Pintura do Renascimento
Português
na antiga Colecção dos Duques
de Palmela
Manuel Batoréo
Faculdade
de Letras de Lisboa
Instituto
de História da Arte
(Conferência na Casa Museu
Anastácio Gonçalves, em Maio de 2001)
A
escolha do conjunto de painéis que apreciamos não decorre de nenhuma selecção
de contornos qualitativos relativamente ao valiosíssimo espólio de que a
exposição que esteve patente na Casa Museu (Abril-Setembro, 2001) deu
testemunho.
Os
motivos dessa escolha decorre, muito simplesmente, do interesse particular que
dedico à pintura portuguesa do renascimento e à circunstância de dar especial
atenção aos painéis do Retábulo da Vida da Virgem, de que estiveram expostas duas das suas
oito tábuas (ver estudo em O Retábulo de Montemor-o-Velho)
Uma
primeira nota, e apenas nota, dirá respeito à caracterização geral dessas
pinturas no contexto do renascimento português. De facto, o que há de icónico
na produção de quatrocentos, dá lugar, em pleno século XVI, a um sentido
humanista de representação narrativa onde a perspectiva traz nova dinâmica
à função da imagem devocional.
O
que apreciamos é exactamente um conjunto de imagens devocionais. Imagens
devocionais porque de arte religiosa se trata. Arte religiosa que é a única de
que temos testemunho na primeira metade do século XVI.
E é natural que assim seja, por ser aquela que responde à mentalidade
da época, decorrente não apenas dos circunstancialismos económicos e políticos
mas ainda, e como consequência desses mesmos circunstancialismos, de uma
agudização da consciência da mortalidade na sociedade do tempo, tomada de
consciência essa que a vai condicionar na procura dos caminhos da Salvação.
E,
seguindo a ideia de F. A . Baptista
Pereira, vamos observar, nesse primeiro meio século de quinhentos, a imagem do
espectáculo da emoção, a concepção do espaço teatral, a representação,
diremos nós, dos momentos exemplares de meditação e de devoção.
Procura-se a afirmação da piedade de cada indivíduo através das boas
obras e da oração tal como o movimento da Devotio
Moderna bem difundira pela Europa setentrional, sobretudo na Flandres e
Alemanha, desde finais do século XIV.
O
que, de forma muito elementar, acabo de referir vai, de algum modo, reflectir-se
na aproximação que vos proponho ao painel intitulado Arcanjo
S. Miguel, à Morte
da Virgem, e ao já mencionado conjunto retabular de oito painéis com cenas
da Vida da Virgem.
As
pinturas são datáveis de um período que medeia entre os anos 30 e os anos 45
do século XVI, querendo isto dizer que foram executadas durante o
reinado de D. João III, e serão todas elas encomenda de círculos
cortesãos.
A
identificação rigorosa dos mestres torna-se particularmente difícil nos casos
em que a encomenda não é explícita e, sobretudo, nas obras da terceira década
de quinhentos, atribuíveis aos
chamados mestres de Ferreirim, discípulos ou companheiros de Jorge Afonso, o
pintor régio de D. Manuel e D. João III.
Estou a falar, designadamente, de Gregório Lopes, Garcia Fernandes,
Cristóvão de Figueiredo, Cristóvão de Utreque e também de Diogo Contreiras,
discípulo do primeiro.
E,
por trabalharem em parcerias, companhias ou integrados em ateliers, torna-se
recomendável a maior precaução nas atribuições e a consideração de
devidas reservas. Não podemos cair nas precipitações da historiografia da
primeira metade do século passado ou
e eventuais seguidores seus.
Cada
uma das obras aqui apreciadas foram adquiridas pelos duques de Palmela em épocas
diferentes, talvez com quatro décadas de diferença entre o conjunto retabular
da Vida da Virgem e o S.
Miguel combatendo o dragão e a mais tardia Morte
da Virgem.
Este
pequeno mas notável conjunto de pinturas serve, no entanto, como bom documento
ilustrativo daquilo que o historiador da arte Adriano de Gusmão
fizera notar sobre a arte portuguesa do tempo. Escreveu ele, e sintetizo,
que tivemos um “certo realismo, repassado de poesia”, com um
sentimento diferente da cor, uma monumentalidade das obras que nunca houve no
Norte Europeu, mas assimilámos o estilo daquelas oficinas de pintura, estilo
que nos foi grato até muito tarde, e onde, no entanto, foi introduzido um pouco
do nosso temperamento e experiência quotidiana.
Esse
“estilo que nos foi grato”, vindo da Flandres e da Alemanha, procurava
- e utilizo as expressões de Erwin Panofsky -,
o realismo e a identidade figurativa entre o objecto real e o
representado. Tudo isto com reflexos não apenas nas representações,
consideradas isoladamente, como no conceito de perspectiva e, consequentemente,
na concepção espacial das composições.
Ainda
segundo Panofsky, enquanto os italianos apresentam um renascimento do modelo clássico
da antiguidade, o Norte produz um nascimento sem antiguidade ou mesmo contra
a antiguidade. Em qualquer dos casos, tanto na Itália como no Norte da Europa o
que os mestres propõem, cada um a seu modo, é um renascimento da pintura
contra o modo gótico.
É,
pois, esse fenómeno, na vertente portuguesa, de filiação prioritariamente
flamenga, que vamos observar a partir de agora nas pinturas
da antiga colecção Palmela.
Da
sequência cronológica das várias pinturas pouco se pode adiantar. Apenas a Morte
da Virgem, de mestre desconhecido, será datável do período final do
renascimento português e, por simples apreciação estilística e comparação
com a pintura que então se faz em Portugal, denuncia algum afastamento dos
modelos ditos ferreirinescos. O Arcanjo S.
Miguel e o Retábulo da Vida da Virgem,
que têm andado atribuídas apenas a Garcia Fernandes, serão obras do terceiro
decénio do século, muito provavelmente do seu início, pelas razões que
adiante serão apontadas.
Iniciemos
o nosso percurso pela pintura que se apresenta como mais tardia e é, de todas,
a menos conhecida: a Morte
da Virgem.
O
tema não é referido em qualquer texto bíblico mas foi tratado por S. João
Damasceno no século VII e teve
larga difusão a partir do século XIII, seguindo a Lenda
Dourada de Jacoppo de Varazze. Esse texto descreve os últimos momentos da
vida da Virgem quando, depois do anjo lhe ter trazido a palma que a acompanharia
até ao sepulcro, os doze apóstolos (e não onze) se reúnem à sua volta.
O
painel destaca esse momento, quando S. João Evangelista já segura a palma que
recebeu de Maria e levará à frente do cortejo fúnebre e Pedro, “corifeu e
teólogo supremo”, como o designa Voragine, com a capa de asperges, a colocar
uma vela nas mãos da Virgem moribunda.
Do
ponto de vista iconográfico, a pintura segue claramente o texto da Lenda
Dourada. Estilisticamente, parece-nos que, apesar da evidência de estarmos
perante uma obra “datável dos anos centrais do século XVI”, como
escreveu Vítor Serrão, não a deveríamos integrar no modelo que “hoje,
ainda e mal, se continua a designar por maneirismo de Antuérpia”, como há
tempos alertou José Alberto Seabra Carvalho, Preferimos, tal como aponta o
autor referido, considerar que estamos perante uma gramática formal actualizada
em tónica classicista”.
Afastada
como está dos modelos cromáticos e compositivos de mestres como Gregório
Lopes, Garcia Fernandes, Cristóvão de Figueiredo e, também, de Diogo
Contreiras, esta pintura, de mestre desconhecido, ainda apresenta, como bem
reconheceu Vítor Serrão, alguns pormenores, designadamente nos rostos, desenho
e cromatismo de algumas figuras, que recordam o painel central do Retábulo da
Capela de Bartolomeu Joanes, da Sé de Lisboa, datado de 1537. Mas não podemos
esquecer, como também assinalou Vítor Serrão, que o restauro a que em tempos
foi submetida esta pintura “subverteu parte dos seus valores originais e
alterou gravosamente as ambiências tonais e as relações entre os planos”.
Esta circunstância dificulta, ou chega mesmo a impedir, uma apreciação mais
correcta da pintura. O que, em qualquer caso, parece evidente é a inspiração
parcial em gravura de Dürer de idêntico tema o que não serve para estabelecer
qualquer datação rigorosa, sabendo-se que as gravuras durerianas foram
utilizadas como fonte iconográfica e
compositiva não apenas por mestres do renascimento, como por pintores
maneiristas e barrocos.
Recuemos, no tempo para apreciar o painel Arcanjo S. Miguel combatendo o dragão. Trata-se da pintura, entre as obras portuguesas da exposição Uma Família de
Coleccionadores. Poder e Cultura, que considero ser a mais próxima do modo
flamengo e, designadamente, de Memling, embora pelas suas dimensões e
espectacularidade da representação escape ao academismo do mestre brugense.
A cena decorre de três versículos do Apocalipse (Ap. 2, 7-9) onde se lê:
“Depois, travou-se uma batalha no céu: Miguel e seus anjos declaram guerra
ao Dragão. O Dragão e os seus anjos combateram, mas não resistiram. E nunca
mais encontraram lugar no céu: o grande Dragão – a serpente antiga – a que
chamam também Diabo e Satanás – o sedutor de toda a humanidade, foi lançado
à terra; e com ele foram lançados também os seus anjos”.
A pintura é evidentemente alusiva à queda e à salvação. No caso
vertente à salvação pela entrega ao serviço de Deus, atitude exemplificada
pelas duas freiras representadas nos
pratos da balança, monjas do Mosteiro cisterciense de Odivelas, como pode
concluir-se de um documento onde se refere a compra da pintura.
Notaremos que o Arcanjo enverga uma capa de asperges em cujo sebasto estão
representadas quatro figuras, sem atributos identificáveis, mas que poderão
ser quatro apóstolos, tratando-se provavelmente de Tiago Maior, a figura de
peregrino com bordão que se encontra na parte inferior.
O
firmal tem, ao centro, a figura de Deus Pai abençoando em desenho de inspiração
directa em idêntica representação gravada num dos primeiros fólios do incunábulo
Crónica de Nuremberga, obra da parceria de Wolgemut e Hartmann Schedel,
impressa em 1493 e largamente divulgada por toda a Europa no século XVI.
Acima
do firmal está representada uma cruz da Ordem de Cristo (o que indicia
encomenda régia) e, como já referimos, nos pratos da balança, duas religiosas
bernardas, em clara alusão à ordem cisterciense a que pertencia o mosteiro de
S. Dinis de Odivelas. Um outro pormenor importante é a citação de uma
passagem dos Salmos atribuídos a David inscrita na bainha da espada: DIXI:
DOMINO: DOMINO. Será este, um outro elemento mais a ter em conta numa adequada
leitura iconológica e, também, na apreciação estilística ao reconhecer-se o
gosto pelo tratamento das ourivesarias, bem patente no punho da espada.
A
imponência da figura de S. Miguel, o movimento que o apresenta impondo-se não
apenas ao dragão de sete cabeças mas, também, ao observador, não afasta a
hipótese de se tratar de obra de que Garcia Fernandes tenha sido o principal
responsável e a quem se reconhece não apenas a qualidade do desenho e dos
cromatismos mas também alguma preferência pela colocação das figuras em
primeiro plano, afastadas de paisagens fundeiras.
Aliás, para além deste aspecto, há que admitir a mão do mestre no
rico tratamento da armadura com impressionantes reflexos, nas subtis gradações
cromáticas das asas e nos delicados brocados da capa. Está também atribuído
a Garcia Fernandes um outro São Miguel (Museu Nacional de Arte Antiga), e é nesse painel, de
semelhante cromatismo, designadamente nas asas e nas carnações, que se pode
identificar o mesmo gosto. Tenhamos presente, no entanto, e naquilo que diz
respeito às carnações, e neste caso ao rosto, que está dado testemunho, por
Raczinsky, em 1846, de uma reintegração por um tal sr. Tiniranzi, que “refez
o rosto quase desaparecido do arcanjo”.
No texto inserido no catálogo, admito a possibilidade – sem com isso
pretender convencer ninguém, (trata-se apenas de uma proposta) – de haver
colaboração de Garcia Fernandes e de outro provável mestre de Ferreirim, o
pintor Cristóvão de Utreque.
A
hipótese decorre de dois aspectos. O primeiro, de ordem mais geral, na chamada
de atenção de Aby Warburg, o fundador da iconologia e principal mestre de
Erwin Panofsky, para a importância dos pormenores na leitura dos significados e
na identificação dos mestres. É de sua autoria uma frase, muito referida na
mais recente historiografia da arte, em que afirma: “Deus está no
pormenor”. Aliás, é partindo desta afirmação, quase icónica ..., que
Daniel Arasse desenvolve a temática da sua obra Le Détail, editada em 1992 e cuja leitura se recomenda vivamente
aos connoisseurs mais apressados.
O segundo aspecto, este bem mais concreto, decorre da observação da
pintura na sua composição geral e no pormenor.
Observamos, primeiro, o fundo de paisagem onde se integram pomenores nada
frequentes nas obras atribuídas a Garcia Fernandes, que prefere os interiores e
a localização das figuras em meios enquadrados por estruturas arquitectónicas
ou sem enquadramento específico. Se recordarmos o S.
Miguel do MNAA, e o do retábulo lateral de S. Francisco de Évora verificaremos que assim
acontece.
No
caso do S. Miguel em apreciação
encontramos um género de arvoredo que investigação em curso, e por mim
próprio activamente participada, nos permite reconhecer como pertencendo às
regiões norte-europeias. Sugestivamente,
as construções visíveis em segundo plano correspondem aos modelos dessa região.
É a presença destes pormenores flamenguizantes que nos sugerem a possibilidade
– e só isso – de poder ter havido colaboração de um mestre proveniente do
Norte da Europa, e neste caso de Cristóvão de Utreque, um dos pintores que
trabalhou com Garcia Fernandes na empreitada de três retábulos para o Mosteiro
de Ferreirim.