CHRISTIAN ROSENKREUZ
UM ESTUDO BIOGRÁFICO
Longos anos de estudo do Rosacrucianismo levaram-me à conclusão de que, para um não iniciado como eu, é praticamente impossível levantar a verdadeira e completa biografia do homem que adoptou o nome simbólico de Christian Rosenkreuz e criou a Ordem da Rosa Cruz, uma vez que muitos dos dados informativos constantes do principal documento sobre a sua vida, ou são pura simbologia, ou não se harmonizam com outros testemunhos dignos de crédito, chegando a contradizerem-se. O documento a que me refiro é a Fama Fraternitatis, título abreviado do primeiro dos três Manifestos Rosacruzes, publicado em 1614 em Cassel, Alemanha, sendo os outros o Confessio, dado à estampa na mesma cidade no ano seguinte, e as Núpcias Químicas, publicado em Estrasburgo em 1616[1].
É com este fardo de dificuldades, mas com a ajuda de alguns ocultistas ou místicos consagrados, nomeadamente Rudolf Steimer e Max Heindel, e o recurso a uma intuição metafísica que me tem sido útil, que me aventuro a propor – repito, propor - uma biografia desta enigmática personalidade.
Segundo Rudolf Steiner[2], nos princípios da segunda metade do século XIII formou-se, algures na Europa, um grupo de doze altos iniciados que reuniam toda a sabedora do passado e a ciência do seu tempo, os quais ficaram conhecidos, em círculos muito restritos, como o Colégio dos Doze Sábios[3]. Sete sábios eram reencarnações de santos Rishis da antiga Índia e podiam reviver, intima e claramente, os sete raios da antiga sabedoria da Atlântida e integrá-los em um só; quatro sábios traziam consigo todos os conhecimentos ocultos que se obtiveram durante as primeiras quatro épocas arianas, a Indiana, a Persa, a Egípcia-Caldaica-Babilónica-Assírica e a Greco-Latina; o décimo segundo sábio era um intelectual que assimilou toda a ciência positiva do seu tempo.
A missão destes Sábios era transmitir
todos os seus conhecimentos, ocultos e científicos, a um décimo terceiro elemento, o qual, por seu turno, devia
promover o lançamento de uma nova cultura intelectual
baseada na razão e que iria caracterizar a época que se seguia. Esse décimo
terceiro elemento era, não um
sábio, mas um elevado Ego cujas sucessivas encarnações
foram marcadas pela mais
fervorosa piedade, devoção e humildade, que foi contemporâneo de Jesus e conheceu o Mistério
do Gólgota. Este Ego viria a ser conhecido pelo nome simbólico de Christian Rosenkreuz.
Desconhece-se quando, onde e em que família nasceu[4],
mas sabe-se que mal veio ao mundo foi levado para o colégio de onde nunca mais
saiu; a sua vida, aliás curta, foi passada totalmente isolada do mundo exterior
e na companhia constante dos doze sábios que lhe iam transmitindo todos os seus
conhecimentos, ocultos ou não, e influenciando-o espiritualmente, o que, por um
lado, fortaleceu as suas capacidades espirituais, mas, por outro, enfraqueceu a
sua constituição física, já de si muito débil, a tal ponto que deixou de se alimentar e entrou num estado de extrema
fraqueza.
Produziu-se, então, um fenómeno único nos processos
iniciáticos da Humanidade: o seu corpo físico tornou-se transparente, como se
estivesse cheio de luz, e o Ego saiu dos corpos mais
densos que caíram em profunda catalepsia durante alguns dias, o que, porém, não
impediu que os doze sábios continuassem a transmitir,
a intervalos regulares, a sua sabedoria. Quando o Ego regressou, os corpos mais
densos foram como que dotados de uma alma nova e um espírito renovado, e
recuperaram as forças físicas.
Christian Rosenkreuz referiu as experiências por que tinha passado nesse estado, uma das quais, relacionada com o Mistério do Gólgota, foi semelhante à de Paulo na estrada de Damasco (Ac 9, 3-18), o que possibilitou que as doze concepções religiosas do mundo se sintetizassem numa só, que foi depois legada aos doze sábios a fim de a levarem o mais longe possível; era o verdadeiro Cristianismo, bem diferente daquele que vinha sendo praticado sob a égide da Igreja de Roma.
Pouco depois, ou seja, em
meados da segunda metade do século XIII, o jovem, com pouco mais de vinte anos,
faleceu.
Em 1378[5] Christian Rosenkreuz voltou a encarnar.
Diz o senador belga Franz Wittmans em A New and Authentic History of the Rosicrucians (1919), que um conceituado antiquário da Batávia, chamado Roesgen von Floss, lhe tinha contado que Christian Rosenkreuz nasceu na Turíngia e foi o último descendente dos Von Roesgen Germelshausen[6], o que está de acordo com Maurice Magre (1877-1941) que em Magicians, Seers and Mystic diz que Christian Rosenkreuz foi o último descendente dessa velha família germânica que brilhou no século XIII e cujo castelo se situava na floresta da Turíngia, próximo da fronteira com o Hesse[7], ou, penso eu, onde fica hoje a cidade de Germershausen[8]. Nas proximidades havia um velho mosteiro onde alguns dos monges perfilhavam, em cauteloso sigilo, os ideais cátaros[9], um dos quais, um asceta cujo nome apenas se conhece pelas iniciais P.a.l., vivia no castelo e era preceptor do pequeno Christian, cuja inteligência o maravilhava.
O passado desta família, porém, em nada abonava a sua estirpe aristocrata; eram cruéis, intratáveis, sempre em disputas com os vizinhos e não se coibiam de assaltar viajantes desprevenidos que atravessavam as frondosas florestas da região. Penso que os Germelshausen do século XIV fossem um pouco diferentes: eram cristãos, mas, segundo a opinião local, o seu Cristianismo estava mesclado com um paganismo que muito provavelmente seria confundido com algumas práticas dos mistérios germânicos em que eram iniciados: veneravam um ídolo de pedra já gasta, de origem desconhecida, e teriam tido uma estátua da deusa grega Atena no pátio do castelo, defronte da porta da capela[10]. Era inevitável que esta espiritualidade pouco ortodoxa acabasse por atrair a atenção dos escrupulosos fieis de Roma.
De facto, desde a sangrenta cruzada contra os Albigenses[11] que a Igreja estava empenhada no extermínio de todos os hereges do Sacro Império Romano, para o que criou, em 1231, um eficiente instrumento, a inquisição, cuja acção persecutória se estendia aos países que aceitavam a autoridade espiritual e temporal do papa. É que o movimento de contestação protagonizado pelos cátaros não se esgotara no Languedoc; na segunda metade do século XIV, os partidários de John Wycliff (c. 1328-1384) rejeitavam a autoridade pontifícia concedida por “graça de Deus”, não reconheciam o direito tributário da Igreja, e negavam a doutrina da transubstanciação. A sua influência alastrou por toda a Europa, mas foi na Boémia que se fez sentir com maior intensidade, onde Jan Huss (1369-1415), sacerdote e reitor da Universidade de Praga, iniciou um amplo e reformador movimento religioso que ficou conhecido como Hussita; a Igreja declarou-o herege, excomungou-o e em 1415 o Concílio de Constance condenou-o à fogueira, o que desencadeou as Guerras Hussitas (1420-34).
Foi neste cenário de agitação e revolta contra a Igreja de Roma que, possivelmente por volta de 1385, a inquisição e as tropas papais chegaram à Turíngia, então governada pelo landgraf [12] Balthasar Wettin (1349-1406). No século XIII, a família Germelshausen já tinha atraído o ódio de Conrad de Marburg (falec. 1233), um dominicano fanático, amigo do landgraf Ludwig IV (1200-1227) e director espiritual da sua esposa, Santa Isabel (1207-1231), que se notabilizara pela veemente pregação da cruzada Albigense e pelo extermínio de todos os hereges, fossem cátaros ou não, fossem confessos ou apenas suspeitos; assim, algumas vezes tentou conquistar o castelo dos Germelshausen mas nunca foi bem sucedido.
O mesmo, contudo,
não sucedeu em 1385; as tropas papais cercaram o
castelo e dois dias depois tomaram-no de assalto e massacraram, barbaramente,
todos quantos lá se encontravam, incluindo os servos mais humildes, após o que
arrasaram todas as construções, não deixando pedra sobre pedra.
Quando as tropas papais iniciaram o cerco, P.a.l. conseguiu iludir a vigilância dos sitiantes e fugir para a floresta com o seu pequeno pupilo, então com sete anos de idade[13]. Ao verificar a falta da criança, a inquisição pôs-lhe a cabeça a prémio; porém, P.a.l. era um profundo conhecedor da região e conseguiu evitar as tropas e alcançar o seu mosteiro onde ambos ficaram em segurança.
Foi, pois, num ambiente monástico, austero e duro, que Christian Rosenkreuz foi criado e pôde desenvolver as suas extraordinárias faculdades, alcançando uma cultura brilhante em todos os domínios, nomeadamente em filosofia, religião, línguas e literatura clássicas e ciências da natureza, o que fez com que à sua volta se formasse um pequeno grupo de quatro monges, um dos quais o seu preceptor.
Porém, o ensino ali praticado não podia satisfazer plenamente o seu elevado espírito, ávido de sabedoria[14], e muito menos proporcionar-lhe as altas iniciações de que necessitava; como P.a.l. tinha prometido fazer uma peregrinação à Terra Santa, Christian Rosenkreuz aproveitou o ensejo para ir em busca dos centros iniciáticos que sabia situarem-se no Mundo Islâmico. Assim, terá sido por volta de 1393 que Christian Rosenkreuz, P.a.l. e os outros três monges iniciaram a viagem para Jerusalém, deslocando-se separadamente para não despertarem a curiosidade dos atentos e desconfiados agentes da Inquisição.
Em Chipre,
P.a.l., que acompanhava Christian Rosenkreuz, faleceu, mas o jovem, então com apenas
quinze anos, arrostando com todos os perigos que tal jornada implicava,
prosseguiu a viagem sozinho para Damasco onde terá chegado no ano seguinte.
A Fama diz que Christian Rosenkreuz “... embarcou para Damcar com a intenção de visitar Jerusalém partindo daquela cidade”, e a seguir refere que “em Damcar (...) ouviu falar dos sábios de Damcar, na Arábia ...” e decidiu seguir para esta cidade em vez de Jerusalém[15]; curiosamente, na primeira edição aparece Damascum como destino da etapa iniciada em Chipre, mas na errata que a acompanha aquele topónimo é corrigido para Damcar[16]. Esta passagem não faz sentido, mesmo numa obra alegórica como a Fama, pelo que suponho que o autor haja querido transmitido algo que me escapa, como escapa a autores consagrados que ao referirem esta fase dizem que Christian Rosenkreuz foi de Chipre para Damasco, de onde tencionava seguir para Jerusalém[17].
Segundo a Fama, a fadiga obrigou Christian Rosenkreuz a prolongar a sua estadia em Damasco[18]. Penso que a razão foi outra bem diferente: na Cidade das Trezentas Mesquitas encontrava-se o primeiro centro iniciático que procurava a fim de recapitular, na presente encarnação, as iniciações obtidas em vidas passadas.
Durante os anos que ali passou, Christian Rosenkreuz pôde estudar com sábios e iniciados árabes e persas, estes fugidos dos Mongóis; conviveu e discutiu Astronomia com Nazir Eddin[19] e os seus discípulos, leu e estudou as principais obras de então, como a Guia para os Perplexos e os tratados de dietética, higiene e toxicologia de Maimonides[20], a Alquimia da Felicidade, de Al-Ghazali[21], O Livro dos Prados Dourados, de Masoudi[22], o famoso poema Rubáiyát de Omar Khayyam[23], bem como os seus tratados de álgebra, e entrou nos segredos da iniciação árabe da época.
Entretanto, teve oportunidade de exercer medicina e fê-lo com tal mestria e competência que conquistou a admiração dos turcos
Segundo Emile Dantinne[24] e Asghar Ali Engineer[25], Christian Rosenkreuz esteve em Bassorá com os Irmãos da Pureza.
Os
Irmãos da Pureza, ou Ikhwan al-Safa’
em árabe, formavam uma escola ecléctica de filosofia de inspiração pitagórica,
que floresceu em Bassorá no século X e ficou famosa por um tratado
enciclopédico intitulado Rasa’il-e-Ikhwan us Safa, ou seja Epístolas
dos Irmãos da Pureza, constituído por cinquenta e duas cartas sobre
matemática, astronomia, geografia, música, política, filosofia, religião,
ética, moral, física, etc., abrangendo a totalidade do conhecimento que um
homem poderia adquirir nesse tempo. Este tratado influenciou profundamente
Al-Ghazali[26] e Rashid
al-Din Sinan ibn-Sulayman, o famoso Velho da Montanha, líder dos Assassinos, que
manteve estreitas relações com os Templários.
“Adquiri conhecimento, qualquer espécie de conhecimento, filosófico, jurista, matemático, científico ou divino. Tudo isso é alimento para a alma e para a vida neste mundo e na outra vida”, diz-se numa das epístolas. Numa outra encontra-se uma interessante comparação das qualidades dos homens com a dos animais e os jinn (espíritos da natureza), descrevendo-se o homem ideal como “excelente, inteligente e perspicaz como se fosse de origem persa, árabe na fé, objectivo em religião, iraquiano na maneira de ser, hebreu na tradição, cristão na conduta, sírio em devoção, grego no conhecimento, hindu na visão, místico no seu modo de vida, anjo na sua moral, divino na opinião, devoto no gnosticismo e de qualidades eternas”.
Os Irmãos da Pureza estavam ligados aos Sufis e aos Ismaelitas e, curiosamente, regiam-se por normas de conduta semelhantes às que viriam a ser adoptadas pelos Rosa Cruzes: vestiam-se como os habitantes dos países onde viviam, eram abstémios, ensinavam sem nada cobrarem e, acima de tudo, praticavam gratuitamente a medicina.
Mas os Irmãos da Pureza eram, também, revolucionários, e pregavam contra o regime dos Abássidas que consideravam opressivos e cuja queda, baseados em cálculos astronómicos, predisseram com 240 anos de antecedência.
Como era natural, esta escola tinha dois níveis, o exotérico, aberto a todos os homens e mulheres e que os Irmãos exortavam a serem críticos em relação a todas as religiões, incluindo o Islamismo, e o esotérico, esse reservado escrupulosamente aos iniciados, no âmbito do qual praticavam diversas artes ocultas, principalmente evocação de espíritos, exorcismo e teurgia, chamando os anjos pelos seus nomes. Foi neste nível que Christian Rosenkreuz aumentou os seus conhecimentos materiais e espirituais.
Dada a localização geográfica de Damasco, Bassorá e Damcar e as rotas do comércio, penso que terá sido durante a sua estadia em Damasco que Christian Rosenkreuz se deslocou a Bassorá, tendo depois regressado àquela cidade.
Adquirido o máximo possível de conhecimentos naquelas paragens, Christian Rosenkreuz ficou pronto para outra e mais elevada sabedoria; cientes deste facto, os seus amigos de Damasco orientaram-no para outro centro iniciático localizado em Damcar, na Arábia[27]. Assim, terá sido no final do século XIV ou princípio do XV que Christian Rosenkreuz, guiado pelos turcos, partiu para uma longa viagem de cerca de 2.500 quilómetros para o sul da Península Arábica[28].
A localização desta cidade tem levantado algumas dúvidas, havendo quem admita tratar-se de Sana’a, actual capital do Yemen e que alguns identificam como a antiga capital da Rainha de Sabá (I Reis, 10,1). Acontece, porém, que Damcar está localizada no mapa Africae Tabula Nova, do célebre atlas Theatrum Orbis Terrarum, elaborado em 1570 pelo académico e geógrafo flamengo Abraham Ortelius (1527-1598), ainda hoje elogiado pela sua qualidade e rigor. Damcar, palavra que provavelmente significará mosteiro na areia, é hoje a cidade de Dhamar, situada a 90 quilómetros a sul de Sana’a, na extensa cordilheira, cortada por inúmeros e profundos vales e ravinas, que separa a faixa litoral da Península Arábica do deserto de Rub al’Khali, ou Espaço Vazio, como os antigos chamavam ao imenso Deserto Árabe[29].
O Yemen é um dos mais antigos centros de civilização do mundo e em Dhamar encontra-se uma das mais antigas universidade islâmicas, certamente sucessora do centro iniciático que Christian Rosenkreuz procurava e onde foi recebido, não como um estranho, mas como alguém que há muito os Sábios esperavam e que trataram pelo nome próprio.
Durante os três anos que ali passou, estudou matemática, física e alquimia, tomou conhecimento de novas e mais desenvolvidas práticas médicas, familiarizou-se, com os astrólogos, com os mistérios das estrelas e as virtudes da luz astral, e pôde, ainda, aperfeiçoar o domínio da língua árabe, o que lhe permitiu traduzir para latim o livro M, possivelmente as Epístolas dos Irmãos da Pureza, a que deu o título de Liber Mundi, ou Livro do Mundo, onde se revelam os mistérios do universo, tradução essa que depois levou consigo para a Europa. Mas o mais importante da sua estadia neste centro iniciático foi conhecer os segredos dos adeptos árabes[30] e, certamente. muitos outros jamais revelados.
Concluída esta etapa, foi orientado para outro centro iniciático situado em Fez, cujos mestres se reuniam uma vez por ano com os de Damcar, a fim de trocarem conhecimentos e experiências espiritualistas. Assim, terá sido nos princípios do século XV que Christian Rosenkreuz se despediu dos Sábios e partiu para Fez, via Egipto.
Egipto
A estada nestas paragens foi apenas
a necessária para aprofundar conhecimentos sobre plantas e animais da região e,
muito provavelmente, sobre o esoterismo de Hermes Trismegisto, o mítico sábio
egípcio. Cumprido o propósito que o levara a este país, é possível que haja embarcado
em Alexandria rumo a Melila, de onde terá seguido em caravana para Fez.
Fez
Fez era a
capital de um vasto reino que abrangia o norte de África, governado desde
meados do século XIII pelos Merinides, e sede de um afamado centro de estudos
filosóficos e ocultistas onde se ensinava, entre outras disciplinas, a alquimia
de Abu-Abdallah, Gabir ben Hayan e do imam Jafat al Sadiq, a astrologia e a
magia de Ali-ash-Shabramallishi, e o esotericismo de Abdarrahman ben Abdallah
al Iskari[31].
Neste centro
Christian Rosenkreuz melhorou o seu conhecimento das leis matemáticas, físicas e astrológicas que regem as forças
ocultas da Natureza, entrou nos segredos da Cabala judaica, que considerou
profanada pela religião, e dominou a Magia que lhe permitiu, apesar da sua
falta de pureza, entrar em contacto com os elementais[32]
que lhe confiaram muitos dos seus segredos, nomeadamente a forma de aceder aos
mundos subtis e de controlar, pacificamente, os génios e espíritos da natureza
que ali habitam, bem como a arte de preparar talismãs terapêuticos, transmutar
metais, obter pedras preciosas iguais
às naturais, preparar o Elixir da Vida e a Panaceia Universal, etc.[33]
Dois anos
depois, talvez em meados da primeira década do século XV, Christian Rosenkreuz
partiu para Espanha levando consigo “muitas e valiosas coisas, com a
esperança de que (...) os sábios da Europa se regozijariam consigo”,
como diz a Fama.
Espanha
Chegado a Espanha
entrou em contacto com os Alumbrados, ou Iluminados de Llerena,
uma sociedade secreta criada em Fregenal de la Sierra[34],
na Andaluzia, por influência árabe, que seguia uma filosofia mística derivada
do Hermeticismo e do Neo-Platonismo, e que estudava os livros do misterioso
Artephius[35] com vistas à obtenção da Pedra Filosofal.
Porém, os Alumbrados
consideraram os pontos de
vista de Christian Rosenkreuz excessivamente
avançados para a época e escusaram-se a prestar-lhe o apoio de que necessitava
para cumprir o projecto em que se tinha empenhado, reacção esta idêntica,
aliás, à que encontrou em outras nações europeias por onde passou.
A FRATERNIDADE
DA ROSA CRUZ
Frustados os seus desígnios, Christian Rosenkreuz
regressou à Alemanha, talvez durante a primeira década do século XV, e
construiu uma “adequada e organizada habitação”, no dizer da Fama[36],
onde meditou sobre as suas viagens, tendo-as sintetizado num memorial; estudou
matemática e construiu muitos e excelentes instrumentos relacionados com esta
ciência, a maioria dos quais se terá perdido.
Cinco
anos depois decidiu retomar o seu projecto; chamou os três monges que restavam
do pequeno grupo que se formara em torno de si no mosteiro onde fora criado,
identificados na Fama apenas pelas iniciais G.V., J.A. e J.O., e
ligou-os a si por um juramento de
fidelidade, diligência e secretismo. Estava assim formada, em meados da segunda
década do século XV, a Fraternidade da Rosa Cruz[37].
Segundo a Fama, um dos seus primeiros trabalhos terá sido a criação de uma linguagem e escrita mágicas constantes de um dicionário que foi usado diariamente para louvar e glorificar Deus, bem como a feitura da primeira parte do livro M[38]; porém a sua principal actividade terá sido o tratamento de doentes cujo número os sobrecarregava de tal forma que se viram forçados a chamar mais quatro membros, R.C., primo de Christian Rosenkreuz, B., um pintor de talento, G. e P.D., seus secretários, todos alemães, excepto J.A. do primeiro grupo, solteiros e vinculados à castidade por voto solene.
Entretanto construíram uma nova morada, o Domus Sancti Spiritus, ou Templo do Espírito Santo[39], uma estrutura etérica que envolve uma mansão senhorial situada nas proximidades de Bezvërov, uma pequena povoação checa situada a 100 km a oeste de Praga[40].
Esta primeira geração estabeleceu seis preceitos sagrados:
1. Todos os membros deviam curar gratuitamente os enfermos;
2. Nenhum membro devia usar hábitos especiais, mas seguir os costumes do país onde se encontrasse;
3. Todos os anos, no dia C[41], deviam reunir-se na Domus Sancti Spiritus, ou informar por escrito da causa da sua ausência;
4. Cada irmão devia procurar uma pessoa de mérito para lhe suceder por morte;
5. A palavra C.R. deveria ser o seu selo, marca e carácter;
6. A Fraternidade deveria permanecer secreta durante cem anos.
Entretanto, cinco irmãos partiram para cumprir as suas missões, enquanto Christian Rosenkreuz permanecia no Templo na companhia de dois irmãos que mais tarde se foram revezando com os que tinham partido.
De acordo com o terceiro manifesto, Núpcias Químicas, um verdadeiro märchen germânico pleno de alegorias alquímicas, Christian Rosenkreuz terá atingido a suprema iniciação em 1459, com a idade de 81 anos.
Segundo Confessio[42] Christian Rosenkreuz faleceu em 1484, com 106 anos, mas a localização do seu túmulo ficou desconhecida até que, em 1604, foi casualmente descoberta por N.N., um arquitecto membro da terceira geração da Fraternidade Rosa Cruz.
Tratava-se de uma estranha construção abobadada, com sete lados, cada um com oito pés de altura e sete de comprimento, iluminada por um sol feito segundo o verdadeiro astro.
O acesso fazia-se por uma porta secreta, em cujo topo, curiosamente, se lia "Eu me abrirei dentro de 120 anos", o que era rigorosamente exacto. No centro erguia-se um altar cilíndrico onde, numa placa de cobre, se lia "A.C.R.C. Hoc universi compendum vivis mihi sepulcrum feci"[43]. Um círculo servia de bordadura contendo a frase "Jesu mihi omnia"[44]. Quatro estranhas figuras encontravam-se dentro de círculos, sob os quais haviam sido gravadas outras tantas inscrições: " Nequaquam vacuum ", "Legis ", " Libertas Evangeli " e " Dei gloria intacta "[45].
O centro luminoso do teto estava divido em triângulos, as paredes, ou lados, subdivididas em dez campos quadrangulares e o chão subdividido em triângulos. Cada lado ocultava uma porta que escondia um cofre onde se encontravam diversos objectos, nomeadamente os livros que a Fraternidade possuía, acrescidos do Vocabulário de Theoph. P. ab. Ho (sic)[46]; em outros cofres havia espelhos de múltiplas propriedades, campainhas, lâmpadas acesas (sic), etc.
O altar escondia uma espessa placa de cobre; ao ser levantada revelou o belo e glorioso corpo de Christian Rosenkreuz, perfeitamente intacto e sem o menor vestígio de decomposição, repousando sobre um leito e segurando na mão um pequeno livro em pergaminho e letras de ouro, o livro T, "depois da Bíblia, o nosso tesouro mais precioso" [47].
É, naturalmente, muito difícil conhecerem-se as reencarnações de Christian Rosenkreuz, quer as anteriores á criação da Fraternidade da Rosa Cruz, quer as posteriores, não por falta de relatos, aliás abundantes mas de duvidosa credibilidade, pelo que me vou cingir ás referidas por Max Heindel e Rudolf Steiner.
Segundo Max Heindel[48],
a mais antiga encarnação conhecida de Christian Rosenkreuz
foi como Hiram
Abiff, uma figura bíblica ligada à construção do templo de Salomão, conforme
consta de diversas passagens do Antigo Testamento (1 Rs 7, 13-50, 2 Cr
2, 12 e 13, 2 Cr 4, 11-18, etc.).
Quando Salomão decidiu iniciar a construção do templo em
Jerusalém, pediu a Hiram, rei de Tiro, madeira de cedro do Líbano,
trabalhadores e um astuto artista especializado em trabalhos em metais; esse
artista era Hiram Abiff, filho de uma viuva da tribo de Neftali e de um homem de
Tiro. Hiram Abiff desempenhou as suas funções a contento e “concluiu
(...) toda a obra que o rei Salomão lhe mandara fazer para o templo do
Senhor”, como se diz em 1 Reis 7, 40, após o que se presume que haja
regressado a Tiro.
Mas Hiram Abiff é a principal personagem do ritual maçónico
e protagonista de uma história dramática algo diferente da bíblica: foi ele o
verdadeiro arquitecto do templo de Salomão e morreu às mãos de três rufias que,
contrariamente ao acordado, queriam que lhes revelasse a Grande Palavra
Maçónica que os elevaria de companheiros a mestres maçons.
Hiram Abiff foi depois levantado do túmulo pela forte Garra do Leão de Judá, ou
seja por Salomão, aliás uma prévia encarnação de Jesus, e restituído à vida[49].
Continuemos com Max Heindel para encontrarmos Christian Rosenkreuz encarnado em Lázaro, o homem de Betânia que Cristo “ressuscitou”, conforme consta do Evangelho segundo João (Jo 11, 1-44)[50]. Porém, Rudolf Steiner afirma que Lázaro não passa de uma personagem fictícia que o autor criou para relatar, sob a forma alegórica da “ressurreição” de Lázaro, a sua própria iniciação maior, a primeira que Cristo concedeu a um ser humano, a quem transmitiu uma mensagem que o evangelho iria veicular[51] em termos simbólicos.
De facto, Lázaro é uma personagem que somente aparece no quarto evangelho[52] e apenas por duas vezes: a primeira, para protagonizar o milagre da sua “ressurreição” (Jo 11, 1-44), e a segunda para participar na ceia oferecida a Jesus, em Betânia, durante a qual Maria lhe ungiu os pés e os enxugou com os cabelos (Jo 12, 1-3). Significativo é o facto da “ressurreição” também ser contado por Lucas (Lc 7, 11-17) e por Marcos, este no seu Evangelho Secreto[53], mas sem citarem o nome Lázaro - Lucas limita-se a citar um defunto (...) filho único de sua mãe que era viúva, e Marcos o jovem de Betânia. Igualmente significativo é o facto de Mateus (Mt 26, 6-16), Marcos (Mc 14, 3-11) e Lucas (Lc 10, 38-42) também contarem a ceia em Betânia mas não referem nem sugerem, sequer, a presença de outro homem além de Jesus.
Nesta conformidade
prefiro seguir Steiner e admitir que esta reencarnação de Christian Rosenkreuz
haja sido como João, o discípulo amado do Senhor, que conheceu o Mistério do
Gólgota e foi o autor do quarto evangelho canónico[54].
... e
o Paracleto
Mas esta encarnação envolve um mistério maior, o do Paracleto, tema que merece uma atenção muito especial por ser João o único evangelista a tratá-lo e por estar directamente relacionado com o mistério da Rosa Cruz.
Paracleto é um termo grego que significa defensor, advogado, intercessor, consolador[55], sendo referido por João em seis passagens: cinco no evangelho e uma na Primeira Epístola.
No evangelho, é Cristo quem se dirige aos seus discípulos nos seguintes termos:
1. “Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro[56] Paracleto, para estar convosco para sempre, o Espírito da Verdade que o mundo não pode receber porque não o vê nem conhece, mas que vós conheceis porque habita convosco e está em vós” [57] (Jo 14, 15-17).
2. “Mas o Paracleto, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26)[58].
3. “Mas, quando vier o Paracleto, que vos hei-de enviar da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele testificará de Mim” (Jo 15, 26).
4. “...convém-vos que eu vá, porque se não for, o Paracleto não virá a vós; mas se eu for, mandar-vo-lo-ei. E quando ele vier arguirá o mundo por causa do pecado, da justiça e da decisão do juízo” (Jo 16, 7-8).
5. “Quando o Espírito da verdade vier, guiar-vos-á para toda a verdade; porque ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que hão-de vir. Ele glorificar-me-á, porque há-de receber do que é meu ...” (16, 13-14).
Na epístola, escrita muito depois da morte de Jesus, é João quem se exprime da seguinte forma:
1. “Filhinhos meus, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas se alguém pecar, temos um Paracleto junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” [59] (1 Jo 2, 1-2).
Estas passagens revelam a existência de dois Paracletos, sendo o primeiro, sem dúvida, o próprio Cristo; quanto ao segundo apenas ficamos a saber que se trata
§ de uma entidade já conhecida dos apóstolos, mas desconhecida do mundo,
§ que será enviada pelo Pai, para o que o Cristo terá de partir,
§ que virá ensinar os apóstolos e guiá-los para a verdade, pois anunciar-lhes-á o que tiver ouvido,
§ e que glorificará o Cristo pois receberá do que ao Cristo pertence.
Do que antecede inferem-se algumas conclusões de muito interesse. O segundo Paracleto, ao transmitir aos homens a palavra de Deus, virá prosseguir o trabalho doutrinário desenvolvido pelo Cristo durante o seu ministério, pelo que actuará como se fosse seu substituto. Mas o Cristo foi enviado pelo Pai (cf. v.g. Jo 16, 5); logo, o seu substituto também terá de ser enviado pelo Pai; porém, “ninguém vem ao Pai senão por mim” (14, 6), advertiu o Cristo. Nestas condições, este terá de partir a fim de levar o seu substituto ao Pai e possibilitar, assim, a sua vinda. Uma vez substituído, o Cristo passará, como primeiro Paracleto, a interceder junto do Pai pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. Quanto ao segundo Paracleto, parece tratar-se de um ser humano e que terá de ser iniciado pelo Pai através do Cristo, a fim de poder prosseguir o seu trabalho doutrinário.
Considerando:
§
e que Rudolf Steiner
afirmou, a propósito do profundo significado do Prólogo, que “o
mistério da Rosa-Cruz pode ser visto como uma continuação do Evangelho de João”
[61],
admito que o segundo Paracleto seja o Ego que encarnou como João e mais tarde como Christian Rosenkreuz.
A
corroborar esta minha suposição há a curiosa passagem do final do Evangelho de
João em que Pedro perguntou ao Senhor o que seria feito daquele discípulo que Jesus amava, aquele que estivera reclinado
sobre o seu peito, durante a ceia, tendo
este respondido Que te importa se eu quero que ele fique até que eu venha?,
resposta esta que deu origem ao rumor, entre
os irmãos de que aquele discípulo não morreria (Jo 21 – 23).
Segundo Max Heindel o Conde de Saint Germain foi uma das últimas reencarnações de Christian Rosenkreuz[62].
Se é extremamente difícil levantar a biografia do fundador da Ordem da Rosa Cruz, a deste enigmático gentil homem não o é menos; não se sabe quando nasceu; não se sabe quando morreu, se é que de facto morreu; não se sabe qual a sua família; não se sabe qual o seu verdadeiro nome; enfim, o que se sabe sobre o Conde de Saint Germain é muito pouco.
Sabe-se que era um homem robusto, de estatura média, testa ampla, rosto oval, sempre elegantemente vestido, embora com simplicidade, mas algo extravagante no que respeitava a diamantes, pelos quais parecia ter uma verdadeira obsessão já que os usava no relógio, na corrente, na caixinha de rapé e nas fivelas dos sapatos. Tinha um total à vontade onde quer que estivesse e tratava a nobreza em pé de igualdade. Possuía uma riqueza incalculável, mas vivia com a maior das simplicidades; era de uma probidade absoluta e senhor de uma cultura inigualável; era poeta, músico, escritor, médico, físico, químico, mecânico, pintor, mas o seu grande talento era como alquimista.
Sabe-se
que tinha um particular apreço por
elegantes jantares, não pela comida, já que nunca comia nem bebia em público e
apenas se alimentava com uma mistura de farinha de aveia e sêmola que ele mesmo
preparava, mas pelo convívio, pois era um incansável e excelente conversador;
falava fluentemente francês, inglês, espanhol, português, alemão, italiano,
boémio, árabe, grego, latim, sânscrito e chinês, e a sua prodigiosa memória
permitia-lhe contar pormenores de episódios de um passado longínquo como se os
tivesse vivido, o que alimentava os rumores sobre a sua extraordinária
longevidade.
De facto, diz-se que ao longo de mais de dois
séculos Saint Germain esteve em diversos países europeus, conviveu com a mais
alta nobreza, tendo privado com Luís XV de França e madame Pompadour, mantendo
sempre o mesmo aspecto, o de um gentil homem de quarenta e cinco ou cinquenta
anos.
Quanto às datas do seu nascimento e morte, a maioria dos seus biógrafos situa a primeira em 1710, ano, porém, em que dois amigos afirmam tê-lo encontrado em Veneza já com o seu aspecto de sempre; quanto à sua morte, a mesma é oficialmente situada em 27 de Fevereiro de 1784, sobre a qual Mirabeou compôs um curioso epigrama: "Foi sempre um tipo descuidado e, por fim, tal como os seus predecessores, esqueceu-se de não morrer".
Porém, Saint Germain continuou a ser visto um pouco por toda a parte; logo no ano seguinte representou os maçons franceses na convenção de Wilhemsbad; em 1786 foi recebido por Catarina a Grande, em S. Petersburgo; em 1788 terá sido embaixador da Itália em Portugal (!); em 1793 assistiu em Paris à execução de Jeanne Dubarry, amante de Luís XV, e de Maria Antonieta; em 1798, usando o nome de Hompesch, era o grão-mestre de uma loja militar dos Cavaleiros de Malta onde Napoleão Bonaparte terá sido admitido durante a sua campanha no Egipto; em 1821 assistiu às negociações do Tratado de Viena, e o conde de Chalons, embaixador francês em Veneza, afirmou que, pouco tempo depois, falara com ele na Praça de S. Marcos, em Veneza; mais de um século depois, concretamente em 1939, um aviador americano cujo aparelho se despenhou nas imediações de um mosteiro tibetano, contou que entre os monges havia um europeu que lhe disse ser o conde de Saint-Germain.
Quanto
à sua origem a opinião mais generalizada considera-o o filho mais velho do príncipe Francis II Rákóczy, da Transilvânia
(1676-1735), e da sua primeira mulher, Charlotte de Hesse-Rheinfels[63],
e que ele e os seus irmãos tinham sido levados para Viena a fim de serem criados pelo imperador
austríaco; porém, aos sete anos foi dado como morto para poder ser entregue aos
cuidados de João Gastão de Médicis, grão duque da Toscânia; o nome de Saint
Germain, terá sido adoptado porque passou alguns anos da sua infância em San
Germano, uma vila situada a cerca de 60 quilómetros a oeste de Milão. Quando a princesa Amélia, da
Prússia, lhe perguntou de onde era, respondeu
ser de um país que nunca tivera por soberanos homens de origem
estrangeira; a outra senhora que
pretendia saber as suas origens, disse que tudo quanto lhe podia dizer era que,
aos sete anos, vagueava pelas florestas com o seu preceptor, que tinha a cabeça
a prémio e que, na véspera da fuga, a mãe, que não tornaria a ver, lhe metera o
retrato debaixo do braço, confissão esta que nos transporta, fatalmente, à fuga pelas florestas
da Turíngia, do pequeno Christian Germelshausen e do seu preceptor P.a.l.
A última reencarnação
– Rasputine ou Rákóczy?
Em 1908 Max Heindel
escreveu que Christian Rosenkreuz "está hoje encarnado - um alto
Iniciado, um activo e poderoso factor em todos os assunto do Ocidente - embora
desconhecido do Mundo"[64],
mas, por não ser permitido, não revelou
o seu nome. Algum tempo depois confessou que admitira a hipótese de esta última
encarnação ter sido como Rasputine, que pouco antes fora assassinado, o que à
primeira vista é no mínimo surpreendente [65].
De facto, a ideia que geralmente se faz de Rasputine (1869-1916) é a de um falso monge, iletrado, semilouco,
depravado, que dominou a família imperial russa graças a um estranho poder que
lhe permitia estancar as hemorragias do
pequeno tsarevich que sofria de hemofilia; esquece-se, porém, outra
faceta, a que levou milhões de russos a venerarem Rasputine como um santo, que
sempre fez tudo para ajudar quem se lhe
dirigisse com seriedade, sem nada pedir em troca.
Outros autores, porém, inclinam-se para um descendente dos Rákóczy ou para o próprio Francis II Rákóczy, da Transilvânia, o que no entanto pode não passar de um equívoco resultante da possível origem do Conde de Saint Germain, equívoco esse de que Max Heindel não se terá apercebido ou não terá querido esclarecer. Recorde-se que em 1908 o "homem que tudo sabe e que nunca morre", como disse Voltaire, estaria, provavelmente, nos Himalaias, para onde teria ido nos finais do século XVIII a fim de descansar, como confessou aos seus amigos Rudolf Gräffer e barão Linden[66].
Disse no prefácio
que para levar a cabo este estudo biográfico tive de me apoiar em ocultistas ou
místicos consagrados, mas também de me
socorrer de uma certa intuição metafísica, a qual me levou a aceitar autores como
Asghar Ali Engineer, Emile Dantinne, Pierre Montloin, Jean-Pierre
Byard e Reginald Merton, cujos textos me pareceram dignos de crédito. No entanto,
estou consciente de que não se pode dar como certo tudo quanto escreveram sobre
Christian Rosenkreuz e o Rosicrucismo.
Reginald
Merton, por
exemplo, situa o nascimento de Christian Rosenkreuz e o massacre dos
Germelshausen no sec. XIII, o que está em contradição com o Confessio e
com o que diz Rudolf Steiner. Admito que este lapso se deva ao facto de, no
sec. XIII, Christian Rosenkreuz ter sido preparado pelo Colégio dos Doze
Sábios. O mesmo se passa, aliás, com a conceituada rosicrucista Corinne Heline,
ao dizer que a Ordem da Rosa Cruz foi fundada em 1313, discrepância esta para a
qual não encontro explicação.
Nestas
condições, estou certo que esta biografia deve ser encarada com reservas e
sujeita a correcções, pelo que desde já
muito agradeço a eventual colaboração de leitores que tiveram a paciência de me
seguir até ao fim.
António Monteiro
Janeiro de 2007
§
Asghar Ali Engineer, Rasa’il-e Ikhwan us
Safa (Epístolas
dos Irmãos da Pureza), em http://www.amaana.org/ikhwan/
ikhwan1.html
§
Bernard Gorceix
, A Bíblia dos Rosa-Cruzes, trad. Frederico Pessoa de Barros, São Paulo,
Editora Pensamento, 1977
§
Comentários
de Bernard Gorceix e Frances Yates sobre Christian Rosenkreutz, 2005, blog em http://fudosi.blogspot.com/
2005/10/comentrios-de-bernard-gorceix-e.html
§
Crinne
Heline, Mysteries of the Holy
Grail.
§
Frances Yates, The Rosicrucian Enlightenment, Boulder, Colorado,
USA, Shambhala, 1978,
§
Manly P. Hall, Secret Teachings of all Ages, Los Angeles, The
Philosophycal Research Society, Inc., 1977
§
Max Heindel, The Rosicrucian Cosmo-Conception, 28ª ed., Oceanside,
CA, USA, The Rosicrucian Fellowship, 1977.
§
Max Heindel, A
Fiosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas, 2 vol., trad. não indicado, São
Paulo, Brasil, Fraterni-dade Rosacruz, Sede Central do Brasil, s/ data.
§
Max Heindel, A Maçonaria
e o Catolicismo, trad. cedida pelo
Centro Rosacruciano de Lisboa, Lisboa, Edições Alfaó-mega, 1979
§
Pierre Ceria e
François Ethuin, O Enigmático Conde de S.
Germain, trad. Adelino S. Rodrigues,
Lisboa, Editorial Minerva, s/data,
§
Pierre Montloin
e Jean-Pierre Byard, Os Rosa-Cruz, Lisboa, Edições 70, 1979
§
Reginald Merton,
Christian Rosenkreutz , in http://www.alchemylab.com/christian_rosenkreutz.htm.
§
Artigo Rosicrucian, in Wikipedia in en.wikipedia.org
§
Rudolf Steiner, O
Evangelho segundo João, trad. Jacira Cardoso, S. Paulo, Brasil, Editora
Antroposófica, 1985.
§
Rudolf Steiner, The Mission of Christian Rosenkreutz, Its Character
and Purpose, GA 130, trad. inglesa de Dorothy Osmond
Notas
[1] Os títulos completos são os seguintes:
Fama -
Allgemeine und General
Reformation, der gantzen weiten Welt. Beneben der Fama Fraternitatis, dess
Löblichen Ordens des Rosenkreutzes, an alle gelehrte und Häupter Europæ
geschrieben: Auch einer kurtzen Responsion von des Hern Haselmeyer gestellet,
welcher desswegen von den Jesuitern ist gefänglich eingezogen, und auff eine
Galleren geschmiedet: Itzo öffentlich in Druck verfetiget, und allen trewen
Hertzen comuniceret worden Gedrucht zu Cassel, durch Wilhem Wessell, Anno
MDCXIV ,
(Reforma geral e universal de todo o vasto mundo. Com a Fama da Fraternidade da mui louvável ordem dos Rosacruzes, dirigida a todos os sábios e dirigentes da Europa. Tendo, também, uma curta resposta enviada pelo senhor Haselmeyer, por causa da qual foi preso pelos Jesuítas e condenado às galés. Agora posta à discussão em letra de forma e comunicada a todos os sinceros corações. Publicado em Cassel por Wilhem Wessel, 1614).
Confessio - Secretoris Philosophiæ Consideratio brevis a Philipp a
Gabella, Philosophiæ St conscripta, et nunc primum una cum Confessione
Fraternitatis R.C. in lucem edita Cassellis, Excudebat Guillelmus Wessellius
Illmi. Princ. Typographus. Anno post natum Christum MDCXV,
(Breves considerações da mais secreta filosofia escritas por Filipe de Gabela, estudante de filosofia, agora divulgadas pela primeira vez com a Confissão da Fraternidade R.C. Publicado em Cassel por Wilhem Wessel, tipógrafo do ilustríssimo príncipe, Ano após o nascimento de Cristo 1615).
As Breves Considerações são um interessante texto rosicrucista, infelizmente muito pouco divulgado.
Núpcias Químicas - Chymishe Hochzeit Christiani Rosencreutz. Anno 1459, Strasburg, 1616 (Lazarus Zetzner),
(Núpcias químicas de Christian Rosenkreuz no Ano de 1459, Estrasburgo, 1916 (Lazarus Zetzner).
Sobre as personagens citadas nos títulos dos dois primeiros manifestos apenas se sabe que Haselmeyer, citado na Fama, disse ter visto no Tirol, em 1610, um exemplar manuscrito deste manifesto e que em 1613 havia outro em Praga.
Quanto à sua autoria, a Fama e o Confessio são anónimos mas normalmente atribuídos ao pastor luterano alemão Johann Valentin Andreæ (1586-1654), autor das Núpcias Químicas. Curiosamente, Andreæ sempre os referiu como ficção, ou comédia, e classificava o movimento Rosacruz como ludibrium, uma atitude na qual os estudiosos vêm uma tentativa, algo infantil, de ocultar a sua ligação à Ordem dos Rosacruzes.
[2] The Mission of Christian Rosenkreutz, Its
Character and Purpose,
passim.
[3] Goethe faz alusão a este colégio no seu poema Die Geheimisse (Os Mistérios).