MARIA MADALENA E O SANTO GRAAL

 

- UMA ANÁLISE ESPECULATIVA DE

O CÓDIGO DA VINCI -

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

O Código Da Vinci, de Dan Brown,[1] é um estrondoso êxito literário: as edições, em todo o mundo, contam-se aos milhões; o mercado livreiro não para de ser inundado por ondas de livros relacionados com o tema; na Internet multiplicam-se os sites, uns a favor e alguns com visitas virtuais aos locais onde a acção decorre, outros contra; no nosso país, em princípios de 2005 a Abreu, em colaboração com um mestre maçon, organizou uma viagem à Itália subordinada ao tema Em busca de Maria Madalena; a RTP 1 dedicou-lhe um programa; e nos EUA, Ron Howard acabou de rodar um filme baseado no livro, para a Columbia Pictures, interpretado por Tom Hanks.

Em boa verdade, além de proporcionar algumas horas de agradável leitura, O Código Da Vinci  tem o inestimável mérito de estimular a reflexão crítica de alguns leitores e de os levar a questionar a versão oficial das Igrejas Cristãs sobre alguns passos da vida de Jesus, o que, porém, nem sempre é feito da forma mais ponderada e correcta, porque se esquece que o livro não passa de um romance policial, um thriller, cuja acção é, até, um sonho da principal personagem; assim sendo, o autor pode dar asas à sua imaginação e contar com a benevolência dos leitores para uns tantos erros históricos e deficiências de interpretação, não só de textos do Cristianismo primitivo, como de algumas obras de arte. Daí que uma leitura mais superficial leve o leitor a concluir que a Igreja mantém uma colossal mentira de dois mil anos, ocultando o facto de Jesus ter sido casado com Maria Madalena, que teve  descendência, e que sua mulher, como portadora do seu sangue, era o verdadeiro Graal.

Não posso subscrever estas conclusões por uma razão muito simples - Jesus não era um homem vulgar, mas sim um alto iniciado que há dois mil anos já tinha atingido a Terceira Iniciação Maior [2], em que as necessidades sexuais e as conveniências matrimoniais há muito haviam ficado para trás. Consequentemente, decidi analisar estas questões à luz dos Ensinamentos Rosacruzes de Max Heindel e da verdadeira natureza dos evangelhos, canónicos e apócrifos, sem dúvida os únicos documentos credíveis para se conhecer algo da vida de Jesus e um pouco dos ensinamentos do Cristo.

 

 

 

 

OS  EVANGELHOS [3]

 

 

Ao longo dos primeiros tempos da nossa era foram-se formando igrejas cristãs por todo o Império Romano, onde a religião dominante era o Mitraísmo.

Mitra, um deus solar, salvador do mundo, nascido no solstício do Inverno de uma mãe virgem[4]  e crucificado no equinócio da Primavera, viu o seu culto surgir na Pérsia por volta do ano 400 a.C. O Mitraismo foi-se espalhando para Ocidente e chegou ao Império Romano em meados do século I a.C., onde lhe foi acrescentado o mito cósmico do sacrifício de um touro [5] e se tornou um culto de legionários que procuravam a protecção dos deuses nos campos de batalha ou no além; daí que, em 303 A. D., o imperador  Diocleciano (245-313), antigo militar, tenha declarado o deus Mitra Sol Invictus, Protector do Império Romano.

Foi com esta religião que as primitivas igrejas tiveram de se defrontar, o que não terá sido difícil porque, em boa verdade, o Cristianismo já existia muito antes da vinda do Cristo, conforme nos assegura Santo Agostinho (354-430), em As Retractações (428): (...) o que hoje se denomina religião cristã existia na antiguidade e desde a origem do género humano até que Cristo se encarnou, e é dele que a verdadeira religião que já existia começou a chamar-se cristã (...) [6]. Assim, as novas igrejas adoptaram, com naturalidade, muitas das crenças, mitos e práticas ritualistas do Mitraísmo, até que nos finais do século IV se tornaram suficientemente fortes para substituir Mitra por Jesus Cristo.

Sem dúvida que a Igreja tem de agradecer este ascendente ao imperador pagão  Constantino, o Grande (c. 280-337), o qual, apesar de se ter convertido à nova fé apenas no leito de morte, promulgou em 313 o Édito de Milão reconhecendo o Cristianismo como uma das religiões autorizadas no Império Romano, e em 325 convocou o primeiro concílio ecuménico, em Niceia, onde foram tomadas decisões fundamentais. O “golpe de misericórdia” no deus persa foi desferido em 380 por Teodósio, o Grande (c. 346-395), ao  elevar o Cristianismo a religião oficial do Império Romano[7] e estabelecer a pena de morte aos seguidores das seitas heréticas extremistas.

 

Para falar sobre Jesus e pregar os ensinamentos do Cristo, as primeira igrejas tiveram de se socorrer da tradição oral, mas logo que apareceram os primeiros documentos escritos[8] foram adoptando-os, porém segundo critérios muito subjectivos, o que, a partir dos finais do século I  favoreceu o aparecimento de correntes de pensamento que mais tarde iriam ser consideradas heréticas, como o Gnosticismo, o Arianismo e outras. Muitos desses primitivos textos perderam-se, enquanto outros apenas sobreviveram em fragmentos mais ou menos deteriorados, ou chegaram ao nosso conhecimento por terem sido citados por autores eclesiásticos a fim de os refutar.

Esta falta de unidade doutrinária cedo começou a preocupar as principais figuras do Cristianismo, como Ireneu (140-202), bispo de Lion, que defendeu a existência de quatro evangelhos, nem um a mais nem um a menos [9]; porém,  esta pluralidade de critérios somente iria terminar com a definição do cânone do Novo Testamento, acordada  no Sínodo de Roma (382)  e nos concílios de Hipona (393) e de Cartago (397) [10].

Conta a tradição que a escolha dos evangelhos verdadeiros foi feita por eleição milagrosa. Depois dos bispos terem rezado, quatro dos textos apresentados voaram por si sós e foram poisar sobre um altar; seguidamente, os bispos puseram todos os textos sobre o altar e os que iriam ser considerados apócrifos caíram ao chão, enquanto aqueles quatro permaneceram imóveis; depois, pediram a Deus que,  caso nestes quatro evangelhos houvesse qualquer palavra falsa, os fizesse tombar, o que não sucedeu; finalmente,  o Espírito Santo entrou na sala do concílio sob a forma de pomba e, poisando no ombro de cada um dos bispos, foi-lhes sussurrando ao ouvido os títulos dos evangelhos autênticos e dos falsos. Certamente que alguns dos prelados eram surdos, pois os quatro  evangelhos canónicos foram aprovados ... mas não por unanimidade!

Penso que a escolha dos evangelhos canónicos teve a ver, não com rezas episcopais nem visitas columbinas, mas com outros factores bem diferentes. 

O Mitraismo era, essencialmente, uma religião  de mistérios, onde se ensinava a evolução do Universo e o destino da humanidade, e cujas cerimónias se desenrolavam no secretismo de caves e grutas. A admissão à Militia Mitræ, ou Exército de Mitra, que lutava contra Ahriman, o Mal e a Morte, era feita baptizando o candidato com sangue de um touro sacrificado, após o que o grão-pontífice [11] fazia o sinal da cruz na sua fronte; seguia-se a  comunhão com pão e vinho, segundo uns, ou pão e água, segundo outros, abrindo-se, então, ao neófito uma via iniciática com sete passos que lhe iam conferindo, sucessivamente, os títulos de Corax (corvo), Nymphus (noivo), Miles (soldado), Leo (leão), Peres (persa), Heliodromus (pista de corridas do Sol), e Pater (pai), passos esses que se encontravam sob a protecção dos sete astros então conhecidos, Mercúrio, Véus, Marte,  Júpiter, Lua, Sol e Saturno, respectivamente.

As igrejas nascentes acharam por bem adoptar os mistérios mitraicos pelo que foram instituindo as suas próprias escolas, muito embora a sua existência fosse contrária ao universalismo da religião cristã e, consequentemente, às características essencialmente exotéricas do seu ensino. Porém, a esmagadora maioria dos cristãos não estava – como ainda não está - preparada para compreender e aceitar toda a realidade subjacente à Palavra do Cristo, pelo que lhes era dada apenas uma piedosa e mítica doutrina exotérica, embora mesclada aqui e ali com alguns traços de espiritualidade, enquanto que aos mais evoluídos, moral e intelectualmente, lhes era proporcionado um ensino conforme à realidade cósmica, mas em segredo; é o que se depreende de algumas passagens dos evangelhos, em especial  a revelada por Marcos em 4, 10-12:                                  

 10. Quando se acharam a sós, os que o cercavam e os doze indagaram dele o sentido da parábola. 11. Ele disse-lhes: A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora tudo se lhes propõe em parábolas, 12.  A fim de que olhando, olhem e não vejam, e ouvindo, ouçam e não entendam, não suceda que voltem sobre os seus passos e se desliguem.[12]  

Não conheço as actas do sínodo e dos concílios atrás citados, mas admito que os participantes, ao discutir este problema, tenham começado por separar todos os escritos em duas categorias: os que podiam ser dados a conhecer às massas, e os que tinham de ficar secretos, reservados a iniciados, isto é, apócrifos, pois é este o significado literal deste termo grego. Para a primeira categoria foram escolhidos, apenas, quatro evangelhos, respeitando-se, assim, a opinião do influente Ireneu; para a segunda foram remetidos os textos gnósticos, entre os quais o célebre Evangelho de Tomé [13], e outros que não podiam ser tornados públicos, aos quais foram sendo juntos todos os que ficaram fora do cânone, quer os heréticos, quer os que não passam de piedosas fábulas ou historietas sem bases factuais; terá sido por esta razão que o termo apócrifo perdeu o seu sentido original e passou a ser sinónimo de documento não autêntico, que contém erros.

Os quatro evangelhos escolhidos para a primeira categoria foram Mateus, Marcos, Lucas e João. Os Evangelhos de Mateus e de Marcos estão relacionados com duas escolas de mistérios menores, a primeira  vocacionada para os cristãos da Palestina e a segunda para todos os outros; o Evangelho de Lucas é um texto exotérico de uma escola misticista e universalista; por fim, o Evangelho de João será o único proveniente de uma escola de mistérios maiores, como se percebe de trechos como o Prólogo, a descrição de uma Primeira Iniciação Maior, metaforizada pelo relato da “ressurreição” de Lázaro, a referência ao Paracleto e outros, bem como da significativa ausência de parábolas[14].

Nos finais do século IV, com a unificação do Cristianismo, as escolas de mistérios que estavam por detrás dos evangelhos canónicos foram extintas; creio, porém, que o Vaticano mantém, no mais rigoroso secretismo, pelo menos uma destas escolas onde alguns papas e altos dignitários serão iniciados.

 

Nesta conformidade, estou perfeitamente convicto de que nenhum dos evangelhos, canónicos ou apócrifos, seja uma biografia de Jesus, como pretende a igreja dominante em relação aos primeiros[15], e  que somente um iniciado nos mistérios das escolas com que os mesmos se relacionaram, está em condições de os interpretar, correcta e integralmente, por serem alegorias, algumas bem elevadas, de uma realidade espiritual muito superior á sua materialidade factual. Assim, para um não iniciado poder compreender algo do que os seus autores quiseram transmitir, restar-lhe-á a sua capacidade intuitiva, alimentada pelo que alguns ocultistas e místicos, como Max Heindel, Rudolf Steiner, Corinne Heline, Elsa Glover, C. Leadbeater e outros, foram revelando.

É o meu caso.

 

 

 

MARIA MADALENA

 

 

Feita esta breve exposição sobre os evangelhos, passo, agora, à figura-chave de O Código Da Vinci:  Maria Madalena.

Muitos estudiosos pretendem identificá-la com uma de três mulheres citadas nos evangelhos canónicos: a do vaso de alabastro que ungiu Jesus com um perfume caro[16] e que Lucas acusa de pecadora [17], a adúltera que Jesus salvou da morte por lapidação[18], e a irmã de Marta e de Lázaro, que ungiu Jesus e lhe enxugou os pés com os cabelos[19]. Há, ainda, quem vá mais longe e pretenda que Maria Madalena era o discípulo amado e que o quarto evangelho é da sua autoria.

Em minha opinião, estas pretensões carecem de fundamento por motivos que radicam nos únicos documentos que nos permitem identificar Maria Madalena: os evangelhos canónicos e alguns apócrifos.

 

 

Os Evangelhos Canónicos

 

Mateus

 

Em 27, 55-61, este evangelista diz-nos que Maria Madalena era uma das mulheres que seguiram Jesus desde a Galiléia e que, com Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu,  ficou sentada defronte do túmulo onde José de Arimateia depositara o corpo de Jesus.

Em 28, 1-10 diz que Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo, que houve um violento tremor de terra e que um anjo do Senhor, que descera do céu, lhes disse para não temerem, mandando-as dizer aos discípulos que Jesus tinha ressuscitado e que o veriam na Galiléia; quando se afastaram, Jesus apareceu-lhes e elas prostraram-se e beijaram-lhe os pés.

 

 

Marcos

 

Em 15, 40-47 e em 16, 1-11 diz sensivelmente o mesmo, mas omite  o tremor de terra e substitui o anjo do Senhor por um jovem vestido de branco, sentado do lado direito no sepulcro, cuja pedra havia sido removida, e que disse o mesmo às mulheres.

Em 16, 9-10, porém, acrescenta um dado novo: Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demónios [20].

 

Lucas

 

Lucas, em 8, 1-3, corrobora o relato dos outros dois evangelistas, nomeadamente a identificação e a anterior possessão de Maria, chamada Madalena­,­ da qual tinham saído sete demónios [21].

Em 23, 50-56 e 24, 1-12 segue principalmente Marcos, mas em vez do jovem  vestido de branco apresenta-nos duas personagens, com vestes resplandecentes, que disseram a Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, que Jesus tinha ressuscitado. 

 

João   

 

João começa por seguir os sinópticos mas introduz novo pormenor: em 19, 25 diz que Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena,

Em 20, 1-18 afasta-se dos outros evangelistas; os três primeiros versículos deste capítulo 20 prestam uma informação que refuta, claramente, a última das presunções acima expostas:

 

1 No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. 2 Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! 3 Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro.

 

Daqui se conclui, sem margem para dúvidas, que Maria Madalena não pode ter sido o discípulo a quem Jesus amava; ademais, no episódio da pescaria no lago de Tiberíades relatado por João em 21, 1-7, o discípulo amado é forçosamente um homem, pois as mulheres não se dedicavam à pesca; acresce, ainda, o facto iniludível de nos originais gregos deste evangelho que chegaram até nós, aparecer sempre a palavra μαθητής (mathetês), discípulo, e nunca μαθητρία (mathetría), discípula [22].

 

Maria Madalena viu dentro do sepulcro dois anjos vestidos de branco, um à cabeceira e outro aos pés; perguntaram-lhe por que chorava e ela respondeu por terem levado o seu Senhor e não saber onde o tinham posto. Então Maria Madalena voltou-se e viu Jesus, de pé, mas não o reconheceu, nem quando este lhe perguntou por que chorava e quem procurava; julgando tratar-se do jardineiro, pediu-lhe que, se tivesse sido ele quem tinha tirado o corpo, lhe dissesse onde o pusera. Então Jesus chamou-a Maria!  e só então esta o reconheceu, exclamando Rabôni! Jesus disse-lhe para não o reter porque ainda não subira ao Pai e pediu-lhe para ir ter com os seus irmãos contar-lhes o que se passara (Jo 20, 12-18).

 

* * *

 

Estas são as únicas referências a Maria Madalena constantes dos evangelhos canónicos, aliás, de todo o Novo Testamento, sendo de notar que os quatro evangelistas parecem ter tido o cuidado de identificar as outras mulheres chamadas Maria de forma a evitar que fossem confundidas com a Madalena[23].

 

 

Os Escritos Apócrifos [24]

 

Pistis Sophia

 

Pistis Sophia, título que traduzo como Sabedoria que garante a Fé, é um tratado gnóstico em cinco livros[25], escrito no século III por um autor desconhecido, onde Jesus “ressuscitado” e algumas entidades espirituais revelam aos discípulos diversos mistérios do Reino dos Céus, entre os quais o papel do Salvador que foi mandado pelo Inefável auxiliar  os homens de acordo com os desejos da humanidade, e revelar a eficácia dos mais altos mistérios da salvação[26].

Maria Madalena é uma personagem de vulto pois intervém várias vezes mostrando perfeita compreensão de tudo quanto fora ensinado, pelo que é tratada  por Jesus  e pelas entidades espirituais com excepcional distinção, como Maria, a abençoada, ou Maria, a bela em seu discurso, etc. Jesus diz-lhe que a completará em todos os mistérios das alturas, pois o seu coração está mais dirigido para o Reino do Céu do que os dos seus irmãos (I, 17); promete revelar-lhe todas as coisas que ela procura (I, 19), e  garante-lhe que herdará a totalidade do Reino de Luz (I, 61). Porém, Maria Madalena mostrou receio de Pedro por este a ameaçar e odiar a sua raça; então o Primeiro Mistério (outra entidade espiritual) tranquilizou-a dizendo que ninguém seria capaz de impedir aquele que fosse cheio com o Espírito de luz (II, 72).

Quanto à sua identidade, o tratado nada esclarece.

 

Evangelho de Tomé

 

Neste famoso evangelho gnóstico, o nome Maria aparece, apenas, duas vezes: no logion 21, onde pergunta a Jesus "Com quem se parecem os teus discípulos?", e no logion 114, o último e que terá sido acrescentado posteriormente, onde Tomé conta que  Simão Pedro disse-lhes, 'Que Maria nos deixe, pois as mulheres não merecem a Vida.’ Jesus disse, ‘Eu mesmo a irei dirigir, a fim de a fazer macho, para que também se torne  um espírito vivo semelhante a vós, machos. Pois todas as mulheres que a si mesmas se fizerem machos, entrarão no Reino do Céu.

Sem dúvida que esta Maria é a Madalena.

 

Vigésimo Discurso de Cirilo de Jerusalém[27]

 

Trata-se de um texto de Cirilo, de que chegou até nós num pequeno fragmento com espaços perdidos, onde este prelado se refere a várias mulheres que se lhe dirigem, identificando-se; uma delas é Maria Madalena que se apresenta dizendo “Eu sou Maria Magdalena porque o nome da povoação onde nasci era Magdala [28].

Esta afirmação é importante pois há quem refute a origem do nome Madalena argumentando que, na época, não havia nenhuma povoação com o nome Magdala, o qual fora posto pelos cruzados a fim de ajustar a toponímia da Terra Santa com a referida no Novo Testamento; trata-se de uma clara falácia visto que as cruzadas começaram nos finais do século XI e o Vigésimo Discurso de Cirilo de Jerusalém  foi escrito cerca de oitocentos e cinquenta anos antes.

 

Actos de Pilatos

 

James Montague Rhodes diz que “No funeral há uma lamentação final da Virgem e outra de Maria Magdalena  que diz: Quem dará isto a conhecer a todo o mundo? Eu irei sozinha a Roma, até César: irei mostrar-lhe o mal que Pilatos fez, concordando com os perversos judeus”. Esta história da ida de Maria Magdalena a Roma, diz este editor,  é uma das que aparece nas crónicas bizantinas e em outros documentos tardios [29].

 

Epístola dos Apóstolos

 

O episódio onde aparece Maria Madalena durante a Paixão é semelhante ao relatado nos evangelhos canónicos, mas contém um detalhe de importância: 9. (...) E do outro lado vieram três mulheres, Maria, a que era parente de Marta e Maria Magdalena [30]  e traziam unguentos para deitar sobre o corpo (...) [31].

Tal como já se viu que Maria Madalena não pode ser o discípulo amado, também aqui se verifica que não pode ser  a parente de Marta.

 

Evangelho de Filipe

 

O Evangelho de Filipe, um dos tratados da biblioteca gnóstica de Nag Hammadi [32], terá sido escrito na Síria durante a segunda metade do século III, e é claramente uma fórmula iniciática de uma escola de mistérios gnósticos, muito provavelmente de Valentinus, onde se realça a importância da Câmara Nupcial, ou Casamento Místico[33]. O mal da humanidade é o resultado da diferenciação dos sexos; quando Eva foi separada de Adão, a unidade andrógina original foi quebrada, pelo que a finalidade da vinda do Cristo é voltar a unir “Adão” com “Eva”. Tal como o marido e a esposa se unem numa câmara nupcial, a reunião efectuada pelo Cristo tem lugar numa sacramental e espiritual  câmara nupcial, onde o homem livre se une, com antecipado prazer e certeza da sua irrevogabilidade, com a sua angélica e celestial contraparte, ou seja, a mulher virgem, virgem porque, penso eu, é imaculada, ou melhor, já se tornou imaculada.

A passagem que deu origem à hipótese de Jesus ser casado com Maria Madalena é a seguinte:

 

(...) Havia três que andavam sempre com o Senhor: Maria sua mãe, e a sua irmã e Madalena, a única que era chamada sua companheira. Sua mãe, sua irmã e sua companheira, cada uma era Maria (...) E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Porém Cristo ama-a mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la muitas vezes na boca. Os restantes discípulos ofendiam-se com  isso e manifestavam a sua censura. Diziam-lhe: Por que a amas mais do que a todos nós?” O Salvador respondia dizendo-lhes: “Por que não vos amo como a ela?” Quando um cego e um que vê estão nas trevas, não diferem um do outro. Quando a luz chega, então o que vê verá a luz e o cego continuará na escuridão (...)

 

Este amor e estes beijos na boca têm de ser vistos numa perspectiva, não sensual. Como é  sugerida por uma leitura superficial, mas iniciática, como, aliás, se encontra definida noutras passagens deste evangelho, bem como no de Tomé.

Diz o Evangelho de Filipe:

 

É do que está prometido para o lugar celestial que o homem recebe alimento (leia-se conhecimento) [...] pela boca. Tivesse o Verbo saído desse lugar e seria alimentado pela boca e tornar-se-ia perfeito. Pois é por um beijo que o perfeito (leia-se mistagogo) concebe e dá nascimento. Por esta razão beijamo-nos uns aos outros. Nós concebemos da graça que está num e noutros.

 

O Evangelho de Tomé esclarece melhor a natureza do beijo:

 

Jesus disse: ‘Quem beber da minha boca tornar-se-á como eu. Eu mesmo tornar-me-ei ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas” (logion 108).

 

Quanto à necessidade de o homem e a mulher estarem ligados, o Evangelho de Filipe explica-a nos seguintes termos:

 

(...) Quanto aos espíritos impuros, há machos e fêmeas entre eles. Os machos são os que se unem com as almas que habitam formas femininas, mas as fêmeas são as que estão misturadas com os que estão em  formas masculinas através daquele que foi desobediente. E ninguém será capaz de lhes escapar, uma vez que o detêm se não receber um poder masculino ou um poder feminino – o noivo e a noiva – São recebidos de um reflectido quarto nupcial. – Quando a mulher licenciosa vê um homem sentado sozinho salta-lhe para cima e brinca com ele e conspurca-o. Assim é também com os homens devassos quando vêem uma bela mulher sentada sozinha, convencem-na e forçam-na, desejando conspurcá-la. Mas se vêem o homem e a sua mulher sentados um ao lado do outro, a fêmea não pode vir até ao homem, nem o macho pode vir até à mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um com o outro, nenhuma aventura pode atingir o homem ou a mulher (...) [34].

 

O Evangelho de Maria

 

Termino com este evangelho, normalmente designado como Evangelho de Maria Madalena por ser esta a personagem central. Trata-se de um escrito gnóstico de que chegaram até nós fragmentos de três manuscritos, dois do século III [35] e outro do século V [36], onde faltam dez páginas.

No âmbito deste trabalho, o seu principal interesse advém de uma frase atribuída a Maria Madalena e que indicia, inequivocamente, a sua raiz iniciática:

 

Eles [os discípulos] afligiram-se e choraram copiosamente dizendo, “Como havemos de ir até os Gentios pregar o evangelho do Reino do Filho do Homem? Se ele mesmo não foi respeitado, como o seremos nós?” Então Maria levantou-se, saudou-os a todos e disse aos seus irmãos, “Não choreis nem vos aflijais nem sejais irresolutos, pois a Sua graça estará inteiramente convosco e proteger-vos-á. Louvemos antes a Sua grandeza, pois Ele preparou-nos e fez-nos em homens [37].  Quando Maria disse isto, os seus corações  melhoraram  e começaram a discorrer sobre as palavras do Salvador.

 

As poucas referências a Maria Madalena que se encontram em outros apócrifos, nada esclarecem sobre a sua identidade.

 

 

Em suma ...

 

Face ao que estes escritos dizem sobre Maria Madalena penso que, literalmente, apenas se pode concluir, ou presumir com alguma segurança,

·        que era assim chamada por ter nascido em Magdala;

·        que dela foram expulsos sete demónios;

·        que seguiu Jesus desde a Galiléia;

·        que era a sua única companheira, a quem Jesus amava mais do que todos os  outros discípulos, costumando beijá-la muitas vezes na boca e tratando-a com especial distinção;

·        que assistiu à crucificação e esteve, depois, no sepulcro vazio;

·        que foi a primeira pessoa a quem Jesus “ressuscitado” apareceu;

·        que o Salvador a fez homem;

·        e que, após a Paixão, quis ir a Roma para denunciar a César o mal que Pilatos tinha feito.

 

No que respeita à sua identificação com a mulher do vaso de alabastro[38], e que Lucas diz ser uma pecadora, trata-se de uma mera suposição, embora aceitável se os seus pecados forem anteriores à expulsão dos sete demónios [39].

Há quem pretenda que Madalena deriva de uma expressão talmúdica que significa cabelos encaracolados  de mulher, que seriam  característicos de uma prostituta! Parece-me uma pretensão inconsistente, não só porque há nenhuma representação sua fidedigna, como há, também, quem afirme que Magdala é um epíteto hebraico que significa torre, ou fortaleza, o que me parece mais aceitável pois é natural que uma torre, ou fortaleza, tenha dado o nome à povoação onde Maria Madalena nasceu. Porém, muito mais significativo é o facto de Madalena ser uma corrupção do árabe mahdi i' lana, que significa ... messias anunciado.

Quanto à adúltera, logo, uma mulher casada, nada há que permita identificá-la com Maria Madalena que em parte alguma é citada como sendo casada ou tendo um homem, como sucede com outras mulheres.

Acerca da hipótese de Maria Madalena ser Maria, a irmã de Marta e de Lázaro, o facto de João dizer que Jesus amava Marta, Maria e Lázaro (Jo 11, 5) apenas significa ... que os amava; de resto, a passagem da Epístola dos Apóstolos atrás transcrita desfaz qualquer dúvida, tal como o constante em João 20, 2 e 3 e João 21, 1-7 torna absolutamente inviável a hipótese de Maria Madalena ser o discípulo amado.

 

 

Afinal, quem era Maria Madalena?

 

Para responder a esta pergunta tenho, em primeiro lugar, de me aventurar pelos domínios da psicologia analítica de Jung[40], a fim de ver o que este famoso psiquiatra e esotericista suíço disse sobre anima e animus.

Anima é um substantivo feminino latino que tem sido traduzido como espírito, alma, vida, respiração; para Descartes era a alma racional do ser humano, mas foi Carl Jung quem melhor desenvolveu  o conceito de anima e de animus.

Em termos muito sumários poder-se-á dizer que anima é a personificação das tendências psicológicas femininas de um homem, o arquétipo feminino do seu inconsciente; em contrapartida, animus, que em latim significa ânimo, é a personificação das tendências psicológicas masculinas de uma mulher, o arquétipo masculino do seu inconsciente; porém, enquanto no homem  a anima actua como se fosse a sua alma, na mulher o animus actua como mente inconsciente.

No campo da Simbologia, o animus é susceptível de ser personificado por múltiplas figuras masculinas, enquanto que a anima  é, frequentemente, personificada por uma única mulher [41].

Anima e animus são projectados pelo homem e pela mulher sobre seres do sexo oposto que lhes despertem uma forte e compulsiva emoção, o que é normalmente positivo, mas por vezes negativo. Quando o homem e a mulher ainda não desenvolveram todas as qualidades próprias do seu sexo, a sua personalidade fica passível de  “possessão” por parte da anima ou do animus, o que se manifesta, no homem, como atitudes pueris e imaturas, e na mulher, como teimosia, autoritarismo e espírito crítico.

É possível evitar as projecções e  “possessões” através da integração do arquétipo do sexo oposto no nosso consciente; a anima integrada conduz o homem às profundezas inexploradas do sentimento, do relacionamento e da sensibilidade, enquanto o animus integrado conduz a mulher ao mundo do espírito, da erudição e do poder da palavra. Esta integração anima - animus é denominada androginia.

 

Recordemos, agora, o essencial dos ensinamentos de Max Heindel sobre o corpo vital.

No ser humano, este corpo é a contraparte exacta do corpo denso com uma excepção, a de ser do sexo oposto: o corpo vital do homem é feminino e o da mulher masculino, o que nos conduz, de imediato, ao conceito de anima e animus.

O corpo vital é constituído por quatro éteres: químico, vital, luminoso e reflector; o primeiro permite a assimilação e a excreção dos elementos nutritivos do corpo denso, e o segundo a propagação das espécies; o éter luminoso proporciona calor ao sangue e o exercício das funções sensoriais; quanto ao éter reflector, intimamente relacionado com a subdivisão mais elevada da Região do Pensamento Concreto, é o meio pelo qual o pensamento impressiona o cérebro humano e aquele que permite o acesso ao reflexo mais baixo da Memória da Natureza.

Os éteres luminoso e reflector têm características opostas  aos éteres químico e vital; enquanto que os átomos destes são estacionários, os daqueles são voláteis e migratórios; no corpo denso misturam-se com o sangue e crescem em função do amor e serviço à  humanidade; esse crescimento pode ser tal que os éteres luminoso e reflector se expandam para fora dos corpos denso e vital, podendo ser vistos, por um clarividente, como um corpo anímico matizado de ouro e azul: é o corpo-alma, o veículo indispensável à iniciação.  

Na iniciação, encontram-se mulheres nos graus mais baixos, mas quando o iniciado já é capaz de escolher o seu sexo, normalmente opta por um corpo masculino, pois o altruísmo que lhe abriu as portas da iniciação já espiritualizou o seu corpo vital e inverteu a polaridade, tornando-o positivo, ou masculino, proporcionando, assim, um instrumento altamente eficaz e um canal de absorção da energia solar muito melhor [42].

Integrando, agora, estas súmulas dos ensinamentos de Jung e de Heindel, fácil é concluir que anima e animus são, respectivamente, os corpos vitais do homem e da mulher, cujas  idiossincrasias são o resultado da influência dos seus corpos de desejos e mentes. Quando o arquétipo do sexo oposto é integrado no nosso consciente, estamos no caminho do amor e do serviço necessários à construção do corpo-alma de Max Heindel, ou da androginia de Carl Jung.

Se voltarmos a ler o que os textos canónicos e apócrifos nos dizem em termos eminentemente alegóricos, parece-me claro que Maria Madalena não é uma mulher real, mas apenas a  personificação simbólica da anima de Jesus.

Por isso se diz que era a sua companheira, que este a amava mais do que os outros discípulos e que costumava beijá-la na boca, o que, neste contexto, nada tem de sensualidade, sendo, antes, uma mera alegoria da transmissão de determinadas instruções iniciáticas “boca a boca” e não apenas “boca a ouvido” [43].

Por isso Jesus disse que “completaria” Maria Madalena, isto é, a sua anima, em todos os mistérios das alturas,  e prometeu revelar-lhe todas as coisas que ela procurava, para o que a preparou e a fez em homem.

Por isso, depois da Paixão, nenhum texto canónico volta a falar de Maria Madalena.

            Em suma, penso que Maria Madalena seja, apenas, um símbolo da anima, ou, em termos rosacrucianos, um símbolo do corpo vital de Jesus, purificado após a expulsão dos sete demónios, ou seja, dos sete pecados mortais.

 

 

 

O GRAAL

 

 

O Código da Vinci sugere que os restos mortais de Maria Madalena, ou seja, o Santo Graal, se encontram no Museu do Louvre, ocultos na pirâmide miniatural que sobressai do solo por baixo da pirâmide invertida[44], o que, em minha opinião, é mais um erro de Dan Brown. Assim, apoiado naturalmente em Max Heindel, Corinne Heline e outras fontes credíveis, vou seguir a minha intuição para expor o que penso ser o verdadeiro Graal.

 

 

A natureza mítica do Graal

 

            Para a generalidade dos cristãos, trata-se do cálice por onde Jesus e os seus discípulos beberam durante a Última Ceia.

Nada há que nos diga de que material foi feito, mas não faltam lendas sobre este pormenor. Enquanto Spielberg, em A Última Cruzada, nos apresenta, racionalmente, um simples cálice de madeira, uma velha tradição refere que foi talhado numa grande esmeralda que se soltou da coroa de Lúcifer quando este foi precipitado dos céus e que os anjos conseguiram recuperar; é o Graal de Esmeralda [45], ou  Lapsit Exillis [46], que, segundo Wolfram von Eschenbach [47], possuía propriedades miraculosas, como alimentar quem não tivesse pecados, mas também cegar os impuros de coração ou emudecer os irreverentes que fossem à sua presença.

Será curioso referir que existem seis cálices considerados como podendo ser o Graal, que se encontram, um no Museu Metropolitano de Arte, em Nova Iorque, dois no Museu de Berlim, um no Museu Britânico, outro em Leyden, e o sexto numa igreja em Itália; destes, apenas o primeiro, o Cálice de Antioquia, como é conhecido, merece alguma atenção porque o mito parece prosseguir na realidade histórica.

Diz a lenda que este cálice foi guardado em Glastonbury por José de Arimateia, como veremos mais à frente, e séculos depois entregue aos cruzados a fim de o devolverem à Terra Santa; porém, em 1098, durante a batalha de Antioquia e na iminência de uma derrota, foi escondido para não cair em mãos infiéis, mas o seu rasto perdeu-se. Em 1910, quando se procedia a escavações em Antakya, antiga Antioquia, foi descoberto  um conjunto de peças em prata, entre as quais um cálice de prata artisticamente trabalhada, com gravuras representando uma vinha com as vides entrelaçadas a envolver duas figuras de Jesus, uma  jovem, outra adulto, e de dez discípulos empunhando rolos e sentados em cadeiras de costas altas; o cálice mede 192 mm de altura, tem um pé curto e muito pequeno, e o seu interior, simples e feito em madeira, separa-se como se fosse um segundo cálice. A peça foi vendida em segredo a um antiquário e depois levada para Paris, onde esteve exposto no Museu do Louvre. Os estudos a que entretanto  foi sujeita dataram-na dos séculos IV ou V A.D., embora houvesse quem acreditasse tratar-se do verdadeiro cálice da Última Ceia.  Quando deflagrou a Primeira Guerra Mundial, foi levado para os EUA, onde foi exposto em vários locais, até que Rockefeller Júnior o comprou e ofereceu ao Museu Metropolitano de Arte, em Nova Iorque.

            Seja como for,  o destino do Graal mantém-se envolto em mistério.

Uma das lendas mais generalizadas, e que Corinne Heline seguiu em Mysteries of the Holy Grail[48], diz que José de Arimateia estava presente quando Cristo deu aos seus discípulos a benção da despedida; desejoso de ficar com uma recordação de tão memoráveis momentos, voltou à sala onde tivera lugar a Última Ceia e levou o cálice por onde todos tinham bebido, e no qual recolheu, no dia seguinte, o sangue que correu do ferimento provocado pela lança do soldado romano Longinus na ilharga de Jesus.

Após a Ressurreição, José de Arimateia foi desapossado dos seus bens e condenado a morrer à fome numa enxovia[49], o que não sucedeu porque o cálice o protegeu: todos os dias os anjos traziam-lhe os alimentos e as bebidas que mais apreciava, enquanto gloriosos seres alados o visitavam e lhe levavam palavras de conforto; o próprio Cristo passou consigo longas horas, transmitindo-lhe um saber impossível de obter de outra fonte.

Quando foi posto em liberdade[50], Cristo disse-lhe: “Filho, parte e leva a Minha mensagem até muitas terras”. José ficou apreensivo e replicou: “Mestre, sempre fui fraco orador, não posso pregar”. “Filho, disse o Cristo, não te incomodes com as palavras; abre a boca e o discurso ser-te-á dado”.

José de Arimateia embarcou num navio branco rumo a Marselha, levando consigo o Graal, a lança, a coroa de espinhos, os quatro pregos [51] e o prato onde fora servida a comida na Última Ceia; acompanhavam-no diversos amigos, entre os quais Maria Madalena, Lázaro e as suas irmãs, o romano  Longinus e o rei Evelake que entretanto se tinham convertido ao Cristianismo.

Ao chegar a Marselha, a lenda bifurca-se em duas direcções: uma, aponta o sul da Gália como o território onde os viajantes se fixaram; outra, diz que José de Arimateia teve  uma visão que o mandou prosseguir viagem para Oeste. A primeira é a preferida pelos autores de O Sangue de Cristo e o Santo Graal e de O Código Da Vinci; a minha intuição leva-me a escolher a segunda,  prosseguindo, assim, na senda de Corinne Heline.

Os viajantes chegaram à Grã Bretanha por volta do ano 63. O rei Arviragus recebeu-os de braços abertos e ofereceu-lhes as  terras então conhecidas como Ilha ou Vale de Avalon, no actual condado de Somerset, onde ergueram uma pequena igreja para guardar as preciosas relíquias, em torno da qual iria nascer, pouco depois, uma pequena povoação, Glastonbury Tor.

Durante anos o Graal esteve à vista dos peregrinos e a sua presença foi uma benção para aquelas terras, tendo a sua guarda sido confiada aos descendentes de José de Arimateia e dos seus companheiros que fizessem votos de pacifismo e de absoluta pureza de pensamentos, palavras, emoções e actos.

Mais tarde, porém, um dos guardiães, Amfortas, neto do rei Evelake, ao ver uma bela e jovem peregrina ajoelhada a seus pés, esqueceu os votos e contemplou-a com olhos libidinosos; imediatamente a Lança Sagrada infligiu-lhe  um profundo ferimento que não pôde ser curado, e o Graal retirou-se da vista dos que ali o iam adorar. E à época de felicidade que os objectos sagrados tinham trazido às tribos britânicas, sucedeu  a idade de ferro.

Diz Corinne Heline [52] que a pequena igreja de Glastonbury Tor era, na realidade, a casa dos Mistérios Cristãos do Ocidente, a qual resistiu, durante séculos, às cruéis perseguições da Igreja de Roma, situando-se aí a verdadeira origem da Igreja Anglicana e não no arbitrário desejo de Henrique VIII de trocar de esposa, como é vulgarmente referido. Assim, José de Arimateia, tal como Pedro, foi instruído por Cristo antes e depois de Jesus ter sido crucificado, pelo que a sua autoridade não pode ser questionada.

 

 Este terá sido um dos destinos do Graal, mas de acordo com a outra versão da lenda José de Arimateia e os seus companheiros desembarcaram em Marselha, tendo a relíquia ficado algures no sul da Gália. No ciclo Parsifal, de Richard Wagner, encontramos o rei Evelake com o nome Titurel, a quem um anjo revelou o local mais seguro para erguer um castelo onde devia guardar o Graal: um pico nos Pirinéus. A sua construção demorou três ou quatro séculos apesar de nunca ser interrompida, pois os homens que trabalhavam de dia eram substituídos por anjos durante a noite; era o Castelo de Carbonek - ou de Mont Salvat, como preferiu Wagner -  uma rocha sobre rocha, de formato quadrado, com um leão em cada face.

           

 

A demanda do Santo Graal

 

O Rei Artur

 

            As referências mais antigas ao Rei Artur encontram-se nos poemas galeses Y Gododdin (sec IX ou X),  e  The Mabinogion (c. 1100), mas  é a Historia Regum Britanniae (c. 1139), de Geoffrey de Monmouth, que assinala o início da lenda arturiana e serviu de base à maioria das histórias que se seguiram, a primeira das quais foi o Roman de Brut (1205), de Layamon, onde o Rei Artur é retratado como um líder militar. Pouco depois, a atenção dos autores virou-se para os Cavaleiros da Távola Redonda  e a Demanda do Santo Graal, tema introduzido na lenda arturiana por Robert de Boron com Joseph d’Arimathie, ou Le Roman de l’Estoire du Graal (fins sec. XII); seguiram-se, em França, as obras de Chrétien de Troyes, a mais famosa das quais é, sem dúvida, Perceval, ou le Conte du Graal (c. 1175), um poema inacabado por sua morte e mais tarde completado por três outros autores, e na Alemanha  o poeta Hartmann von Aue (sec XIII) foi o primeiro a pegar no tema, em Erec et Enide, a que se seguiu Wolfram von Eschenbach com o célebre Parzifal.

O ciclo arturiano prosseguiu ao longo dos tempos, até à actualidade, pela mão de diversos autores, sendo de realçar Sir Thomas Malory com o romance Morte d’Arthur (1485), e o poeta inglês Lord Tennyson, com Idylls of the King (1859-1885), em que Corinne Heline se baseou para escrever a sua obra já citada; na música temos a ópera Parsifal (1882) de Richard Wagner, baseada no poema de Wolfram e que Max Heindel analisa em Mistérios das Grandes Óperas, e no nossos dias diversos filmes, como Excalibur e A Última Cruzada, bem como a obra de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, onde a saga arturiana é apresentada sob o ponta de vista feminino.

            Artur é, de facto, uma personagem histórica, mas desfigurada pelas lendas que se teceram em torno de si. Nasceu em Tintagel, Cornualha, nos fins do século V, filho de Uther, o pendragon, título idêntico ao de suserano, e de Igraine.  Depois de coroado rei dos Bretões, enfrentou inimigos internos e externos, como os Saxões que tinham desembarcado na Grã Bretanha, tendo saído vitorioso em todas as batalhas. O seu reinado conheceu um período de vinte anos de paz até que a revolta do seu sobrinho, Mordred, deu origem, em 542, à sangrenta batalha de Camlan, onde este foi morto e Artur sofreu graves ferimentos. Diz a lenda que foi levado para Glastonbury mas não sobreviveu, tendo sido sepultado na abadia local, o que, curiosamente, parece ser um facto real já que, em 1150, o rei Henrique II ordenou que se abrisse uma determinada sepultura onde foram encontrados ossos, uma espada e uma cruz de chumbo com uma inscrição em latim, toscamente gravada, que dizia “Aqui jaz o famoso Rei Artur, na ilha de Avalónia”.

 

Os Cavaleiros da Távola Redonda

           

            As diversas versões da lenda da Távola Redonda atribuem a esta mítica ordem de cavalaria[53] um número de cavaleiros muito variável, que vai desde o simbólico 13 ao surpreendente 1.600, dos quais os mais populares são o rei Artur, Sir Percival e Sir Lancelot,  a par de outras personagens, como a rainha Guinevere, o célebre mago Merlin, a bela feiticeira Morgan Le Fay e a misteriosa Dama do Lago que deu a Artur a espada mágica Excalibur.      

Segundo Sir Thomas Malory o código de honra seguido pelos cavaleiros, era “nunca ultrajar, nem  matar, fugir sempre da traição,  não ser,  de forma alguma, cruel, mas misericordioso para quem pedisse misericórdia, socorrer, sempre, senhoras, damas e viúvas, nunca forçar senhoras, damas e viúvas, e não tomar parte em batalhas de injustas disputas sobre amor e bens mundanos”.

Mas foi a demanda do Santo Graal que imortalizou os Cavaleiros da Távola Redonda, muito embora uma versão da lenda pretenda que apenas Sir Galahad foi bem sucedido; há, contudo, uma outra,  mais generosa, que concede tal honra a Sir Galahad, Sir Percival e Sir Bors; é a que vou, sucintamente, referir.

            Sir Galahad, o “Perfeito Cavaleiro“ em coragem, gentileza, cortesia e ideal, era filho natural de Lancelot  e de Elaine de Corbenic, que o iludiu fazendo-o crer que se iria deitar com a sua amada Guinevere.

Um misterioso ancião conduziu-o á corte do rei Artur e sentou-o no Siège Perilous (assento perigoso), um lugar na Távola Redonda reservado ao Cavaleiro do Graal. Armado com o escudo branco que o rei Evelake tinha feito e onde José de Arimateia traçara, com sangue, uma cruz vermelha, Sir Galahad tomou parte em numerosas batalhas, ultrapassou diversas peripécias, como tirar uma espada cravada numa pedra que se encontrava num rio[54], e viveu inúmeras aventuras, como a viagem no barco negro dos espíritos de onde foi retirado por Merlin, etc.

Sir Percival, Sir Bors e Sir Galahad juraram encontrar o Santo Graal ou a morte, e foram previamente testados: o primeiro foi tentado a mostrar cobardia, o segundo a perder a sua fé e Sir Galahad a usar a espada para matar. Depois de terem vencido as suas provas, encontraram-se transportados em barcaças até uma praia onde os esperavam três cavalos que os levaram ao vizinho Castelo de Carbonek. Aí encontraram o rei Pellan, ferido, que os conduziu à capela com que o pai de Sir Galahad tinha sonhado. De facto, Sir Lancelot tinha visto, em sonhos, o Santo Graal sobre um altar desta capela, rodeado por seis velas acesas; viu um velho, ferido, pedir ao Senhor que o sarasse, tendo ficado curado mal tocou no Graal, que desapareceu logo que o velho agradeceu a graça recebida.

Depois de aguardarem algum tempo, os quatro homens viram entrar quatro mulheres; duas traziam círios, outra, um vaso coberto com um rico tecido de seda antiga, e a quarta uma lança gotejando sangue. Então surgiu o Graal e os três cavaleiros foram autorizados a beber dele. Sir Galahad tomou a lança das mãos da mulher e, aproximando-se do rei Pellam, suspendeu-a sobre o ferimento; o sangue da lança escorreu para o golpe  e o rei ficou imediatamente curado.

Após este milagre, Sir Galahad entrou em êxtase e pediu para morrer, o que lhe foi concedido por ser puro e nunca ter morto ninguém. Então  dois anjos levaram para os céus a sua alma, o Santo Graal e a lança.

 

 

O Graal, segundo a minha intuição

 

Tendo em atenção a simbólica que envolve estas lendas e as suas variantes, a minha intuição leva-me a considerar, como muito provável, a hipótese de o Graal ser o corpo vital de Jesus.

            Em termos alegóricos, poder-se-á dizer que o cálice da Última Ceia conteve o sangue de Jesus, o simbólico sangue da Nova e Eterna Aliança; que é a mais preciosa das relíquias, pois foi talhado numa esmeralda; que possui propriedades miraculosas, como a de alimentar quem não tenha pecados, mas também a de castigar os impuros de coração; que desapareceu e foi o alvo da maior e mais nobre demanda de todos os tempos; que só os puros de espírito o podem encontrar.

Deixemos as alegorias e passemos à objectividade dos ensinamentos rosacruzes de Max Heindel relativos ao corpo vital de Jesus.

Como arcanjo, o veículo mais denso do Cristo é o corpo de desejos, o que não lhe permitiria funcionar no Mundo Físico. Como um dos objectivos da sua missão era unificar as diversas religiões de raça, o que exigia uma actuação de dentro para conquistar o que afectava  o ser humano de fora, tinha de aparecer como homem entre os homens, pelo que, durante a cerimónia iniciática conhecida como Baptismo no Jordão, tomou posse dos corpos vital e denso de Jesus durante o seu ministério de cerca de três anos, até que, no Calvário, deixou o corpo denso na cruz e quarenta dias depois, quando da Ascensão (Mc 16, 19, Lc 24, 51, Ac 1, 9 e 10), largou o corpo vital, o qual foi cuidadosamente guardado, penso que pelos hierofantes das escolas de mistérios, a fim de possibilitar, não só a sua segunda vinda, a Parusia, mas também a sua retirada final da Terra quando terminar a sua  missão.

            Nestas condições, Jesus teve de construir um corpo vital provisório, enquanto o seu estava a ser utilizado pelo Cristo, o qual se desintegrou quando os átomos-semente denso e vital lhe foram devolvidos e cessou o poder de vontade que o mantinha activo; por isso, Jesus teve de construir um terceiro e definitivo corpo vital a fim de poder actuar sobre as igrejas que se foram formando, o que não lhe seria possível a partir do Mundo de Desejos porque a um alto iniciado, como ele, é extremamente difícil descer até regiões onde o grau de vibração da substância constituinte é muito mais baixo [55].          

Quanto ao original corpo vital de Jesus, penso que, mais tarde, os Irmãos Maiores o tomaram à sua guarda, colocando-o num sarcófago de vidro, porque nenhum espírito do Mundo de Desejos, mesmo Lúcifer, pode atravessar nem ver através do vidro, sarcófago esse que foi depositado numa caverna, nas profundezas da terra, onde está permanentemente guardado à vista, a fim de o proteger do ataque de forças negras ou de olhares curiosos e profanos, como nos diz Max Heindel [56].

Em suma, tal como o simbólico cálice da Última Ceia, o corpo vital de Jesus conteve o seu sangue, o sangue da Nova  e Eterna Aliança; é a mais preciosa das relíquias; está guardado num sarcófago de esmeralda; possui propriedades miraculosas; “desapareceu” e é o alvo da maior e mais nobre demanda de todos os tempos, a da iniciação, mas só os puros de coração e espírito o podem encontrar.

 

 

Outubro de 2005


NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 



INTRODUÇÃO

 

[1] Dan Brown, The Da Vinci Code (2003), trad. Mário Dias Correia, 13ª ed., Lisboa, Bertrand Editora, 2004.

   O autor inspirou-se, basicamente, em três livros:  O Sangue de Cristo e o Santo Graal, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln,  um best-seller onde os autores analisam determinados dados históricos, ou factuais, e extraem hipotéticas conclusões que na altura levantaram enorme celeuma, Maria Madalena e o Santo Graal, A Mulher do Vaso de Alabastro, de Margaret Starbird  e O Segredo dos Templários: O Destino de Cristo, de Lynn Picknett e Clive Prince.

[2] In Rays from the Rose Cross, Julho-Agosto de 1996.

 

 

OS EVANGELHOS

 

[3] Para facilitar a exposição, não vou usar expressões rigorosas como Evangelho segundo São Mateus, ou o autor do evangelho atribuído a Marcos,  mas apenas Evangelho de Lucas, ou simplesmente João.

[4] Um dos maiores templos mitraicos era dedicado a ‘Anahita, a Imaculada Virgem Mãe do Senhor Mitra.

[5] Este mito tem a ver com a descoberta do fenómeno da precessão dos equinócios, feita por volta de 128 a.C., pelo célebre astrónomo grego Hiparcos..

[6] (…) ce qui se nomme aujourd’hui religion chrétienne, existait dans l’antiquité et dès l’origine du genre humain jusqu’à ce que le Christ s’incarnât, et c’est de lui que la vraie religion qui existait déjà, commença à s’appeler chrétienne (…) ; in Les Rétractations, Livre Premier, Chapitre XXX, 3, trad M. Henry de Riancey, versão ebook em francês, in  http://www. multimania.com/ abbayestbenoit/augustin/retractationes/. Esta verdadeira religão constituía o cerne dos ensinamentos ministrados nas escolas de mistérios pagãs, precursoras das cristãs, pelo que esta afirmação de Santo Agostinho indicia a sua qualidade de iniciado. 

[7] E não Constantino o Grande, como escreveu Dan Brown em O Código Da Vinci (p. 280)

[8] As Cartas de Paulo foram os primeiros textos de entre os que iriam ser considerados canónicos.

[9] Cf. Irenaeus Against Heresies, Book III, Chapter XI, nº 8, versão ebook em inglês, in http://www.ccel.org/ fathers/ANF-01/iren/.

[10] Diz Dan Brown que foi Constantino quem encomendou uma Bíblia que omitia os evangelhos que falavam das características humanas de Cristo, os quais foram banidos e queimados (O Código Da Vinci, p. 283); trata-se de mais um dos seus erros históricos.

[11] Homólogo do hierofante dos  Mistérios de Elêusis.

[12] Esta é a tradução correcta do final do versículo 12, e não a que consta das Bíblias comuns: (...)  não suceda que se convertam e sejam perdoados, o que é incompreensível. Sobre este clamoroso erro, cf. António de Macedo, Laboratório Mágico, Lisboa, Hugin Editores, Ldª, 2002, pp. 68 e 69.

[13]