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Poesia |
| Amor recorrente | ||
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Amor romântico Embalado docemente Estrela cadente Renascida em cântico
Amor outra vez Sem regras, libertino Repentino, audaz Que ainda não satisfaz
Amor falado Palavras sem pecado Desejos ardentes Orgasmo gritado Sémen semeado Corpos dormentes
Amor cansado De tanto prazer De tanta paixão Amor, Pedindo repetição!
Vilamoura, 21.08.2001 |
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| Anglo recto | ||
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Não confies neste anglo recto da vida. São muitas cogitações sobre nós... Perdemos o fio divisor da sensatez prudente e da conquista sem barreiras e condições.
Entrámos pelo funil das aventuras repetidas. Dobrámos o nosso Bojador de receios e medos. Ficámos, algures, numa praia de gente nua, onde tudo é igual, sem interesses acrescidos, sem as emoções que disparam os sentidos.
Navegámos com muitos sóis, estrelas cadentes. Foi uma que caiu, talvez mais perto, que adormeceu o amor que jurámos eterno, porque eternas são apenas as palavras, não a memória delas, ditas ou mesmo tombadas sobre papel amarelecido.
Não sei se é uma carta de despedida, vencida pelo tempo, o que deixámos de ter, de sentir. Desculpa. Só não me apetece repetir.
Lisboa, 31.03.2003 |
| Navegando... | ||
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Vou navegando por esse mar de esperanças. Umas vezes calmo outras tormentoso, quase sempre sem rumo, incerto nos resultados.
Mas é o mar que tenho para navegar. Se dobro o cabo das tormentas, vem a calmaria. Se me queixo da falta de ventos, desaba a tempestade.
Nunca encontrei um mar calmo com vento suave e constante. É assim a vida, que vou vivendo. Intempestiva, mas que me mantém acordado.
Vilamoura, 03.06.2002 |
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| Forças da Natureza | ||
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O sol. As nuvens. A chuva. O relâmpago repentino. O som aterrador do trovão. O céu desabou sobre a terra.
É o dilúvio!
O raio ziguezagueia cortante, queimando, reduzindo a cinzas, vegetação, pedras, árvores, animais, como um laser gigante, vingador. A dor rasga almas, em preces, rezas. Santa Bárbara, lembrada, luz divina. A terra estremece, ressoando o som, estarrecendo, prolongando o medo.
Um ruído surdo, que os animais entendem, vindo do nada, engrossa, abre fendas. Lavra a terra como mil arados sem rumo. Desenraíza troncos, faz rolar as pedras. As casas estremecem, chocalhando. As telhas escorregam pelas empenas. As paredes abrem rachas, esventrando-se. As pessoas morrem sobre os escombros.
É o fim do Mundo!
Eu não sei. Não sei se tive um pesadelo. Já não sei. Distinguir o sonho da realidade. Nunca soube. Pressentir o medo, as agonias, que cortam a vida em fatias desencontradas. Vivo do nada. A minha força entronca algures, nas forças vivas e decepadas da natureza.
Lisboa, 30.12.2003 |
| Melro preto | ||
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Um melro preto saltita sobre a relva, debicando nas clareiras de terra molhada.
Olha em volta, freneticamente, nervoso, desconfiado. Ao mínimo som ou gesto, nas redondezas, o melro foge e acoita-se entre a ramagem das árvores.
O instinto de sobrevivência faz-me pensar na diferença entre nós e o melro preto: - somos quase iguais, apenas ainda não sabemos fugir, a tempo, do perigo eminente.
Amamos andar na corda bamba, em constante desequilíbrio.
Vilamoura, 09-04-2006 |
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| Anglo recto | ||
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Não confies neste anglo recto da vida. São muitas cogitações sobre nós... Perdemos o fio divisor da sensatez prudente e da conquista sem barreiras e condições.
Entrámos pelo funil das aventuras repetidas. Dobrámos o nosso Bojador de receios e medos. Ficámos, algures, numa praia de gente nua, onde tudo é igual, sem interesses acrescidos, sem as emoções que disparam os sentidos.
Navegámos com muitos sóis, estrelas cadentes. Foi uma que caiu, talvez mais perto, que adormeceu o amor que jurámos eterno, porque eternas são apenas as palavras, não a memória delas, ditas ou mesmo tombadas sobre papel amarelecido.
Não sei se é uma carta de despedida, vencida pelo tempo, o que deixámos de ter, de sentir. Desculpa. Só não me apetece repetir.
Lisboa, 31-.03-2003 |
| Folar do Algarve | ||
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Pão amassado dos meus dias, mel dos beijos dados e por dar, canela que retempera a paixão. - És o meu folar doce do Algarve!
Provo-te na levedura crescente, Misturando ingredientes, mexendo saboreando o teu corpo quente, despertando sentidos, tecendo a teia fermentada que dá a forma ao bolo da Páscoa que recriamos a cada dose de dádiva e retoma sentindo cada sensação em pleno do amor contido, agitado e sereno.
Por cada pedaço, um beijo terno, por cada bolo, o amor revive eterno.
Pão amassado dos meus dias, mel dos beijos dados e por dar, canela que retempera a paixão. - És o meu folar doce do Algarve.
Vilamoura, 21-03-.2008 |
| ABC | ||
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A Bê Cê Bê A Bá cartilha não há veja você porquê
Se digo A você diz Bê nem chegamos ao Cê
Com opiniões contrárias temos de achar uma alternativa ou mesmo várias para encontrar a mediania desta relação singular
Eu digo que sim você diz que não discutimos abrimos hostilidades dizemos algumas verdades Você chora eu amuo e ficamos assim toda a tarde
Até que um beijo furtivo que surge do nada faz esquecer tudo e o Mundo desaba e as coisas ficam assim tão simples e agarradas nas bocas, nos olhos nas mãos dadas
Vilamoura, 10.02.2002 |
| Amiga | ||
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Amiga de mil vezes a palavra repetida se fez flor
E desse grito que não‑só‑sexo eu faço eco repercutido nas mil cordas de violino que me tangem a imaginação
É que nas dobras do tempo quando ocaso e nascer se confundem e a vida é um pouco disto‑não‑sei‑quê que nos dá o saber e a ignorância de sermos imortais pela fraqueza‑força dos homens e pitéus na boca das lagartixas preferimos falar de cão‑para‑baixo com os que nos acham sublimes
E é isso que nos resta da contra‑luz com que baptizámos e teimamos em manter este universo‑sem‑eixo que deambulando persegue a sombra projectada em nenhum espaço numa ânsia voraz de se deglutir a si mesmo
Nesta era em que a técnica comanda o ordenador ordena toda a desordem social e faz poemas standardizados de bits incomensuráveis o homem realiza‑se na máquina programada
Mas, se posso dizê-lo sem blasfémia contra novos deuses que teimam em ficar eu me auto programo em linguagem binária para te dizer simplesmente (e já descodificado) nesta axiologia de romântico inveterado
Amiga de mil vezes a palavra repetida se fez flor
Lisboa, 1983 |
| A Porta | ||
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A porta abre e fecha deixa entrar e sair É democrática porque não tem preferências
Mas a porta tem dono e é ele que manda Entram amigos por amizade entram amigos de conveniência entra gente que se faz convidar entra gente que se tem de convidar entram sempre muitas esperanças saem sempre poucas novidades
Mas a porta abre e fecha, sempre até que a fechadura emperra ou as dobradiças cedem sinal de que as contas têm um saldo enferrujado
Vilamoura, 10-02-2002 |
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| Anjo Negro | ||
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Anjo negro da morte, que me queres?
Desfiar os meus pecados, por a nu os meus segredos, dar sentido aos meus medos, cortar as linhas podres que amarram os bocados?
Queres levar-me, assim desfeito, inimigo de mim? Sem uma oportunidade, sem uma última vontade? Pela sucção das tuas asas, adejando sobre os fantasmas que povoam o meu inverno, do Inferno em que vivo?
O que poderia ter sido...
Leva-me, leva-me depressa. Inteiro, aos bocados, como quiseres. Esqueci receios, a terra que abriu sobre os pés, o sal das tempestades, a água que me engoliu e vomitou antes do meu cadáver chegar à foz. A voz, sempre escutada, das saudades, fez-me voltar, vezes sem conta, ao rio.
Chegou o momento de cumprir o destino. Leva-me, leva-me depressa... Anjo Negro da Morte.
Lisboa, 03-05-.2004 |
| Afastamento e recato | ||
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Afasto-me das coisas fúteis do ruído inútil das quezílias estéreis das vãs e inúteis afirmações que não constroem e desunem.
Da palavra fácil e redundante da altivez que esconde o receio das acusações gratuitas dos tolos que as produzem dos que pensam que tendo um pouco têm a mão cheia de tudo e, afinal, só têm mesmo a mão vazia cheia de nada.
Recato-me, cada vez mais na contemplação das vaidades na observação do carácter na leitura das entrelinhas na conjectura da antecipação da queda dos anjos perenes.
Lisboa, 01-11-2007 |
| As formas | ||
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As formas enformam o corpo belo ou feio - não há padrão
Olho, sinto a beleza ou a fealdade conjecturo se agrada esqueço se indiferente
Num ápice percorro da multidão a algumas e quedo-me na contemplação da obra prima do Criador
Vem, vem comigo para a Terra dos Sonhos despidos de preconceitos fazemos amor e voltamos esquecendo tudo
Vilamoura, 02/07/2007 |
| Pinheiro de amor | ||
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Pinheiro da rama farta sobre o meu corpo nu tapando o céu estrelado a lua nua que escondo
A areia é a nossa cama colchão da ternura tardia a brisa a canção que sopra os grãos perenes da vida
pequenos nadas pequenos tudos que nos levam decididos ao fim do Mundo
Vilamoura, 02/07/2007 |
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| Quietude enigmática | ||
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Quero amar-te assim nessa quietude inigmática nessa pose distanciada controlando com mestria sentimentos e emoções
Porque sei que basta um olhar furtivo um toque de pele para despertar o vulcão que trazes dentro de ti
Mergulhado no vôrtice da paixão incendiado da lava incandescente o meu corpo escorre pelo universo em múltiplas centelhas ardentes espalhadas pelo vento ainda morno pelos quatros cantos da Terra
Vilamoura, 03/07/2007 |
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| Voa, voa gaivota | ||
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Voa, voa gaivota
Traça destinos no céu leva-me com a brisa marinha para onde tu fores
E se te afundares no cansaço dos audazes deixa-me a repousar no coral mais colorido para que me una à vida serena e tempestuosa das coisas imortais
Vilamoura, 02/07/2007 |
| Ganso mal degolado | ||
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Desajeitado já era...
agora falo a voz da cabeça quase dependurada do corpo desprendida de um coração triste, sangrando, moribundo
falo por falar, penso porque ainda não morri
esqueceste-te de mim não me deste a prenda não me deste o beijo reconciliador este, sobretudo e não fostes capaz de voltar atrás nunca
vou morrer assim na amargura das coisas fúteis na inutilidade das palavras e bastaria uma e bastaria uma carícia uma tolice qualquer com a ternura dos amantes
mas nada
Mais desajeitado estou... morrendo aos poucos nem sei de quê sem razões para colar de novo uma cabeça assim a um corpo que não me apetece reparar
Lisboa, 22-06-2007 |
| Uma palavra | ||
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das palavras, uma a que te digo ao ouvido segredo só nosso
nos dias nebulosos essa palavra ressoa entranha-se fere, quase mata
nos dias mais claros sobrevém um sorriso uma luz ao olhar um alento ao corpo e com ele fazemos
amor
Lisboa, 12.02.2004 |
| Já está tarde... | ||
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Já está tarde vou-me deitar vou sonhar com ela
Já mais tarde sonho com ela e faço amor com ela
Ainda mais tarde fico com vontade de acordar para voltar a dormir e a sonhar que faço amor com ela
Macau, 5.12.1998 |
| Abismos | ||
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Vou devagarinho pé ante pé experimentando o nada
Quedo-me nos abismos dos silêncios reveladores
Não choro, não grito não digo nada A boca fica cerrada como o túmulo dos fantasmas adormecidos que povoam o meu corpo Cansado.
Lisboa, 27.01.2005 |
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