Navegabilidade do Douro, como e para quê?

Manuel Tão(*)
Carlos Fonseca(**)
 

Diversos têm sido, ao longo de mais duma década, as expectativas e anseios centrados sobre tão ambicioso projecto como o é tornar-se o rio Douro uma via navegável, destinada ao transporte de mercadorias. Volvidos que foram uma série de anos desde o arranque do projecto, sob a vigência do governo Pinto Balsemão, os resultados do investimento de avultadas somas em eclusas e dragagens, afiguram-se longe dos propósitos de fazer do Douro uma via de tráfego internacional entre o Norte de Portugal, Espanha e a restante Europa, por entre ciclos sucessivamente alternados de “dormência” do projecto, e reafirmação do empenho no mesmo do poder político, sobretudo quando se avizinham épocas eleitorais.

Questionar-se exactamente aquilo que não correu da melhor maneira, poderia e deveria ser um exercício útil para Portugal e até mesmo para o projecto de “navegabilidade” do rio Douro, o qual ao fim de tantos anos mais não conseguiu para além de captar um tráfego restrito de gráneis produzidos nas regiões atravessadas e uma ou outra mercadoria de baixo valor acrescentado. A componente internacional do projecto, actualmente ausente, conferiria fluxos de tráfego contínuos, justificativos do capital fixo investido até hoje e prácticamente irrecuperado. Para tal, tornar-se-ia essencial enquadrar a via navegável no seu “hinterland” natural, prolongado-se o mesmo a Castela e Leão e centro da Península Ibérica. 

Em Portugal é particularmente vulgar assistir-se, em todos os domínios do planeamento, a uma ausência completa de sentido estratégico, juntamente com uma incapacidade crónica das autoridades governativas representadas por uma miríade de organismos quase-estanques, de se integrarem as diversas componentes sectoriais numa política global. E o projecto dum rio Douro navegável não parece, neste caso, constituir uma excepção.  

Que tipo de interface próxima da fronteira foi até hoje considerada como sendo necessária, para conferir a uma via navegável as imprescindíveis acessibilidades, de molde a assegurar-se para a mesma, a “área de influência” hoje inexistente? Nenhuma. O modesto cais-ancoradouro de Vega de Terrón, oposto a Barca de Alva, não apresenta em termos técnicos, quer pela sua reduzida dimensão, quer pela estrada regional que o serve, utilidade alguma, para além de constituir um insignificante cais acostável para barcos de recreio e turismo. A consolidação de cargas internacionais contentorizadas num verdadeiro terminal, servido por um via de grande capacidade, em articulação estreita com o rio navegável, exige outro tipo de infraestruturas, e medidas políticas, as quais vêm sendo sistemáticamente ignoradas. 

O abandonado mas ainda-existente caminho de ferro do Douro internacional, parte integrante da linha Porto-Salamanca, pode, neste aspecto, constituir a diferença, caso seja objecto da reabilitação integral de que há muito necessita. A totalidade do seu traçado, túneis e pontes continua intacta, sendo paralelo ao rio Douro no seu troço terminal em território Português, entre Pocinho e Barca de Alva. Um terminal ferroviário-fluvial localizado, por exemplo, em Almendra, conferiria à navegabilidade a interface da qual hoje carece, para a mesma se poder assumir como um corredor internacional de mercadorias, dirigidas ou oriundas do centro da Península. Composições unitárias de 30 vagões-plataforma, dotados de atrelagem automática transfeririam rápidamente 60 contentores de vinte pés, do rio Douro para a restante Península e vice-versa. Deste modo, a capacidade de transporte duma só embarcação ( 1200 ton ) estaria a apenas 130 Km de Salamanca, 250 Km de Valladolid, ou 300 Km de Madrid, sem qualquer alternativa mais próxima num porto Cantábrico, Mediterrânico, da Galiza, ou até mesmo em outros pontos da orla Atlântica Portuguesa. 

Reabilitar 28 Km de via férrea em território Português, e outros 78 Km na Província de Salamanca, entre a ponte internacional sobre o rio Águeda e a estação de Boadilla-Fuente de San Esteban, onde entronca a linha Vilar Formoso-Salamanca, não é objectivamente impossível em termos técnicos e sobretudo financeiros. Os fundos comunitários de tipo “transfronteiriço” adaptar-se-iam perfeitamente a uma situação na qual é necessário reforçar mais de uma dezena de viadutos metálicos, refazer a infraestrutura de via e renovar as telecomunicações. O terminal intermodal a estabelecer nas proximidades da fronteira contaria com, pelo menos 750m de cais acostável, duas ou três linhas de resguardo e pelo menos um pórtico de carga/descarga de contentores. Composições mais longas necessitariam pela sua dimensão e carga rebocada, o emprego dum terminal mais extenso ( o mesmo sucedendo com os imprescindíveis pontos de cruzamento em via única ) e possivelmente, substituição da tracção “Diesel”, em unidades múltiplas, pela eléctrica. O volume de tráfego que, numa perspectiva minimalista, seria possível fazer transportar diáriamente, numa ferrovia com as características da linha Barca de Alva-Salamanca poderia localizar-se em não-menos de quinze movimentos por sentido ( ou 2x18000ton. entre cada um dos países, equivalente a um tráfego máximo admissível de trinta barcos em ambas as direcções, todos os dias ). Qualquer que fosse a modalidade a implementar, o Grande Porto recuperaria igualmente uma ligação ferroviária directa à restante Europa da qual vem carecendo há vários anos. 

Num momento em que o actual Governo Português fez editar um “livro branco” sobre portos, no qual se preconiza a valorização do território nacional, do mesmo se propondo fazer uma “porta Alântica da Europa” implementando-se políticas intermodais, não é estranho constatar que o potencial do abandonado troço ferroviário além-Pocinho continua sistemáticamente a ser ignorado pelas entidades oficiais de Portugal e Espanha? Enquanto que ao caminho de ferro for recusada uma qualquer perspectiva de reabilitação, relegando-se a mesma para uma questão interna e exclusiva dos operadores CP e RENFE, que sentido têm os costumeiros discursos de ocasião e circunstância, centrados sobre a importância da “navegabilidade” do rio Douro e do necessário intermodalismo articulado? E como será possível justificar os milhões já gastos no projecto sem a captação dos imprescindíveis tráfegos internacionais em volume significativo? 

PELA LINHA DO DOURO, O ATLÂNTICO ESTÁ A UNS MEROS 150 KM DE SALAMANCA, 220 KM DE VALLADOLID E 350 KM DE MADRID.
SENHORES PRIMEIRO-MINISTRO E MINISTRO DO EQUIPAMENTO: VOLVIDOS CINCO ANOS DE GOVERNAÇÃO, ONDE ESTÁ A POLÍTICA DE “PLATAFORMAS INTER-MODAIS” LIGADAS A ESPANHA DEFENDIDA PELO GOVERNO? O TGV É IMPORTANTE MAS NÃO TRANSPORTA CONTENTORES. ATÉ QUANDO FICARÁ A LINHA DO DOURO ARREDADA DAS CIMEIRAS IBÉRICAS?

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(*) Doutor em Economia de Transportes. manueltao@hotmail.com

(**) Docente de Matemáticas Puras cmf@mat.uc.pt
 

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