A
Ceia de Cristo em Emaús
Instituto de História da
Arte
Faculdade
de Letras de Lisboa
Texto publicado em ARTIS
Revista
do Instituto de História da Arte da FLUL
n.º
1, Lisboa 2002, pp. 89-105
A
pintura portuguesa do século XV,
escassa no número de obras remanescentes de uma certamente mais rica produção
do tempo, tem sido alvo de escassos estudos monográficos que introduzam outros
meios de aproximação que não se limitem ao olhar do historiador da arte ou do
«connoisseur». Exceptua-se, naturalmente, o caso dos Painéis da Veneração
de S. Vicente, conjunto vitimado -
desde o seu achamento e até data
estranhamente bem recente -, por tentativas de «interpretação» que vão
desde o simples erro ao olvido de apreciação dos documentos conhecidos e à
insistência, patética, nas mais equívocas «leituras».
A Ceia de Cristo em Emaús ilustra uma passagem dos evangelhos de
Lucas (Lc 24,13-32) e Marcos (Mc 16,12-13), designada mente o momento, integrado
na «Vida Gloriosa de Cristo», em que o ressuscitado aparece, sem se identificar,
a dois discípulos que regressam à aldeia de Emaús. Vai conversando com eles
pelo caminho e, ao chegarem ao destino, Cristo é convidado a permanecer na casa
de um dos companheiros. À mesa, refere Lucas, Cristo «pegou no pão, deu
graças a Deus, partiu-o e dividiu-o com eles. Foi então que se lhes
abriu o entendimento e o reconheceram, mas nisto ele desapareceu».
A pintura de que fazemos esta tentativa de abordagem e está hoje
integrada na colecção do Museu Nacional de Arte Antiga (Inv. 303), não terá
escapado à ausência, que ainda hoje se verifica, de estudos sistemáticos,
permanentes e criteriosos. A Ceia do MNAA apenas teve uma limpeza
simples, efectuada em 1961, para além do levantamento de repintes mandado
fazer, em 1939, pelo então director do museu, Dr. João Couto, depois de ter
mandado radiografar o painel pelo Dr. Manuel Valadares, seu activo colaborador
neste tipo de exames, então pioneiro.
Relatou, então, o Dr. João Couto que «no fundo antigo de pinturas
do Museu existia, abandonada, uma tábua enegrecida e com o peor
aspecto, representando Cristo e dois discípulos de Emaús, tal como os
descreve a passagem do Evangelho»[1].
No referido artigo refere o autor que «uma vista de relance
permitiu-me, há pouco, verificar que a pintura havia sido lastimavelmente repintada
no decorrer dos anos a ponto da sua enorme importância ter escapado aos estudiosos.
Mas a observação de um ou outro pormenor levoume a considerar a sua
qualidade e a mandar proceder ao seu imediato restauro. Limpa a sujidade
que cobria as quatro tábuas componentes do painel, apareceu uma obra notável
pela riqueza de colorido, pela nobreza da expressão de Cristo e pela
invulgar composição decorativa».
De facto, a cuidada observação do Dr. João Couto permitiu detectar alguns repintes tardios, sobretudo na zona da mesa e do pão que Cristo abençoa, repintes esses então levantados, fazendo a pintura regressar ao seu aspecto presumivelmente original.
Desde a década de 40 até hoje várias referências
foram feitas a esta obra, quer para a filiar numa oficina, a coimbrã, quer para
a olhar na sua construção interna, designadamente os aspectos
compositivos e algumas «irregularidades» menos canónicas que
apresenta.
Das referências mais recentes destacaremos, por ordem cronológica e porque as discutimos na sequência desta nossa aproximação, as de José Luís Porfírio, José Alberto Seabra Carvalho e Vítor Serrão.
O actual director do MNAA, Dr. José Luís Porfírio, refere a Ceia
de Cristo em Emaús como «uma pintura que se lê com alguma
dificuldade e com crescente surpresa: a cama não se entende de início,
é o olhar que a reconstitui na sua dimensão espacial; o chão do
segundo plano aparece-nos vertiginosamente inclinado (facto que o posicionamento
na pintura dentro do retábulo original poderia ajudar a disfarçar), enquanto a
mesa nos aparece como uma objecto impossível (um hexágono ?, um octógono
?), funcionando como um elo aglutinador das figuras. Estamos certamente
perante um pintor que experimenta empiricamente um novo método que não conhece
bem e que não domina na totalidade»[2].
Interessante é a referência de José Luís Porfírio, datada do ano anterior,
ao afirmar que a pintura, cujo tema aparece pela primeira vez entre nós, «está
inteiramente fora de contexto e se situa, por assim dizer, numa expressão
intermédia entre uma oficina regional e a sóbria densidade da oficina
lisboeta que nos terá dado os Painéis»[3].
Numa referência datada de 1995, José Alberto Seabra Carvalho[4]
acompanha, de algum modo, as referências feitas pelos autores mencionados,
aduzindo-lhe apreciações feitas em 1939 pelo Dr. João Couto[5],
designadamente a proximidade entre a figura do apóstolo à esquerda e um
soldado representado no painel central do Tríptico de Santa Clara, hoje
no Museu Nacional Machado de Castro.
Desenvolvendo o que nós próprios referíramos em 1986[6],
- e agora publicamos resumido e devidamente corrigido e actualizado em alguns
aspectos fundamentais -, José Alberto Seabra de Carvalho descreve em poucas
linhas o que de essencial julgamos ser a caracterização estilística da obra,
acentuando que
«o tipo de desenho das mãos e do pregueado das vestes também
detém
parentesco com figuras dos volantes do retábulo de Coimbra, bem como a
intensidade dos tons de amarelo e de
vermelho. Contudo, o colorido do painel de Lisboa é mais harmónico,
gerando uma unidade interna na composição que se não reconhece tão
impositivamente nos painéis maiores do tríptico. (...) O que em Santa
Clara é um arcaísmo de linguagem, no Cristo de Emaús passa a experiência
de monumentalidade». O facto de a cena se passar num interior doméstico,
experiência (ou circunstância inédita na pintura portuguesa do tempo) será,
de facto, um ensaio de «espaço pictórico racionalizado», embora não
concordemos, como adiante se verá, com a ideia de as três personagens
representadas estarem sentadas a uma mesa de «impossível formato», mesmo que
a perspectiva da sala seja, como parece óbvio, deficientemente conseguida.
As dificuldades de conseguir um conjunto perspecticamente correcto,
considerado nos modelos propostos por Alberti ou no experimentalismo nórdico,
derivam, na nossa opinião, de circunstâncias outras, relacionadas com a execução
oficinal da pintura onde a presença de alguns modelos pré-existentes terá
tido papel determinante, obrigando, em certos pormenores, a correcções efectua
das sobre o desenho inscrito no preparo.
Em 2002, Vítor Serrão refere o «estiolar» da sequência gonçalvina
em finais do século XV em consequência «do gosto tradicional face aos modelos
goticizantes que continuavam a perdurar e a ser aceites preferencialmente
pelas clientelas nacionais»[7],
considerando que a pintura se incluirá na produção oficinal coimbrã de
Vicente Gil, que fora pintor régio de D. João II, representando um
ciclo, «em tom simplificado», de obras onde se mesclam receitas gonçalvinas
«mescaladas com influências hispano-flamengas, castelhanas e aragonesas
(designadamente de Fernando e Francisco Gallego, segundo notou o historiador
Angulo Iñiguez»[8].
Procurando reduzir a breves palavras estas referências, que não são
as .únicas, ser-nos-ia lícito dizer que os diversos autores defendem, por um
lado, a filiação da pintura em oficina coimbrã, origem essa que se
justificaria, como também pretende Pedro Dias, pelas «grandes dimensões»[9]
ou, nas que consideramos dever ser submetidas a reapreciação, influências
procedentes de Fernando e Francisco Gallego, pintores cuja obra está, estilística
e qualitativamente, muito distante destas.
A aproximação à oficina de Coimbra fundamentou-se, desde sempre, na
chamada de atenção do Dr. João Couto[10]
para a semelhança entre rostos da Ceia e outros do Retábulo de Santa
Clara, do Museu Nacional Machado de Castro, que não sendo de um inexistente
mestre Ylarius, como chegou a propor-se, pertencerá, eventualmente, «à
primeira fase da oficina de Coimbra talvez tutelada
por
Mestre Gil», conforme defende Fernando António Baptista Pereira na sua incontornável
tese de doutoramento[11].
Mais se aproximará, julgamos, de aspectos identificáveis na obra do
Mestre do Retábulo de Santa Ana, activo em Berlanga deI Duero (Sória),
ou, sobretudo, embora não por via directa, do mestre de Lovaina, Dirk Bouts (act.
1457-1475). Um olhar, rápido que seja, para a Ceia em casa de Simão, do
Staatliche Museum, de Berlim, e, principalmente, para a Última Ceia (1464-1468)
da Igreja de S. Pedro de Lovaina, será suficiente para lhes descobrir o
parentesco, nas formas e opções cromáticas, embora o mestre flamengo exiba
uma riqueza de elaboração, sobretudo ao nível do pormenor, de tradição
eyckiana, que o mestre eventualmente português não atinge. Por outro lado,
embora o formato da mesa tenha causado bastante perplexidade, bastará observar
esse mesmo formato, também numa mesa, e também numa Ceia em Emaús e
ainda, curiosamente, numa pintura de Dirk Bouts: o pormenor da grisalha do
painel Adoração dos Magos, do Museu do Prado. No caso do painel
português, o formato octogonal é denunciado pelo exame do desenho subjacente,
verificando-se que a dificuldade de leitura decorre da fase de aplicação da
camada cromática.
Casamento
da Virgem (pormenor), do Retábulo
de Santa Ana
Não pretendemos alongar-nos mais nas vertentes estilísticas
e iconográficas, de que julgamos estarem caracterizadas as dúvidas levantadas,
quer quanto às origens da pintura ou às «dificuldades» que o observador
encontra ao reconhecer as perspectivas mal resolvidas e as «impossibilidades»,
algumas aparentes, desse painel de temática única na pintura portuguesa
quatrocentista.
Dirk Bouts, Adoração
dos Magos (pormenor da grisalha), Museu do Prado
Muitos moldes e reduzido desenho criativo
O estudo das vertentes documentais e estilísticas, aquelas que os
arquivos podem oferecer e as que a pintura mostra, não revelam o processo
criativo da pintura, de qualquer pintura, e enriquecem-no se forem
complementadas pelos exames laboratoriais[12].
O contributo dessas técnicas, se cuidadamente ponderado, sem se limitar a
algumas impressões «tecnologistas» pouco menos que indigentes, pode trazer
novos e utilíssimos dados, não apenas no âmbito das técnicas utilizadas, mas
ainda no modo de trabalho oficinal e no reflexo que constitui de uma situação
social, como, em alguns casos, dos ajustamentos iconográficos -
e, consequentemente, ideológicos - das
representações.
O painel está pintado a têmpera, sobre madeira de carvalho com a espessura
de 36 mm, e foi cortado em época desconhecida, medindo actualmente 2000 mm de
altura por 845 mm de largura. As intervenções de 1939 e 1961, às quais já
atrás se aludiu, retiraram repintes, permitiram preencher lacunas e fixar zonas
cromáticas levantadas, além de terem incluído uma camada de protecção com
verniz fino. A observação do suporte permite concluir que o painel foi
cortado, pelo menos lateralmente.
O exame à reflectografia de infravermelhos[13],
efectuado há quase quinze anos e mantido inédito até hoje, revelou
muito do desenho subjacente ainda encoberto pela pintura, embora haja
zonas onde o desgaste da camada pictórica permita observá-lo a olho nu.
Numa primeira aproximação, pode dizer-se que houve escasso desenho
criativo (entenda-se original), recorrendo a oficina a pouco traçados e,
sobretudo, a modelos pré-existentes, reutilizados a partir do estresido, e também
a outros meios mecânicos no traçados dos elementos que definem a estrutura da
sala onde decorre a cena. Será de admitir que a ausência de desenho espontâneo
ou outro, em zonas onde hoje não é detectável, resulte do facto de o traço a
carvão usado para esboçar as imagens ter sido absorvido com o tempo,
diluindo-se no preparo. A criatividade do mestre irá mostrar-se, sim, nas
indicações a tracejado das zonas de claro-escuro e na marcação do movimento
dos panejamentos, embora possa considerar-se, por comparação com outras áreas,
estarmos perante desenho muito apoiado.
Começando pelas estruturas e pavimento percebe-se que, no primeiro
caso, foi usado um apoio para traçar as rectas, traçado um tanto inseguro com
desvios sensíveis na continuidade desejável do desenho. O pavimento não foi
desenhado a carvão ou a pena, mas marcado por traçado inciso, quiçá com
ponta metálica, sobre o qual foram pintados os limites da azulejaria.
Sabendo-se que, nesta época, o processo criativo começava habitualmente pelo
traçado do pavimento, será legitimo levantar a hipótese de ter sido esse o
motivo pelo qual a perspectiva do lajeado não é coerente com resto dos
elementos da composição.
No que refere às figuras, verifica-se que os rostos e as mãos são
todos desenhados a partir de meios mecânicos. Melhor dizendo, com base em estresidos
que se vêem nos contornos dos rostos, nos olhos e nas mãos dos dois discípulos,
especialmente no da esquerda.
A cabeça de Cristo é claramente delimitada por um ponteado que define
a zona do cabelo e que não é totalmente preenchida pela camada cromática.
Em alguns dos reflectogramas que tivemos oportunidade de estudar, verifica-se
a existência de
mais ponteado interior à camada cromática e outros contornos
exteriores obtidos por traço forte, provavelmente a unir pontos aqui imperceptíveis.
Nota-se, ainda, que a camada cromática ultrapassa, em alguns pontos, os
contornos dos cabelos e, tanto do lado direito com do lado esquerdo, as madeixas
que caem sobre os ombros de Cristo foram pintadas por cima do referido contorno.
O desenho subjacente do rosto do Cristo, na zona dos olhos, revela que o
traçado primitivo não foi mantido, optando o mestre por uma nova posição,
provavelmente para melhor adaptar a direcção do olhar ao local onde a pintura
iria ser colocada, conseguindo, com as alterações também feitas na colocação
dos olhos do personagem da esquerda, obter uma perfeita triangulação,
convenientemente hierarquizada, entre os rostos das três figuras.
As mãos da figura central foram também obtidas a partir de modelo pré-existente,
depois
rectificado dada a desproporção com o rosto. A mão direita, muito
especialmente, apresenta uma posição evidentemente errada, revelando um
arredondado na base, pouco provável de ser aceite pelo observador. A mão
esquerda também foi modificada quando da aplicação da camada cromática,
rectificando a dimensão dos dedos, originalmente muito afilados e compridos.
Quanto aos dois personagens secundários , e para além das referências
já feitas ao traçado dos rostos, deve referir-se a complexidade do desenho das
mãos, complexidade essa que derivará mais das sucessivas rectificações
introduzidas que da óbvia utilização prévia do estresido. A mão direita
da figura da esquerda teve, pelo menos, uma outra posição, depois abandonada e
os dedos eram mais curtos e mais finos que o apresentado pela imagem pictórica.
Os desenhos, ou moldes, utilizados na sequência do processo criativo são
reveladores da obediência a modelos colhidos em outras fontes, até agora não
determinadas. Todavia, se compararmos a posição das mãos dos personagens da Ceia
de Cristo em Emaús com as posições das mãos dos apóstolos na Última
Ceia de Dirk Bouts talvez possamos encontrar algumas sugestões
operativas...
O exame à reflectografia revela muitos outros pormenores de execução
cujo registo, aqui, se tornaria demasiado fastidioso. No entanto haverá que
referir um pormenor interessante, aliás visível a olho nu por observador
atento. Do lado direito do painel, sobre a cabeça do personagem, é identificável
um desenho, que parece ser uma cadeira com almofada. Este elemento, dadas as
dimensões que apresenta, não faria parte da pintura, pelo que será de
considerar a possibilidade de o painel ter sido destinado, inicialmente, a uma
pintura de outra temática, depois abandonada para ser utilizado na Ceia.
Não existe um estudo físico-químico dos pigmentos, nem esteve nunca
disponível a possibilidade de se proceder ao seu estudo dendrocronológico. No
entanto, existe nos arquivos do MNAA uma velha fotografia, com negativo em placa
de vidro, feita durante o primitivo restauro da pintura e obtida, segundo um técnico
consultado, com radiação ultravioleta que permite reconhecer os acidentes da
superfície e os repintes.
Segundo este documento fotográfico é possível verificar, entre outros
dados menos relevantes, que houve zonas do travejamento pintadas na zona
superior do painel, zonas essas recuperadas no tratamento de 1939.
Depois do exame material, o regresso à imagem
Se o moroso
trabalho de recolha das imagens a reflectografia de infravermelhos nos permite
concluir estarmos perante um trabalho de oficina onde, hipoteticamente, o mestre
ou os discípulos por indicação sua, utilizaram moldes diversos que
estabeleceram a base compositiva para depois ser aplicada a camada cromática.
É exactamente o jogo das cores, as grandes manchas de vermelho, amarelo e azul
dos panejamentos, contrastando com a arquitectura fundeira do interior e a cama
à esquerda, que criam a impressionante harmonia desta pintura, harmonia essa que a primeira fase da sua execução não denunciava. Virá a
propósito, e apenas a título de comentário, salientar que um estudo dos
pigmentos e aglutinantes permitiria identificar o modo de utilização dos
componentes cromáticos da pintura e acrescentar algum conhecimento (confirmando
ou infirmando) ao que já é conhecido dos textos do Monge Teófilo, da primeira
metade do século XII (trad. portuguesa As Diversas Artes), e de
Cennino Cennini, de finais do século XIV, (Il Libro dell'arte, com várias
tradições em diferentes línguas ) , obras que julgamos não serem devidamente
familiares
de alguns técnicos portugueses.
Neste regresso à imagem, podemos ver, acima da cabeça do personagem à esquerda, pintadas partes de traves de uma janela desaparecida com os cortes feitos no painel. A «denúncia» feita por este pormenor, assim como o traçado das linhas de força da pintura, legitima um proposta de reconstituição conjectural (ver imagem infra) do que seria, esquematicamente, o painel completo. Nesta proposta, admitimos a presença da já citada janela, até porque na pintura de ascendência estilística flamenga exigiria a presença de uma zona de iluminação, e, à direita, de uma porta cuja presença também é denunciada no que resta da pintura.

Legenda: A–B; B-b; b-a: a-A: limites da superfície cromática actual
A-a; a-c; c-C;C-a: Zona da tábua da esquerda que terá sido
cortada (dimensão calculada em função das pranchas íntegras)
b-D; d-D; D-B; B-d: Zona da prancha direita que terá sido
cortada.
C-e: c-e; c-E;; d-F; F-F;
F-D; D-d: Pranchas íntegras provavelmente eliminadas quando dos cortes.
Por fim, o que pensar da localização e função da pintura?
A possibilidade de o tema ser apresentado isoladamente não parece provável.
Admitimos e propomos que seja ponderada a possibilidade de ter feito parte de um
conjunto retabular de grandes dimensões e temática eucarística.
Esta última hipótese, inspirada no contexto do recente trabalho de
Fernando António Baptista Pereira, fundamenta-se no facto de Cristo estar a
abençoar um pão partido, tal como ocorreu na Última Ceia, quando dividiu o pão
e o vinho pelos apóstolos.
Um retábulo eucarístico de tão grandes dimensões (não teria, pela lógica
da construção retabular, menos de três painéis) destinar-se-ia a templo de
grande importância e teria sido encomendado por alguém cuja acção mecenática
se tivesse destacado nesse finalizar do século XV. Uma das hipóteses possíveis
é, certamente, o convento de Santa Clara a Velha onde também se encontrava o
imponente retábulo hoje exposto no Museu Machado de Castro. Admitindo-se, como
propõe Baptista Pereira, que essa obra seja das primeiras da oficina de mestre
Vicente Gil, que trabalhou para a rainha D. Leonor, poderíamos pensar ter a Ceia
em Emaús saído da oficina do pintor régio de D. João II mas, como já
entendera Reinaldo dos Santos, há na pintura do MNAA um «sentimento de cor
mais rico e mais profundo» que o do retábulo de Santa Clara. Os
exames laboratoriais, assim como as apreciações estilísticas, recomendam a
devida prudência.
[1]
João COUTO, «Três pinturas da Escola Portuguesa, pertencentes ao Museu
das Janelas Verdes», Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, vol.
1, Fase. 1, 1946
[2]
José Luís PORFÍRIO, A Pintura no Museu Nacional de Arte Antiga,
Lisboa, Inapa, 1992, pp. 173-174.
[3]
José Luís PORFÍRIO, Pintura Portuguesa, Lisboa, Quetzal, 1991, pp.
31-32
[4]
José Alberto Seabra CARVALHO, «A Pintura Quatrocentista. Problemas da
pintura quatrocentista. Obras Isoladas e oficinas regionais», História
da Arte Portuguesa (coord. Paulo Pereira), voI. 2, Lisboa, Círculo de
Leitores, 1995, pp. 473-485.
[5]
João COUTO, «Três pinturas
portuguesas pertencentes ao Museu das Janelas Verdes»,
Boletim dos
Museus Nacionais de Arte Antiga, voI.
1, fase. 1.
[6]
Manuel BATORÉO, Ceia de Cristo em Emaus uma tábua quatrocentista e Os
meios técnicos no estudo da «Ceia de Cristo em Emaús», Lisboa, 1988, inédito,
policopiado.
[7]
Vítor SERRÃO, «Pintura e Vitral», História da Arte em Portugal - Gótico
(coord. Carlos Alberto Ferreira de Almeida e Mário Jorge Barroca),
Lisboa, Presença, 2002, p. 286.
[8]
Id., ibid.
[9]
Pedro DIAS (coord.), História da
Arte em Portugal - O Gótico, vol. 5, Lisboa, Alfa, 1986, p. 167.
[10]
João COUTO, op. cit.
[11]
Fernando António Baptista PEREIRA, Imagens
e Histórias de Devoção. Espaço, Tempo e Narrativa na
Pintura Portuguesa do Renascimento, Tese de Doutoramento apresentada à
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2001, p. 192.
[13]
Devo ao Prof. Doutor Luís Manuel
Teixeira o auxílio com o equipamento de sua propriedade e posterior apoio
no estudo dos resultados do levantamento efectuado, facto que não posso
deixar de recordar e agradecer vivamente.