 5) e a gravura do Liber Chronicarum (Fig. 6), não só encontramos um evidente paralelismo plástico