O Retábulo da Vida da Virgem

da Igreja de Santa Maria da Alcáçova

de Montemor-o-Velho

 

           

            Na muito variada colecção de arte do Duque de Palmela incluem-se oito painéis com cenas da Vida da Virgem, adquiridos por D. Pedro de Sousa Holstein provavelmente após ter sido presidente do Senado e enquanto desempenhava vários cargos políticos que abandonou em 1848.

            A primeira notícia sobre este conjunto retabular data de 1815 e foi dada por Cunha Taborda  que informa pertencerem as pinturas ao Marquês de Valença. Depois daquela data os painéis terão estado episodicamente na posse do Conde de Figueira, D. José de Castello Branco, surgindo, em 1846, na colecção do Duque de Palmela, no Palacete do Calhariz, onde o connoisseur e investigador Atanas Raczynski os viu em 1846, considerando-as próximas do conjunto mariano da igreja do Convento do Paraíso. Referências posteriores constam de um inventário publicado na Revista Universal Lusitana (30/10/1854) de outro, com data desconhecida, da Imprensa Nacional e, ainda, de uma relação de Gabriel Pereira, editada em 1903.

            Os inventários, que nem sempre coincidem no número exacto dos painéis, - referindo uns apenas seis tábuas e outros as oito que, de facto, o compõem -,  atribuem a autoria quer a Grão Vasco, como era vulgar ao tempo, quer a Cristóvão de Utreque, um dos mestres de Ferreirim, provável companheiro de Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes.

            O conjunto retabular, hoje disperso por sete colecções particulares, só esteve exposto na sua totalidade por duas vezes, uma na Exposição Os Primitivos Portugueses (1940) e outra na Exposição Pintura dos Mestres do Sardoal e Abrantes (1971), embora tenha havido apresentações parciais designadamente em Garcia Fernandes. Um pintor do renascimento. Eleitor da Misericórdia de Lisboa (Lisboa, Museu de S. Roque, 1998) e O Negro na Arte (Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999)

As tábuas existentes (todas medindo 1220 x 665) são: Encontro de Santa Ana e S. Joaquim na Porta Dourada , Nascimento da Virgem, Apresentação da Virgem no templo, Casamento da Virgem, Anunciação, Natividade, Adoração dos Reis Magos,  Apresentação do Menino no templo.

            Os temas dos oito painéis decorrem, principalmente, dos Evangelhos Apócrifos e da Lenda Dourada e, em menor grau, dos Evangelhos Canónicos.  Todavia, o modo de valorizar cada um dos temas, quer pelo desenho, pelo ambiente quer, pela luminosidade, e também pela introdução de alguns pormenores ditos de género, resultam muito claramente de uma perspectiva que já foi considerada como decorrente do nominalismo, segundo o qual, e simplificando muitíssimo o conceito, cada coisa vale por si. Foi o Prof. Camón Aznar quem, numa síntese publicada em 1971, chamou a atenção para este aspecto. Salientava o ilustre professor que “aquilo que antes (no pensamento escolástico) se desvalorizava, (…) é agora acarinhado e representado precisamente por causa dos seus sinais próprios e únicos”. Vão predominar, nesta época, “os temas concretos e palpáveis, as características tácteis  das coisas, um naturalismo sem véus conceptuais”. É com este nominalismo, acrescentava então Cámon Aznar, “que se inaugura o realismo da arte moderna”.

             O Encontro na Porta Dourada e o Nascimento da Virgem, as duas primeiras pinturas na sequência cronológica do nascimento de Maria, serão as mais ricas de uma perspectiva de composição onde, na primeira das tábuas, a cena principal, de inspiração em gravura dureriana, é completada pelos apontamentos em fundo do aparecimento do anjo a S. Joaquim e a Santa Ana.  O Nascimento da Virgem recorre ao imaginário popular do tempo para as cenas de parto, com apontamentos de género, não havendo fonte escrita que  mencione explicitamente o acto. A gravura de Dürer que pode ter servido de inspiração remota ao pintor é muito mais complexa quer na composição quer no ambiente, quer na atitude muito agitada dos personagens que intervêm no acto. Todavia, do ponto de vista iconográfico, há a curiosa novidade, na pintura portuguesa da época, do aparecimento de uma mulher negra, pormenor a que nos referiremos noutro local.

           

 

A Apresentação da Virgem no templo é outra das cenas inspiradas nos textos dos Evangelhos Apócrifos (Evangelho do Pseudo Mateus) e também em gravura, esta do alemão Israel van Meckenem. Trata-se de uma pintura onde o mestre, tal como sucede na tábua já mencionada do Nascimento da Virgem e também no Casamento da Virgem e Apresentação do Menino no templo mostra uma preferência especial pelos interiores e pela subordinação das figuras ao enquadramento arquitectónico.

          O Casamento da Virgem é uma das três pinturas que apresentam elementos iconográficos do maior interesse para a identificação do conjunto. Segundo o texto apócrifo em que se fundamenta, os pretendentes a Maria deviam apresentar-se no templo com uma vara e aquele a quem pertencesse o ramo que floriria seria o escolhido. Apesar de contrariado, pela sua idade avançada e por já ter filhos, é a José que cabe “receber Maria”. Na pintura, vê-se José com a vara de ponta reverdecida e, atrás, outros pretendentes e um grande conjunto de varas secas. 

 Se observarmos a pintura na zona atrás de José, verificaremos que existe uma alusão às varas dos pretendentes à excepção de um único, exactamente aquele de quem vemos o busto, mais à direita.

 

 

 

            É nesta figura que encontramos um outro elemento fundamental para a identificação que propomos. Este personagem exibe um emblema, designado mais correctamente por estampa, representando um pelicano alimentando os filhos. Este símbolo, que foi de D. João II (falecido em 1495), pertenceu, depois, ao seu filho natural, D. Jorge de Lencastre (21 de Agosto de 1481 – 22 de Julho de 1550). 

            Afastado da sucessão, por decisão papal e, seguramente, influência da rainha D. Leonor, D. Jorge manteve sempre um estatuto especial, tendo sido investido, ainda em vida de seu pai e apenas com  onze anos,  no mestrado da Ordem de Santiago, na administração da Ordem de Avis, no ducado de Coimbra e recebendo vários títulos, entre os quais, o de senhor de Montemor.

            Na sua juventude, D. Jorge de Lencastre foi educado pela tia avó, a infanta Santa Joana e, depois da morte desta, ficou a cargo do primeiro conde de Abrantes, D. Lopo de Almeida, pai de D. Jorge de Almeida, bispo de Coimbra desde 1481 até 1543 e primeiro inquisidor-mor do reino a partir de 1536.

            As relações entre D. Jorge de Lencastre e o bispo D. Jorge de Almeida não podiam deixar de ser muito próximas não apenas pelo facto de ambos terem sido educados pelo conde D. João, mas também porque o primeiro, sendo Duque de Coimbra tinha, certamente, estreitos contactos com o bispo D. Jorge. Curiosamente, na tábua Casamento da Virgem, vêem-se as armas do bispo inscritas numa bandeira que sai do candelabro ao centro e o chapéu episcopal noutra do lado esquerdo.

            Os elementos heráldicos referidos – o pelicano de D. Jorge de Lencastre, as  armas e o chapéu episcopal D. Jorge de Almeida – representam claramente a relação entre ambos, o que permite determinar o aparecimento simultâneo desta simbologia. Este D. Jorge de Almeida desenvolveu importante acção mecenática em Coimbra e fora da cidade, sabendo-se que mandou reconstruir a igreja colegiada de Santa Maria da  Alcáçova de Montemor-o-Velho, confiando esse trabalho a algum construtor procedente do grande estaleiro da Batalha e elemento da oficina coimbrã de Marcos Pires, mestre responsável pelo claustro de Santa Cruz de Coimbra e pela capela da Universidade  daquela cidade, falecido em 1522.

            A clara identificação do Senhor D. Jorge, representando-o como testemunha e participante no acto, e também como encomendador, é confirmada na tábua Anunciação onde, na orla do tapete onde ajoelha a Virgem, estão inscritos, em dimensões muito reduzidas, entre outros, os emblemas da Ordem de Santiago e da Ordem de Aviz, e as armas antigas da vila de Montemor.

 

 

 

 

                 A Natividade e a Adoração dos Reis Magos não apresentam, aparentemente, nenhum elemento que contribua para a identificação do doador ou do local para onde o conjunto foi executado mas são indiciadores da intervenção de Garcia Fernandes, quer nos panejamentos dos anjos, quer na riqueza das ourivesarias, que fazem recordar outras, semelhantes, da companhia Cristóvão de Figueiredo com aquele mestre de Ferreirim no Retábulo de S. Bartolomeu, da Sé de Lisboa.

A última pintura da série, a Apresentação do Menino no Templo, apresentando elementos estilísticos  próximos  de pintura do mesmo tema da série do Paraíso, é a tábua da dedicação feita pelo encomendador. Em vez da habitual inscrição retirada do texto bíblico pode ler-se: PIETATI SACRUM N.N., o que, em tradução livre, significa, “pela piedade, consagrado em nosso nome”.

 

            Os elementos que temos vindo a referir permitem-nos defender a ideia de que o retábulo que foi do Duque de Palmela, terá sido mandado executar para Santa Maria da Alcáçova de Montemor-o-Velho pois só aqui se verificava a estreita conjugação de poderes do senhor D. Jorge e do bispo D. Jorge de Almeida. De facto, enquanto o filho natural do rei D. João II era não apenas mestre de Santiago e administrador da Ordem de Avis, era também como já referimos, Duque de Coimbra e senhor de Montemor-o-Velho, cidade e vila integradas no episcopado de Coimbra, à frente do qual estava D. Jorge de Almeida. Tanto o primeiro como o bispo foram educados pelo conde de Abrantes e, com toda a probabilidade, o bispo e o senhor de Montemor-o-Velho terão seguido as lições do humanista Cataldo Sículo, o gramático e humanista italiano que foi convidado expressamente por D. João II para instruir o seu filho natural. A educação recebida por ambos estará certamente na base da importante acção mecenática que desenvolveram nas diversas regiões sob sua influência e onde começa a descobrir-se a introdução de um novo gosto.

Às informações de carácter heráldico-iconográfico deveremos agora acrescentar uma outra, documental, relativa à autoria. Vários autores têm atribuído estas pinturas ao pintor Garcia Fernandes. De facto, a maioria das tábuas aponta para aquilo que tem sido considerado como a mão deste mestre, sobretudo no que refere ao modo largo de tratar os panejamentos, aos cromatismos onde conjuga tonalidades quentes com a frieza de alguns amarelos e verdes e, sobretudo,  ao gosto pelas cenas de interior, fazendo uso persistente das arquitecturas para localizar espacialmente os temas tratados e, mais obviamente, como foi salientado por Joaquim Oliveira Caetano a riqueza do tratamento dos objectos, da ourivesaria e da armaria. De facto, este último aspecto parece constituir um dos meios possíveis para encontrar a “mão” de Fernandes que, mesmo em obras já claramente datáveis de período em que o gosto renascentista se havia implantado, continua a persistir  nas formas do gótico final nas suas peças de ourivesaria.

Em 1533, Garcia Fernandes estava a trabalhar em Ferreirim numa obra entregue ao seu companheiro Cristóvão de Figueiredo, na qual participaram Gregório Lopes e Cristóvão de Utreque. A actividade de Garcia Fernandes entre a conclusão da pintura do coruchéu do Tribunal da Relação e o ano de 1533 não está documentada. No entanto, por uma petição por ele dirigida ao rei D. João III sabemos que trabalhou em diversas empreitadas, designadamente para Coimbra e Montemor.

Esta informação não pode deixar de ser cruzada com uma outra, constante de um depoimento de 1540, segundo o qual Garcia Fernandes, referindo-se  ao  pintor  seu colega Cristóvão de Figueiredo,  atesta que “são compadres e amigos e companheiros em as obras que fazem e comem e bebem ambos”. Não deverá esquecer-se, também, que Cristóvão de Figueiredo trabalhara na obra da Relação, ao tempo de Francisco Henriques,  e se encontrava em Coimbra, entre 1522 e 1533, a cumprir o encargo das pinturas da Igreja do Mosteiro de Santa Cruz onde também é detectável a colaboração de Garcia Fernandes.

A propósito destas tábuas do Retábulo da Vida da Virgem já foram indicadas, a traços gerais, muitas das características do trabalho de Garcia Fernandes e poderemos adiantar que, neste mesmo conjunto, alguns outros pormenores com valor para a identificação ali podem ser encontrados. Refiramos, por exemplo, o modo da gestualidade, a utilização de pormenores de género, as ourivesarias e, sobretudo, o gosto por espaços fechados e cenas preocupadamente circunscritas por elementos arquitectónicos.

Todavia, para além dos modos identificáveis de Garcia Fernandes, outros há que julgamos mais próprios de Cristóvão de Figueiredo. Salientamos, entre estes, o tratamento de alguns rostos onde a intensa dramaticidade das expressões nos sugere a mão deste pintor, examinador de pintores e, sobretudo, debuxador de retábulos, conforme ficou atestado no documento de encomenda das obras de pintura para a igreja do Convento de Ferreirim, datado de 1533.

Sendo verdade, de acordo com a petição de 1540, que Garcia Fernandes trabalhou para Montemor, será de admitir, também, que Cristóvão de Figueiredo, o seu amigo, compadre e companheiro “nas obras que fazem” e com quem ele “comia e bebia” tenha participado, e talvez debuxado, o Retábulo da Igreja de Santa Maria da Alcáçova de Montemor-o-Velho.  Considerando que Cristóvão de Figueiredo esteve em Coimbra entre 1522 e 1533 e que Garcia Fernandes, após a conclusão da obra da Relação, terá ido juntar-se ao seu companheiro, poderemos sem dificuldade admitir esta colaboração, datando o conjunto retabular de finais dos anos vinte, como propõe Joaquim Oliveira Caetano, ou começos dos anos trinta, período em que ambos, e também Gregório Lopes, tiveram actividade na região coimbrã.

Quanto à encomenda da obra, reiteramos a nossa opinião que, dada a conjunção de elementos heráldicos em duas das tábuas, desde o pelicano às insígnias das ordens de Santiago e Avis, a obra foi encomendada por D. Jorge de Lencastre que não deixou de aludir à autoridade eclesiástica da igreja e colegiada, mandando inscrever no exuberante lampadário do painel Casamento da Virgem as armas pessoais e o símbolo episcopal de D. Jorge de Almeida.

A figura que ostenta o emblema com o pelicano seria, então, o filho legitimado de D. João II, embora o provável retrato não seja “tirado do natural” porque, ao tempo, o Senhor de Montemor já teria quase cinquenta anos.  Este “retrato” é, naturalmente, uma figuração icónica, de representação, tal como surge em muita da nossa pintura da época, sobretudo na figuração de doadores.

Junto ao provável D. Jorge de Lencastre encontra-se um outro, mais jovem, que ostenta outro emblema. Os heraldistas consultados não lhe conferem uma caracterização específica, mas admitem que, sendo essa figura D. João de Lencastre, o filho primogénito do eventual doador e mais tarde primeiro Duque de Aveiro, o referido emblema, que parece representar um guerreiro com escudo, terá a ver com alguma empresa do mesmo.

 Pelos motivos expostos, consideramos que o Retábulo é obra da companhia Garcia Fernandes – Cristóvão de Figueiredo, por eles executado para a Igreja de Santa Maria da Alcáçova de Montemor-o-Velho, por encomenda de D. Jorge de Lencastre, ali representado como doador e acompanhado de seu filho D. João, futuro Duque de Aveiro. Ficará, assim, afastada a remota e equivocamente fundamentada proposta de atribuição do conjunto ao pintor Jorge Leal, parceiro eventual de Gregório Lopes, referido em escassa documentação e acerca de quem não existem estudos laboratoriais, mesmo em primeira aproximação. Partindo da leitura sequencial da iconografia, poderemos propor uma reconstituição presumível do retábulo eventualmente montado numa máquina ainda ao gosto do gótico final, próximo, portanto, do razoavelmente anterior que ainda hoje se vê no altar-mor da Sé Velha de Coimbra. O Retábulo da Vida da Virgem da Igreja de Santa Maria da Alcáçova incluiria na fieira central, duas imagens em vulto: ao cimo, uma representação do Calvário e ao centro uma imagem de Nossa Senhora da Assunção, a quem a igreja era dedicada. Não seria de excluir a existência, em fieira inferior, ladeando o Sacrário, uma predela com pinturas alusivas a santas mártires, à semelhança do que ocorria com o retábulo da Igreja do Paraíso, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reconstituição (muito) conjectural

A Igreja de Santa Maria da Alcáçova de Montemor-o-Velho

 

  Bibliografia específica

 BATORÉO, Manuel, 1999; CAETANO, Joaquim Oliveira, 1997; PEREIRA, F. A Baptista, 1996; REIS SANTOS, 1957; PEREIRA, Gabriel,1903; RACZYNSKI, Atanas, 1846; Revista Universal Lisbonense, 1854;TABORDA, Cunha, 1815