A TÁBUA DE ESMERALDA
“O que está em baixo é como o que está em cima”
Este é, sem dúvida, o axioma mais citado nas obras ocultistas, principalmente as que versam temas alquímicos, reportando-se os seus autores à Tábua de Esmeralda ou a Hermes Trismegisto, porém pouco ou nada mais adiantando sobre estas origens. Nestas condições, parece curial perguntar:
- O que é a Tábua de Esmeralda?
- O que está ali escrito?
- Quem é, ou foi, Hermes Trismegisto?
São as respostas possíveis a estas perguntas que vou procurar dar, uma vez dizerem respeito a matérias que se situam no campo da Filosofia Rosacruz e o axioma em causa ser frequentemente lembrado por Max Heindel; são as respostas possíveis, disse, pois tudo está envolto em mitos e símbolos, o que dá origem a diversas versões do texto e a opiniões divergentes sobre o seu autor.
AS ORIGENS
Nada há que permita
estabelecer, com alguma segurança, a origem real, não da tábua propriamente
dita - que, de resto, ninguém jamais viu - mas do texto que se diz ter sido ali
gravado. Tudo quanto se sabe é que a referência mais antiga que se conhece,
encontra-se num escrito árabe dos fins do século VIII, atribuído a Geber (ou
Jabir) ibn Hayyan; no mundo cristão, Santo Alberto Magno (1200-1280) conhecia a sua versão
em latim. Segundo o professor Georg Luck, a versão árabe pode reflectir um
original grego que se perdeu, e a versão latina poderá ter sido feita a partir
da árabe [1].
Desde então a Tábua de Esmeralda ou, para ser mais preciso, o seu texto, tornou-se famoso nos meios ocultistas em geral e nos alquimistas em particular, por ser considerado, essencialmente, uma fórmula alquímica relativa, quer à transmutação dos metais básicos, quer à divina regeneração humana. Daí que, com o correr dos tempos, a versão inicial em latim fosse sendo substituída por sucessivas traduções em línguas modernas, algumas das quais da autoria de nomes famosos como Isaac Newton, H.P.Blavatsky e Fulcanelli.
Há, no entanto, duas versões e dois autores que, por serem aceites pela maioria dos estudiosos, iremos apresentar: a primeira – e que reúne o maior consenso - afirma que o texto foi escrito, em caracteres fenícios, por Hermes Trismegisto; a segunda, cuja defesa está quase confinada à Maçonaria, pretende que o texto - que, aliás, pouco difere do anterior - foi escrito, em caracteres caldaicos, por Chiram, ou Hiram, ou ainda Hiram Abiff, o construtor do Templo de Salomão.
Há, ainda, uma terceira e inevitável opinião sobre textos, caracteres e autores, a dos críticos materialistas para os quais tudo não passa de uma fraude dos primeiros tempos da Idade Média; não percamos mais tempo com ela ...
Na versão mais consensual, o texto começa com a frase Palavras secretas de Hermes, e antes de terminar diz ... por isso sou chamado Hermes Trismegisto, porque possuo as três partes da sabedoria de todo o mundo; daí que se atribua a sua autoria a Hermes Trismegisto, embora não se saiba, com um mínimo de segurança, quem foi esta personagem, nem se existiu, sequer.
O AUTOR
Na mitologia grega,
Hermes, filho de Zeus e da ninfa Maia, era o mensageiros dos deuses;
calçava sandálias com asas e usava um capacete também com asas; empunhava,
sempre, o célebre caduceu, uma vara onde se entrelaçavam duas serpentes,
encimada por um par de asas. Mas Hermes era mais do que isto: era o condutor
das almas dos mortos ao mundo subterrâneo e tinha poderes mágicos sobre o sono
e os sonhos; era o deus do comércio e o protector dos negociantes e dos
rebanhos; era o deus dos atletas e o protector de ginásios e estádios; e era,
ainda, o responsável pela boa sorte e riqueza. Apesar destas virtuosas
características, era velhaco, impostor e ladrão; logo no dia em que nasceu
roubou o gado do seu irmão Apolo e ocultou o rasto fazendo com que os animais
andassem para trás; ao ser confrontado, negou tudo. Os irmãos acabaram por se
reconciliar quando Hermes ofereceu a Apolo um seu novo invento, a lira.
Hermes
Trismegisto será o aspecto humano do deus grego, e Thoth (ou Toth) o seu equivalente
egípcio; Thoth significa Serpente, e a serpente era o símbolo do
Conhecimento, da Sabedoria; o epíteto Trismegisto, Três Vezes Grande,
vem do facto de Thoth ser o maior filósofo, o maior sacerdote e o maior rei.
A Hermes Trismegisto é atribuída, também, a autoria de tratados eclécticos do século I d.C, sobre filosofia mística do helenismo, onde se fundem elementos platónicos, estóicos, órficos e neopitagóricos, e que defendem a salvação através do conhecimento de Deus, cuja manifestação visível é o Sol. Estes tratados, transmitidos sob o nome de Hermética, exerceram grande influência na Idade Média e no Renascimento, nomeadamente nos domínios da alquimia e magia.
* *
*
Há uma outra versão, deveras curiosa, da
autoria de Doreal, uma personagem que se diz relacionada com a Grande Loja
Branca e que em 1925 foi autorizada a ir à Grande Pirâmide buscar, não a Tábua,
mas as doze Tábuas de Esmeralda, copiá-las e voltar a colocá-las no
mesmo sítio; acrescenta que só agora teve autorização de tornar público parte
do seu conteúdo, para o que se serve
... da Internet.
Para Doreal, Thoth, o
seu autor, era um rei-sacerdote atlante que, cerca do ano 50.000 a.C. e antes
da Atlântida desaparecer no mar, fundou uma colónia no antigo Egipto que
governou até 36.000 a.C. Quando chegou o tempo de partir, construiu a Grande
Pirâmide sobre a entrada dos Grandes Vestíbulos (por onde as almas
passam a caminho do julgamento), onde guardou as doze Tábuas de esmeralda
verde, uma substância criada por transmutação alquímica, imperecível e
indestrutível.
Não vou transcrever tudo quanto Doreal foi autorizado a revelar, pois só a versão, em inglês, da primeira tábua tem 8.416 caracteres; os mais curiosos poderão consultá-las em http://www.rainbow-nation.co.uk/frame_set_ancient_manuscript.html
Em latim, da autoria de Heinrich Khunrath [2]:
Verba secretorum Hermetis -
Verum, sine mendacio, certum et verissimum: quod est inferius est sicut quod
est superius; et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda
miracula rei unius. Et
sicut omnes res fuerunt ab uno, mediatione unius, sic omnes res natae fuerunt
ab hac una re, adaptatione. Pater ejus est Sol, mater ejus
Luna; portavit illud Ventus in ventre suo; nutrix ejus Terra est. Pater omnis
telesmi totius mundi est hic. Vis ejus integra est si versa fuerit in terram.
Separabis terram ab igne, subtile a spisso, suaviter, cum magno ingenio.
Ascendit a terra in coelum, iterumque descendit in terram, et recipit vim
superiorum et inferiorum. Sic habebis gloriam totius mundi. Ideo fugiet a te
omnis obscuritas. Hic
est totius fortitudine fortitudo fortis; quia vincet omnem rem subtilem,
omnemque solidam penetrabit. Sic mundus creatus est. Hinc erunt adaptationes
mirabiles, quarum modus est hic. Itaque vocatus sum Hermes Trismegistus, habens
tres partes philosophiæ totius mundi. Completum est quod dixi de operatione
Solis.
* * *
A maioria
das traduções em línguas ocidentais apresenta algumas diferenças, pelo que
achei por bem integrá-las na versão que se segue:
Se tudo quanto se
refere à Tábua de Esmeralda é nebuloso, então a interpretação do texto está
ainda mais envolta em nuvens, a não ser, naturalmente, para um verdadeiro
alquimista.
Apesar de tudo, vamos apresentar a explicação que
nos é dada por outra personagem misteriosa, Hortulano, ou Jardineiro,
assim chamado por causa dos jardins marítimos, diz ele! Há quem
pretenda que o seu
verdadeiro nome seja Joanes Grasseus e que viveu no século XV. A. E. Waite, em A
Irmandade Rosa-Cruz, menciona um alquimista parisiense do século XIV, de
nome Ortholanus, autor de uma Alquimia Prática e de uns
comentários à Tábua de Esmeralda, e Julius Évola, em A Tradição Hermética,
cita um Ortulano e os seus Comentários à Tábua Esmeraldina. Seja
como for, a explicação da Tábua de Esmeralda, feita por Hortulano, é a que se
segue.
Louvor, honra e glória lhe
sejam dadas para sempre, ó Senhor Deus Todo Poderoso! Com vosso querido filho
Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e único Homem Perfeito, e com o
Santo Espírito Consolador - Trindade Santa -, Vós que sois o único Deus.
Dou-vos graças porque, havendo conhecido as coisas passageiras deste mundo,
inimigo nosso, vós me retirastes dele, por vossa misericórdia, para que eu não
fosse pervertido por suas enganosas voluptuosidades. E, como vejo muitos que
trabalham nessa arte não seguirem o recto caminho, suplico-vos, meu Senhor e
meu Deus, que, se assim vos aprouver, eu possa desviar do erro, pela ciência
que me destes, todos meus queridos e bem amados, a fim de que, conhecendo a
verdade, possam louvar vosso santo Nome, que seja eternamente bendito. Assim,
pois, eu, Hortulano, - isto é, Jardineiro -, assim chamado por causa dos
jardins marítimos, indigno como sou de ser chamado discípulo da Filosofia,
movido pela amizade que devo aos meus amados, quis deixar escrita a declaração
e explicação das palavras de Hermes, pai dos Filósofos, ainda que sejam
obscuras, aclarando sinceramente toda a prática da verdadeira Obra. Certamente,
de nada serve que os Filósofos queiram esconder a ciência nos seus escritos
quando está operando a doutrina do Espírito Santo.
CAPÍTULO I
A ARTE DA ALQUIMIA É CERTA E VERDADEIRA
O Filósofo disse: "é verdade",
referindo-se a que a arte da Alquimia nos foi dada. "Sem mentira",
disse, para convencer quem diz que a ciência é mentirosa ou falsa.
"Certo", isto é, experimentado, pois tudo o que foi experimentado é
muito certo. E "muito verdadeiro", pois o muito verdadeiro Sol é
procriado pela arte. Disse "muito verdadeiro" no modo superlativo
porque o Sol engendrado por esta arte ultrapassa a todo Sol natural em todas
suas propriedades, tanto medicinais como outras.
CAPÍTULO II
A PEDRA DIVIDIR-SE-Á EM DUAS PARTES
Continuando
sua exposição, trata da operação da pedra, dizendo que "o que está em
baixo é igual ao que está em cima". Disse isso porque, pelo Magistério, a
pedra divide-se em duas partes principais: a superior, que vai para cima, e a
inferior, que permanece em baixo, fixa e clara. E, sem dúvida, estas duas
partes são semelhantes em virtude de ter dito: "o que está em cima é como o que está em baixo".
Certamente esta divisão é necessária. "Para fazer os milagres de uma só
coisa", isto é, da Pedra, pois a parte inferior é a Terra, a nutriz e o
fermento; a parte superior é a Alma que vivifica toda a Pedra e a ressuscita.
Por isso, uma vez realizadas a separação e a conjunção, aparecem os
"numerosos milagres" na Obra secreta da Natureza.
CAPÍTULO III
A PEDRA POSSUI, EM SI MESMA, OS QUATRO ELEMENTOS
E "do mesmo modo que todas as coisas são e vêm do Uno por mediação do
Uno". Aqui o Filósofo exemplifica dizendo que todas as coisas "são e
vêm do Uno", isto é, de um globo confuso ou de uma massa confusa,
"por mediação", quer dizer, pelo pensamento e pela criação do Uno, ou
seja, de Deus todo poderoso. Assim, todas as coisas nasceram, ou saíram, desta
coisa única, que é uma massa confusa, "por adaptação", unicamente
pelo mandado e milagre de Deus, assim, a nossa Pedra nasce e surge de uma massa
confusa, que contém em si todos os elementos e que foi criada por Deus, e por
seu milagre a nossa Pedra sai dali e
nasce.
CAPÍTULO IV
A PEDRA TEM PAI E MÃE, QUE SÃO O SOL E A LUA
Do
mesmo modo que vemos um animal gerar naturalmente outros animais com ele
parecidos, assim o Sol gera artificialmente o Sol, pela virtude da
multiplicação da pedra, e por isso continua: "o Sol é seu Pai" - o
Ouro dos Filósofos. E, dado que em todas as gerações naturais tem de haver um
lugar próprio para receber as sementes com uma certa conformidade de semelhança
entre as partes, assim também é preciso que, nesta geração artificial da Pedra,
o Sol tenha uma matéria que seja a matriz adequada para receber o seu esperma e
a sua tintura. E isto é a Prata dos Filósofos, por isso continua dizendo:
"a Lua é a sua mãe".
CAPÍTULO V
A CONJUNÇÃO DAS PARTES É A CONCEPÇÃO E A GERAÇÃO DA PEDRA
Quando ambos se recebem um ao outro na concepção da
Pedra, esta é engendrada no seio do Vento, e isto é dito em seguida: "o
Vento a trouxe em seu seio". Sabe-se que o Vento é o ar, e o ar é vida, e
a vida é a alma, que, como já foi dito antes, vivifica a Pedra. Assim, pois, é
necessário que o Vento traga toda a Pedra e a transporte, gerando o Magistério.
Disso se infere que a Pedra deva receber o alimento de sua nutriz, a Terra.
Disse ainda o Filósofo: "a Terra é sua nutriz". Pois, como a criança
que sem o alimento que recebe de sua mãe jamais cresceria, assim também a nossa
Pedra jamais chegaria a existir sem a fermentação da Terra, e o fermento
chama-se alimento. Deste modo, por conjunção do pai com a mãe se geram os
filhos, semelhantes aos pais, e que, se são submetidos a um demorado cozimento,
tornar-se-ão semelhantes à mãe e terão o peso do pai.
CAPÍTULO VI
A PEDRA É PERFEITA SE A ALMA SE FIXA NO CORPO
Continua: "o pai de tudo, o Telesma de
todo o mundo está aqui". Isto é, na obra da Pedra há uma via final. E nota
que o Filósofo chama a operação o
"pai de tudo", o "Telesma", ou seja, todo o tesouro ou segredo de todo o mundo,
ou ainda, toda Pedra que se tenha
encontrado neste mundo. "Está aqui", como se dissesse: "aqui te
mostro". Pois o Filósofo disse: "Queres que te mostre quando está
acabada e perfeita a força da Pedra? Será quando ela se tenha transformado e
convertido na sua Terra", por isso disse: "a sua força e potência
serão completas, isto é, perfeitas, se se converte e se transforma em
Terra". Isto é, se a alma da Pedra (da qual antes se fez menção, dizendo
que a alma é chamada Vento ou Ar e que nela está toda a vida e força da Pedra)
se transforma em Terra da Pedra e se fixa, de tal maneira que toda a substância
da Pedra esteja de tal modo unida à sua nutriz (a Terra) que toda a Pedra se
transforme em fermento. De igual modo, quando se faz pão, um pouco de levedura
nutre e fermenta uma grande quantidade de massa, mudando assim toda a
substância da pasta em fermento; da mesma maneira, o Filósofo indica que a
nossa Pedra terá de ser fermentada de modo a servir, ela mesma, de fermento
para a sua própria fermentação.
CAPÍTULO VII
A
PURIFICAÇÃO DA PEDRA
Continuando, ensina como se há-de
multiplicar a Pedra, mas antes faz referência à purificação da mesma e à
separação das suas partes, dizendo: "Separarás a Terra do Fogo, o subtil
do espesso, suavemente e com grande perícia". "Suavemente", ou
seja, pouco a pouco e sem violência, ou melhor, com espírito e habilidade, e
por meio do excremento ou esterqueiro filosofal. "Separarás", isto é,
dissolverás, pois a dissolução é a separação das partes. "A Terra do Fogo,
o subtil do espesso", isto é, a sujeira e a imundície do Fogo, do Ar, da
Água e de toda a substância da pedra, de modo que permaneça, na sua totalidade,
sem mancha alguma.
CAPÍTULO VIII
A PARTE NÃO FIXA DA PEDRA HÁ-DE SEPARAR-SE
DA PARTE FIXA E ELEVAR-SE
Assim preparada, a Pedra já pode ser multiplicada. Por isso, aqui coloca a
multiplicação e fala da fácil liquefacção ou fusão desta por aquela, virtude
que tem de ser penetrante nos corpos densos e subtis, dizendo: "Subirá da
Terra ao Céu e de novo descerá à Terra". Aqui, há que indicar que, ainda
que a nossa Pedra, durante a sua primeira operação, se divida em quatro partes
- os quatro elementos -, existem nela duas partes principais, como já se disse
antes: uma que sobe, chamada não fixa ou volátil, e outra que permanece fixa em
baixo, chamada Terra ou fermento. Mas há que se ter uma grande quantidade da
parte não fixa para se dar à Pedra quando esta estiver limpa e sem manchas, e
terá de ser dada por meio do Magistério tantas vezes quantas as necessárias,
até que, por virtude do Espírito, ao sublimá-la e fazê-la subtil, toda a Pedra
seja levada para cima. Disto fala o Filósofo quando diz: "Sobe da Terra ao
Céu".
CAPÍTULO IX
LOGO TERÁ DE SER FIXADA A PEDRA VOLÁTIL
Feito tudo isso, há que se incinerar esta pedra
(assim exaltada e elevada ou sublimada), com o azeite extraído dela mesma
durante a primeira operação, chamado água da Pedra. E far-se-á que retorne
amiúde, sublimando-a, até que, pela virtude da fermentação da Terra (com a
Pedra elevada ou sublimada), toda a Pedra desça ao seio da Terra por
reiteração, permanecendo fixa e fluida. É isso que disse o Filósofo: "...e
descerá de novo à Terra, deste modo recebe a força das coisas superiores",
sublimando, "e das inferiores", descendo, isto é, o corporal se
tornará espiritual durante a sublimação e o espiritual se tornará corporal
durante a descida, quer dizer, quando se reveste de matéria.
CAPÍTULO X
DA UTILIDADE DA ARTE E DA EFICÁCIA DA PEDRA
"Por esse meio, terás a glória do mundo",
isto é, com esta Pedra, assim composta, terás a glória de todo o mundo e
"toda a obscuridade se afastará de ti", quer dizer, toda pobreza e
enfermidade. "É a força forte de toda força", pois não há comparação
entre a força desta Pedra e as outras forças deste mundo, "pois vencerá
toda coisa subtil e penetrará toda coisa sólida". "Vencerá", ou
seja, ao vencer e ao elevar-se, transformará e mudará o mercúrio vivo,
congelando-o, por mais subtil e brando que seja, e penetrará os demais metais,
que são corpos duros, sólidos e firmes.
CAPÍTULO XI
O MAGISTÉRIO IMITA A CRIAÇÃO DO UNIVERSO
Continuando, o Filósofo dá um exemplo da
composição de sua Pedra, dizendo: "Assim foi criado o mundo". Assim,
temos que a nossa pedra se faz da mesma maneira que foi criado o mundo, pois as
primeiras coisas de todo o mundo, e tudo o que no mundo tenha havido, foi
previamente uma massa confusa, sem ordem, um caos, como dito antes. E, depois,
por artifício do soberano Criador, essa massa confusa, após ter sido
admiravelmente separada e rectificada, foi dividida em quatro elementos; e,
devido a tal separação, são feitas diversas e diferentes coisas. Assim também
se pode fazer diversas e diferentes coisas pela produção e disposição da nossa
Obra e pela separação dos elementos dos diversos corpos. "Disso sairão
admiráveis adaptações", isto é, se separares os elementos, far-se-ão as admiráveis
composições próprias da nossa Obra, na composição da nossa Pedra, por conjunção
dos elementos rectificados. Das quais, isto é, destas coisas admiráveis
e adequadas a tal fim, o "meio", quer dizer, o meio de proceder
"está aqui".
CAPÍTULO XII
DECLARAÇÃO ENIGMÁTICA DA MATÉRIA DA PEDRA
"Por isso sou chamado Hermes Trismegisto",
isto é, Mercúrio três vezes muito grande. Depois de haver mostrado a composição
da Pedra, o Filósofo declara, de modo enigmático, de que é feita nossa Pedra,
nomeando-se a si mesmo. Em primeiro lugar, para que os seus discípulos, quando
chegarem a esta ciência, se recordem sempre do seu nome. Sem dúvida, aquilo com
que se faz a Pedra é tratado a seguir quando ele diz "porque tenho as três
partes da Filosofia de todo o mundo", que estão, as três, contidas na
nossa Pedra, isto é, no Mercúrio dos Filósofos.
CAPÍTULO XIII
POR QUE SE DIZ QUE A PEDRA É PERFEITA
Diz-se que essa Pedra é perfeita porque tem,
em si, a natureza das coisas minerais, vegetais e animais, daí ser chamada
tríplice e também triuna, isto é tríplice e única, que possui em si quatro
naturezas, isto é, os quatro elementos, e três cores: o negro, o branco e o
vermelho. Também é chamada "Grão de trigo", que, se não morre, fica
sozinho; porém, se morre, (como antes se disse quando se falou da conjunção)
trará muitos frutos, assim que se cumpram as operações de que temos falado. Ó
amigo leitor! Se já sabes a operação da Pedra, verás que te disse a verdade; se
não a sabes, não te disse nada. "O que foi dito da Operação do Sol está
cumprido e acabado". O que se disse da operação da Pedra de três cores e
de quatro naturezas que estão em uma única coisa, a saber, no Mercúrio
Filosofal, está cumprido e acabado.”
Manly P. Hall, eminente ocultista e grande admirador de Max Heindel, apresenta na sua monumental obra The Secret Teachings of All Ages (Los Angeles, CA, Philosophical Research Society, 1977, pp. CLVII e CLVIII), uma versão um pouco diferente da Tábua de Esmeralda e que consta de uma colecção de manuscritos alquímicos do Dr. Sigismund Bacstrom.
Bacstrom (sec. XVIII – XIX) foi um dos mais importantes eruditos em Alquimia dos últimos tempos. Pouco se sabe da sua vida a não ser que era natural da Escandinávia, que viajou por todo o mundo como médico a bordo de um navio, e que em 12 de Setembro de 1794, nas Ilhas Maurícias foi iniciado na Sociedade da Rosa Cruz pelo conde Louis de Chazal, na altura um venerável ancião de 96 anos, que lhe ensinou a Grande Obra. Mais tarde instalou-se em Londres e criou um centro de estudos de Alquimia onde se traduziram inúmeros documentos alquímicos antigos, cuja proveniência permanece em mistério e aos quais Madame Blavatsky teve acesso.
Esta versão tem muito a ver com a antiga Maçonaria, como dissemos, mas também com a Ordem Rosacruz, uma vez que Hiram Abiff é uma anterior encarnação de Lázaro, que mais tarde reencarnou como Christian Rosenkreuz.
Quando Salomão empreendeu a construção do célebre templo, pediu ao rei
de Tiro, Hiram[4],
que lhe fornecesse cedros do Líbano em troca de produtos agrícolas. Hiram
rejubilou com tal pedido e, para além da madeira, enviou-lhe um artífice
chamado, também, Hiram, ou Huran-Abi,
filho de uma viúva da tribo de Neftali e de um homem de Tiro, um
artista dotado de grande saber, inteligência e habilidade para fazer toda a
espécie de trabalhos em ouro, prata, bronze, ferro, madeira, púrpura e
linho (1º Rs, 5 e 2ª Cron, 2).
A lenda maçónica vai mais longe e diz que o verdadeiro construtor do célebre monumento foi Hiram Abiff [5], o único homem que conhecia os segredos de um Mestre Maçon, incluindo o maior de todos os segredos, a Grande Palavra Maçónica, o nome de Deus, o nome inefável.
Na construção do templo trabalharam,
durante sete anos, mais de 85.000 homens, tendo sido prometido que aos mais
laboriosos, os companheiros maçons, seria conferido o grau de Mestre
Trabalhador, ou Maçon, no fim da obra. Porém, houve quinze companheiros que quiseram ser
recompensados mais cedo, mas Hiram Abiff recusou; então três deles, Jubela,
Jubelo e Jubelum, esperaram que o Mestre saísse do Santo dos
Santos, onde ia sempre ao meio dia prestar culto e preparar os planos de
trabalho para o dia seguinte, e, sucessivamente, exigiram que lhes fosse
revelado o segredo. Hiram foi recusando, mas o terceiro matou-o com um golpe do
seu malho. Os três rufias, como ficaram conhecidos na lenda maçónica,
enterraram o corpo longe da cidade, assinalaram a sepultura com um ramo de
acácia e fugiram. Ao notar a falta do Mestre, os restantes doze companheiros
maçons confessaram a Salomão o que se tinha passado e o rei, perante o seu
juramento de inocência, mandou-os, em grupos de três, em perseguição dos
fugitivos que acabaram por ser capturados e justiçados. Entretanto, ao ver o
ramo de acácia, um dos grupos descobriu o corpo e tentou retirá-lo da
sepultura, mas não conseguiu; Salomão foi ao local e com o aperto de mão
de Mestre Maçon, o Forte Aperto de Mão da Pata do Leão, não só
levantou o corpo como o restituiu à vida. A partir de então, a Grande
Palavra Maçónica foi passada, apenas, de Mestre para Mestre Maçon.
De The Secret Teachings of All Ages tirou-se este texto que Bacstrom afirma ser o original da Tábua de Esmeralda, bem como a transcrição dos seus manuscritos e as explicações dadas por Manly. P. Hall, que chama a atenção para o facto de os textos originais irem escritos em letras maiúsculas; na tradução, essencialmente literal, respeitei os caracteres em itálico, as iniciais maiúsculas e os parêntesis curvos e rectos.
* * *
“A Tábua de Esmeralda, o Mais Antigo Monumento dos Caldeus relativo ao Lapis Philosophorum (a pedra dos filósofos).
“A Tábua de Esmeralda fornece a origem da história alegórica do Rei Hiram (Chiram, de preferência). No que respeita a Chiram, Caldeus, Egípcios e Hebreus foram buscar os seus conhecimentos à mesma e única fonte; Homero, que relata esta história de maneira diferente, seguiu esse original e Virgílio seguiu Homero, como Hesíodo aproveitou o assunto para a sua Teogonia, e que Ovídio tomou depois para modelo da sua Metamorfoses. O conhecimento das operações secretas da Natureza constitui o principal sentido de todos estes antigos escritos, mas a ignorância extraiu deles essa mitologia exterior e velada que as classes mais baixas do povo passaram a idolatrar.
“A genuína tradução do Original e
Muito Antigo Caldeu é a seguinte:
“OS TRABALHOS SECRETOS DE CHIRAM, UM EM ESSÊNCIA, MAS TRÊS EM ASPECTO.
“(As duas primeiras letras grandes significam Trabalho Secreto)
“(A segunda linha de letras grandes diz Chiram Telat Mechasot, ou seja Chiram o Agente Universal, Um em Essência mas três em aspecto)
“É VERDADE, SEM MENTIRA, CERTO E PARA CONTAR. O SUPERIOR CORRESPONDE AO INFERIOR, E O INFERIOR AO SUPERIOR PARA FAZER AQUELE VERDADEIRAMENTE MARAVILHOSO TRABALHO. COMO TODAS AS COISAS DEVEM A SUA EXISTÊNCIA À VONTADE DO ÚNICO UM, ASSIM TODAS AS COISAS DEVEM A SUA ORIGEM À UMA ÚNICA COISA, A MAIS OCULTA, POR DISPOSIÇÃO DE O ÚNICO DEUS. O PAI DESSA UMA ÚNICA COISA É O SOL, A SUA MÃE É A LUA. O VENTO TRANSPORTOU-A NO SEU VENTRE, MAS A TERRA ESPIRITUAL DEU-LHE O ALIMENTO. ESSA UMA ÚNICA COISA (conforme Deus) É O PAI DE TODAS AS COISAS NO UNIVERSO. O SEU PODER É PERFEITO DEPOIS DE TER SIDO UNIDO À TERRA ESPIRITUAL.
“(Processo: Primeira Destilação) SEPARA ESSA TERRA ESPIRITUAL DO DENSO OU GROSSEIRO POR MEIO DE UM CALOR BRANDO COM MUITA ATENÇÃO.
“(Último Cozimento) EM GRANDE QUANTIDADE ISSO SOBE DA TERRA AO CÉU E DESCE OUTRA VEZ, RENASCIDA, NA TERRA, E O SUPERIOR E O INFERIOR AUMENTAM EM PODER.
O Azoth sobre da Terra desde o fundo do Copo e, voltando a descer por Veios, cai na Terra e por esta circulação contínua o Azoth fica mais e mais subtilizado, Volatilizes Sol, e trás consigo os átomos Solares volatilizados e por isso torna-se Azoth Solar, isto é, o nosso terceiro e genuíno Mercúrio Sófico, e esta circulação do Azoth Solar tem de continuar até parar por si mesmo e a Terra o tenha sugado todo, altura em que se transforma na matéria negra escura, o Sapo [as substâncias na retorta alquímica e também os elementos mais baixos do corpo humano] , que representa a completa putrefacção, ou a Morte do Composto.
“POR ISTO PARTILHARÁS DAS HONRAS DE TODO O MUNDO.
Sem dúvida, como a matéria escura, negra, tem necessidade de se transformar em Branca e Vermelha, e tendo sido o Vermelho levado à perfeição, medicinalmente e para os Metais, é então completamente capaz de preservar mentem sanam in corpore sano até o período natural da Vida, e assegurar-nos amplos meios, multiplicáveis até o infinito, para ser benevolente e caridoso sem nenhuma diminuição dos nossos inesgotáveis recursos naturais, pelo que isso bem pode ser chamado a Glória [Honras] de Todo o Mundo, como verdadeiramente o estudo e a contemplação do L.P [Lapis Philosophorum], harmonizado com as Divinas Verdades, eleva a mente até Deus, nosso Criador e misericordioso Pai, e se Ele nos permitir possui-lo, a Avareza, Inveja e Más Inclinações são praticamente erradicados, e os nossos corações fundem-se em gratidão para com Ele que tão bondoso tem sido para connosco! Por isso os Filósofos dizem com grande Verdade que o L.P. encontra um homem bom ou o faz.
“E A ESCURIDÃO FUGIRÁ DE TI.
Revigorando os Órgãos e usando-os para comunicar com os objectos exteriores, a Alma deve adquiri grandes poderes, não só para conceber mas também para reter, e, por isso, se desejamos obter ainda mais conhecimento, os órgãos e as fontes secretas da vida física, sendo maravilhosamente fortalecidas e revigoradas, a Alma adquire novos poderes para conceber e reter, especialmente se pedirmos o conhecimento a Deus e confirmarmos as nossas orações com a fé, toda a Obscuridade tem de ser varrida. Se isto não foi o caso de todos os possuidores, a falta foi sua por se contentaram meramente com a Transmutação dos Metais.
“ESTE É O FORTALECIMENTO DE TODOS OS PODERES.
È uma figura muito forte, o indicar que o L.P. possui todos os Poderes ocultos na Natureza, não para a destruição, mas para a exaltação e regeneração da matéria nos três Departamentos da Natureza.
“COM ISTO SERÁS CAPAZ DE VENCER TODAS AS COISAS, A TRANSMUTAR TUDO O QUE É FINO E O QUE É GROSSEIRO.
É claro que isso conquistará todas as Coisas subtis, como fixará o mais subtil Oxigénio na sua própria Natureza ardente, e isso com mais poder, penetração e virtude, na proporção de um para dez em toda a multiplicação, e cada vez num período mais curto, até o seu poder se tornar incalculável, que o poder multiplicado também penetrará [vencerá] todas as Coisas Sólidas, tais coisas invencíveis Ouro e Prata, ao invés o inalterável Mercúrio, Cristais e Vidro Fundente, aos quais é capaz de dar dureza natural e firmeza, como Philaletha reconhece, e se prova com o Diamante artificial, nos tempos do meu pai, na posse do Príncipe de Lichtenstein em Viena, avaliado em Quinhentos Mil Ducados, preparado pelo Lápis [Pedra dos Filósofos].
“ASSIM FOI CRIADO O MUNDO; OS ARRANJOS PARA SEGUIR ESTE CAMINHO ESTÃO OCULTOS. POR ESTA RAZÃO SOU CHAMADO CHIRAM TELAT MECHASOT, UM EM ESSÊNCIA MAS TRÊS EM ASPECTO. NESTA TRINDADE ESTÁ OCULTA A SABEDORIA DE TODO O MUNDO (isto é, em Chiram e no seu Uso].
Diz-se que Hermes foi Moisés ou Zoroastro, Hermes significa uma Serpente e a Serpente costumava ser um Emblema do Conhecimento ou da Sabedoria. A Serpente encontra-se por todo o lado entre os Hieróglifos dos antigos Egípcios, assim é o Globo com Asas, o Sol e a Lua, Dragões e Grifos, por onde quer que os Egípcios mostraram os seus sublimes conhecimentos do Lápis Philosophorum, de acordo com Suídas, as alusões na Escrituras e mesmo com De Non onde fala dos santuários dos antigos templos egípcios.
“ACABA AGORA O QUE
DISSE SOBRE OS EFEITOS DO SOL. FIM DA TÁBUA ESMERALDA.
O que disse ou ensinei do Trabalho Solar está agora acabado. A Semente Perfeita adequada para a multiplicação. “Isto eu sei que é reconhecido ser a genuína Tábua de Esmeralda de Hermes”
Parafraseando o Jardineiro dos
jardins marítimos, diria que o
que se disse da Tábua
de Esmeralda, está cumprido e acabado, já que, seja na
versão fenícia de Hermes Trismegisto, seja na caldaica de Chiram, dei a conhecer o texto em que se insere o célebre
axioma alquímico
“O que está em cima é como o que está em baixo” ...
Outubro de 2005
[1] In Arcana Mundi,, John Hopkins
University Press, 1985, p. 368
[2] Heinrich Khunrath,
ou Kunrath, (c. 1560 – 1605), médico alemão e alquimista, autor de uma obra
célebre, Amphitheatrum sapientiae aeternae. O seu motto era “Was helffn Fackeln, Liecht oder Brilln,
Wann die Leute nicht sehen wölln?" (Para que servem tochas, luz ou
óculos aos que não vêem?)
[3] Thelesma, ou Thelesme, ou
ainda Telesmi, palavra difícil, enganosa, que aparece traduzida
por estudiosos como coisa completa, expressão que se
julga a mais próxima da ideia original.
[4] Hiram, rei de Tiro no século X a.C., foi uma figura histórica.
[5] Abiff é uma expressão hebraica de respeito, que quer dizer pai.